Série Expedição Américo Vespúcio 10 Anos

Cazumbinha do Riacho das Rãs

23 de maio de 2013

Na Expedição Vespúcio, pernoitamos em Carinhanha, onde quase não ocorreu audiência pública. Antes, na foz do límpido rio, houve uma revoada de pássaros aquáticos, como que anunciando a divisa dos dois estados. Lugares bonitos como esse apenas o Pandeiros e o Urucuia. Ancorado o PIPES naquele pequeno Éden, preparamos o almoço, mas um ligeiro descuido… Ver artigo

Na Expedição Vespúcio, pernoitamos em Carinhanha, onde quase não ocorreu audiência pública. Antes, na foz do límpido rio, houve uma revoada de pássaros aquáticos, como que anunciando a divisa dos dois estados. Lugares bonitos como esse apenas o Pandeiros e o Urucuia.

Ancorado o PIPES naquele pequeno Éden, preparamