Coluna do Meio

22 de fevereiro de 2019

Mudanças Climáticas: Breve reflexão sobre o tema no atual momento político brasileiro

 

 

A negação da ocorrência das mudanças climáticas e a certeza de que são consequências de ações humanas é um tópico que, romantizando, podemos afirmar estar “na moda” no discurso de diversos políticos pelo mundo. Segundo o brilhante comentário da cientista de clima Naomi Oreskes no prefácio do livro “Climate Change Denial: Heads in the Sand”¹, muitas dessas pessoas gostam de se intitular como “céticas”, mas esses homens (e eles são em sua maioria homens) não são céticos. Céticos são aquelas pessoas que desafiam oponentes a providenciar evidências para suas crenças. Um cético rejeita verdades baseadas na fé e posições que não tem como base fatos. Todos os cientistas são céticos. Eles insistem que deve haver uma evidência para toda alegação e insistem em promover um debate substancial sobre a quantidade e a qualidade dessas evidências antes de aceitá-la. Quanto mais radical uma alegação, mais difícil sua aceitação para um cético. 
 
A negação, por outro lado, é a recusa em acreditar em algo independente de quantas evidências lhe são apresentadas. Não se trata da busca pela verdade, mas da recusa incondicional de uma verdade que não me agrada. Nesse contexto, céticos e negadores são opostos. O artigo “Quantifying the consensus on anthropogenic global warning in the scientific literature”² escrito por John Cook em 2013 (e revisado em 2014), confirma esse “falso ceticismo” através da análise de publicações sobre clima. A conclusão é de que (até a época) 97,1% das amostras confirmam a existência de um consenso científico de que as ações humanas afetam diretamente as mudanças climáticas.
 
O que vem ocorrendo no discurso de alguns políticos, portanto, é a reprodução de um anseio por uma verdade que não possui nenhum embasamento fático para suportá-la. Consequência disso foi a recente decisão do governo brasileiro em não sediar a COP25³, prevista para ocorrer neste ano, mesmo o Brasil estando entre os 10 países mais afetados pelas mudanças climáticas, conforme pesquisa elaborada pela ONG Germanwatch⁴, que monitora as políticas climáticas no mundo.
 
Contudo, diversas pesquisas realizadas no Brasil demonstram uma preocupação da maioria da população com o tema. Em 2017 foi publicada pelo Pew Research Center⁵,  instituto de pesquisa sobre tendências globais, com sede em Washington, um estudo de opinião com mais de 40 mil pessoas em 38 países. Conforme os dados, os brasileiros consideram a mudança climática a principal ameaça à segurança do país e do planeta – acima do terrorismo e da economia. No ranking geral dos países que colocaram as ameaças climáticas no topo das preocupações nacionais está a Espanha, com 89%. O Brasil ocupa a 11ª posição, enquanto os EUA, a 27ª.
 
Outra pesquisa realizada pelo Instituo Datafolha em 2015, encomendada pelo Observatório do Clima e pelo Greenpeace Brasil⁶, 85% dos cidadãos acham que as mudanças climáticas já estão afetando o Brasil e para 95%, essas mudanças têm relação com a crise hídrica e energética no Brasil.
 
Entretanto, o caminho que o governo brasileiro está traçando em relação à estas evidentes mudanças se resume pelas recentes notícias:
 
“Bolsonaro acha que a mudança climática é coisa de ativistas que gritam”
 
Suzana Kahn e Marina Grossi, acadêmicas e líderes visíveis do setor ambiental brasileiro, dizem que é preciso convencer o novo Governo sobre os benefícios econômicos da produção sustentável⁷.
 
 
Futuro chanceler de Bolsonaro diz que a mudança climática é "dogma marxista" 
 
O futuro ministro das Relações Exteriores do novo governo, Ernesto Fraga Araújo, nomeado pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, na última quarta-feira (14), disse que acredita que a mudança climática é um dogma científico influenciado pela cultura marxista, que pretende atrapalhar o Ocidente e beneficiar a China. O futuro chanceler também vem defendendo as ideias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. 
 
 
Bolsonaro: Brasil desistiu de COP-25 por custo de R$ 500 milhões
 
“Abrimos mão de sediar a Conferência Climática Mundial da ONU pois custaria mais de R$500 milhões ao Brasil e seria realizada em breve, o que poderia constranger o futuro governo a adotar posições que requerem um tempo maior de análise e estudo”, escreveu Bolsonaro, que já levantou a possibilidade de que o Brasil revisse seus comprometimentos feitos no Acordo de Paris, pelo qual o país estabeleceu a meta em reduzir em 37% as emissões até 2025, tendo como ponto de partida as emissões de 2005 – além de colocar como objetivo extra uma possível redução de 43% das emissões até 2030.⁹
 
 
Itamaraty elimina setor de mudança climática, e Ambiente fica sob Soberania Nacional
 
Divisão representava governo brasileiro em fóruns internacionais do clima; chanceler já disse que defesa do tema é 'tática globalista.¹⁰
 
 
Ministério do Meio Ambiente vai enxugar área de mudanças climáticas
 
Atividades ficarão concentradas numa assessoria especial de mudança do clima, a ser criada.¹¹
 
 
Observamos, portanto, não apenas um falso ceticismo, mas um movimento de insignificância ao tema por parte do governo. As consequências para isso, além das devastadoras influências das mudanças climáticas, é um posicionamento contrário à acordos internacionais que o Brasil é signatário (como o acordo de Paris e o protocolo de Kyoto). Tais fatos ignoram tanto a opinião pública quanto o consenso científico sobre o tema, sendo, portanto, não uma questão de “opinião”, mas uma negação infundada e com implicações desastrosas.
 
 
 
 
 
 
1 COOK, J. and WASHIGNTON, H. (2011) “Climate Change Denial: Heads in the Sand”.
 
2 Disponível em: <https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/8/2/024024>.
 
3 https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-desiste-de-sediar-conferencia-do-clima-em-2019,70002624359
 
4 https://germanwatch.org/sites/germanwatch.org/files/publication/16411.pdf
 
5 http://www.pewglobal.org/2017/08/01/globally-people-point-to-isis-and-climate-change-as-leading-security-threats/
 
6 https://secured-static.greenpeace.org/brasil/Global/brasil/image/2015/Maio/datafolha%20clima.pdf?_ga=2.215828190.834779862.1550658716-4609035.1550658716
 
7 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/30/internacional/1543584550_559566.html
 
8 Fonte: Último Segundo – iG @ https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2018-11-16/chanceler-ernesto-araujo.html
 
9 https://veja.abril.com.br/mundo/bolsonaro-diz-que-desistiu-de-conferencia-climatica-por-custo-de-r-500-mi/
 
10 https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/01/itamaraty-elimina-setor-de-mudanca-climatica-e-ambiente-fica-sob-soberania-nacional.shtml
 
11 https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/01/ministerio-do-meio-ambiente-vai-enxugar-area-de-mudancas-climaticas.shtml
 
 
 

 

 

 

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