Amazônia

Borracha amazônica colorida vira peças de joias orgânicas vendidas internacionalmente

4 de agosto de 2020

Matéria-prima usada por designer sai do Acre e Pará. Flavia trabalha também capacitando as comunidades que trabalham com a extração do látex.

 

 

Peças são pensadas e inspiradas na Amazônia, de onde sai a matéria-prima  — Foto: David Parry/Divulgação

Peças são pensadas e inspiradas na Amazônia, de onde sai a matéria-prima — Foto: David Parry/Divulgação
 
 
 
 
“Você levar a borracha até as pessoas, é levar um pedacinho da Amazônia viva. É uma forma de contar a história, das pessoas saberem que tem gente que mora na floresta e protege ela”. Assim a designer brasiliense Flavia Amadeu define seu trabalho com a borracha amazônica.
 
Conhecida internacionalmente pelo seu trabalho com novas tecnologias em borrachas amazônicas há 15 anos, ela é PhD em design e sustentabilidade pelo London College of Fashion, mestre em artes visuais e bacharel em desenho industrial.
 
E é do Acre que sai parte da matéria-prima das peças da linha de joias orgânicas que ela faz. Em parceria com o Laboratório de Tecnologia Química da Universidade de Brasília (UNB), ela desenvolveu técnicas que transformam o látex em peças vendidas em diversos países.
 
Além de comprar o material, é a própria Flavia que percorre as comunidades capacitando os produtores para trabalharem com essa nova tecnologia. É um material que foi aperfeiçoado ao longo dos anos e está em constante aprimoramento.
 
Flavia explica que o trabalho, além de comercial, defende a bandeira da sustentabilidade e conservação dos conhecimentos tradicionais das comunidades que protegem e vivem da renda gerada pela Amazônia.
 
“Um dos diferenciais dessas novas tecnologias de borracha da Amazônia é justamente não precisar da indústria de processamento, então essa borracha colorida já sai da comunidade pronta pro mercado, dou treinamento para ela estar do jeito que preciso. Eu trabalho várias coisas, volto nas mesmas comunidades para fazer melhorias, as cores também são desenvolvidas por mim. É um trabalho de construção mesmo com eles [produtores], é bem legal que dá para ver as famílias se desenvolvendo”, explica.
 
 
 
Peças são inspiradas em pinturas indígenas, segundo a designer  — Foto: David Parry/Divulgação
 
Peças são inspiradas em pinturas indígenas, segundo a designer — Foto: David Parry/Divulgação
 
 
 
 
Pinturas indígenas inspiram
 
Assim que começou a estudar como a borracha poderia ser incluída na moda, seja por acessórios ou tecidos, Flavia conta que se reconectou com as ligações que teve com a Amazônia.
 
“A Amazônia aparece na minha vida antes da borracha. A minha graduação no desenho industrial foi uma coleção de moda inspirada nas pinturas indígenas dos índios kayapós e estudei várias etnias. Também fiz outros projetos relacionados com a Amazônia quando trabalhei como designer e quando tinha 15 anos fui pra floresta fazer uma imersão no curso de ecologia”, relembra.
 
Ao se deparar com o látex, ela lembrou de todas essas influências que sempre estiveram presentes na sua vida. Tanto que as peças são inspiradas em pinturas indígenas e são pensadas de uma forma que represente a Amazônia em um acessório.
 
“Percebi que tinha que ter um acabamento impecável, a peça é uma matéria-prima, no início ainda é bruta e não é fácil. Os seringueiros e os produtores sabem da qualidade que exijo, que precisa ter, para se tornar uma joia, quando criei demorei um tempo para colocar no mercado, porque queria um acabamento perfeito!” diz.
 
A designer diz ainda que não quis tirar as características da borracha, apenas lapidar de uma forma que ficasse uma peça realmente delicada e carregada de identidade.
 
“Pensei muito em como fazer esse material [borracha] falar por si só, tirando os excessos, tirando tudo que não precisava, porque se você coloca muita coisa, acaba virando outra coisa, a borracha não aparece. Ela é uma matéria-prima, mas se torna joia pelo design e é esse mesmo design que vai contar essa história da floresta”, pontua.

 

Flavia percorre comunidades amazônicas para ensinar técnica da borracha colorida  — Foto: David Parry/Divulgação

Flavia percorre comunidades amazônicas para ensinar técnica da borracha colorida — Foto: David Parry/Divulgação
 
 
 
 
Fortalecimento de produtores
 
Entre Acre e o Pará, ela diz que trabalha com cerca de 100 produtores de vários tipos de borracha.
 
“Hoje eu trabalho com cooperativas e associações, principalmente em Feijó, Tarauacá, fiz trabalhos em Sena Madureira, já trabalhei com várias borrachas, não só coloridas”, diz.
 
Além disso, Flavia tenta incentivar que os produtores se dediquem ao artesanato local usando a borracha como matéria-prima. Em Cruzeiro do Sul, por exemplo, ela esteve em comunidades indígenas ensinando a técnica para que eles pudessem ter uma nova alternativa.
 
“O que acho bem legal é que tem a questão de gerar renda na floresta e as pessoas continuarem preservando essa área de árvores nativas que geram renda. É uma valorização do seringueiro, porque você está levando essas borrachas, que traz atenção para a Amazônia, mas também para as pessoas que foram anônimas por muito tempo. É bem legal a possibilidade do artesanato local, abre muitas possibilidades”, pontua.
 
E nas mãos de Flavia essa borracha ganha formato de joias finas e sofisticadas, que caíram no gosto dos consumidores do Brasil, mas também de outros países. É um pedaço da Amazônia, da história da floresta que alguém adquire ao comprar uma peça.
 
Durante suas capacitações, a designer diz que tenta levar conhecimento às comunidades sobre a importância da preservação da floresta.
 
“Tem toda uma conexão do consumidor com a floresta e com o produtor. Quando dou capacitação na floresta, a gente conversa muito sobre a importância da floresta para que eles possam entender a própria importância deles. Isso é muito legal porque, muitas vezes, eles mesmos não têm consciência disso”, salienta.
 
Durante esse tempo, ela diz que as peças já foram vendidas, além do Brasil, na Inglaterra, Espanha, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Holanda, Dinamarca, Alemanha e Itália.
 
Flavia diz que sua linha de joias também carrega um lema social que possibilita a conservação do conhecimento tradicional da floresta.
 
“Trabalho muito com inclusão feminina de jovens na cadeia produtiva, porque os filhos, os jovens adultos, não queriam mais trabalhar com a borracha e agora eles vêem novas possibilidades com esses materiais, então mantém o seringueiro na florestas, as famílias, aquele conhecimento tradicional que protege a floresta, a produção nativa. As árvores não são de plantação, isso é muito forte na Amazônia”, finaliza.
 
 
 
Matéria -prima usada por Flavia nas peças são do Acre e Pará  — Foto: David Parry/Divulgação
 
Matéria -prima usada por Flavia nas peças são do Acre e Pará — Foto: David Parry/Divulgação
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Violência

Nota de pesar e repúdio à escalada de violência

4 de maio de 2020

Integrante de operação contra garimpos clandestinos no Parque Estadual Intervales, em São Paulo, é assassinado em conflito com infratores

 

 

garimpo

A operação da Polícia Ambiental teve início na tarde de sexta-feira, 1.
Foto: Polícia Ambiental/Divulgação / Estadão

 

 

3 de maio de 2020 – O coletivo de organizações abaixo assinadas se solidariza com os familiares e colegas de Damião Cristino de Carvalho Júnior, que perdeu a vida no cumprimento de seu trabalho na defesa do Parque Estadual (PE) Intervales em Sete Barras, estado de São Paulo, conforme nota de pesar da Fundação Florestal. Também repudiamos de forma veemente a escalada de violência e ilegalidade na causa socioambiental de norte a sul do Brasil, matando inocentes, como acaba de acontecer em São Paulo.
 
Segundo informações da Fundação Florestal, no dia 1º de maio ocorreu uma operação integrada da Força Tática do Pelotão da Polícia Ambiental de Registro-SP com a equipe de Fiscalização do PE Intervales. O objetivo era monitorar uma área onde, em abril, um garimpo clandestino já havia sido desmantelado. A operação se deparou com um novo garimpo, onde equipamentos novos para as atividades ilegais haviam sido transportados de helicóptero.
 
Os infratores foram surpreendidos no local e reagiram com tiros. Um deles foi preso e os demais fugiram após trocar tiros com a polícia. Um membro da operação, o vigilante Damião Cristino de Carvalho Júnior, foi alvejado na cabeça durante o conflito, e outro guarda-parque, na perna. Após duas horas de tiroteio, a equipe da operação conseguiu se alojar em um local seguro. Por ser uma área remota de difícil acesso, o resgate só foi possível na manhã seguinte. Depois dos feridos serem hospitalizados, infelizmente Damião não sobreviveu.
 
A proteção de Unidades de Conservação (UCs) como o PE Intervales depende principalmente de guarda-parques, profissionais preparados e capacitados para a execução dos programas de gestão dessas áreas. São o elo fundamental entre as políticas públicas e as comunidades locais nas áreas onde desempenham seu trabalho.
 
A gestão das UCs do Brasil tem sofrido com a redução de equipe e a precarização da infraestrutura dos sistemas de proteção ambiental. Isso acaba gerando uma pressão ainda maior sobre os guarda-parques e os serviços terceirizados de vigilância que estão à frente da proteção do patrimônio natural do Brasil.
 
O crime ocorrido no Dia do Trabalho compartilha características comuns à escalada de violência e destruição dos recursos naturais que vemos também de norte a sul do Brasil, da Amazônia à Mata Atlântica: o discurso e as ações do governo federal fortalecem a permissividade de invasões ilegais para atividades clandestinas como o garimpo, que geram impactos ambientais praticamente irreversíveis nas áreas destinadas a preservar a natureza e o bem-estar de toda a sociedade.
 
Este ato de violência contra a vida das pessoas e ao pouco que resta da Mata Atlântica acontece pouco depois da divulgação de que um novo decreto do governo federal pode reduzir a proteção ao bioma mais devastado do Brasil, para beneficiar interesses do setor imobiliário. Segundo o site Direto da Ciência , a proposta do ministro do meio ambiente Ricardo Salles, cuja minuta já está na Casa Civil da Presidência da República, pretende alterar o Decreto 6.660, de 2008, que regulamenta a Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428, de 2006). A ideia é manter a proteção legal apenas para as formações tipicamente florestais, o que pode reduzir a proteção do bioma em 10%.
 
Escalada de violência com assassinatos de lideranças comunitárias ; aumento de desmatamento, invasões e de ilegalidade; a recente demissão de fiscais do Ibama ; desmantelamento dos sistemas de proteção do patrimônio natural do país. Enquanto o mundo todo prioriza o combate à maior pandemia dos últimos 100 anos, é lamentável que o Brasil sofra ainda mais com ações do governo tão letais quanto o vírus. Precisamos proteger e apoiar os profissionais que defendem o Brasil, e não colocá-los em condições de maior risco no cumprimento de seu trabalho.
 
 
Sobre o Parque Estadual Intervales
 
Localizado na área núcleo do Contínuo Ecológico de Paranapiacaba e com uma área de 41 mil hectares, o Parque Estadual Intervales protege, junto com outras unidades de conservação, o segundo e mais importante corredor ecológico de Mata Atlântica do estado paulista. Abriga extensa área de manancial, sítios arqueológicos, mais de 150 cavernas catalogadas (principais atrativos) e 123 espécies de fauna e flora ameaçadas de extinção, entre elas, mamíferos, como a jaguatirica, a onça-pintada e o mono-carvoeiro ou muriqui-do-sul (maior primata das Américas). Outro atrativo está na observação das mais de 300 espécies de aves registradas, como a rara jacutinga. O território foi tombado em 1985 pelo CONDEPHAAT e declarado Reserva da Biosfera da Mata Atlântica em 1991. Em 1999, foi reconhecido pela UNESCO como Sítio do Patrimônio Mundial Natural. O nome Intervales corresponde ao termo "entre os vales", referência a localização da sede do Parque, na divisa das bacias hidrográficas dos rios Ribeira de Iguape e do Paranapanema, no alto da Serra de Paranapiacaba. Fonte: Guia de Áreas Protegidas do Estado de São Paulo.
 
 
Assinam esta nota:
 
• Imaflora
 
• Fundação SOS Mata Atlântica
 
• Rede Pró-UC
 
• TNC
 
• WWF-Brasil
 
 
Sobre a Fundação SOS Mata Atlântica
 
A Fundação SOS Mata Atlântica é uma ONG ambiental brasileira criada em 1986 para inspirar a sociedade na defesa da floresta mais ameaçada do Brasil. Atua na promoção de políticas públicas para a conservação da Mata Atlântica por meio do monitoramento do bioma, produção de estudos, projetos demonstrativos, diálogo com setores públicos e privados, aprimoramento da legislação ambiental, comunicação e engajamento da sociedade em prol da restauração da floresta, valorização dos parques e reservas, água limpa e proteção do mar. Os projetos e campanhas da ONG dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br.
 
 
Informações à imprensa
 
Fundação SOS Mata Atlântica – Luiz Soares
Tel.: (11) 96199-1050
Email.: luiz@sosma.org.br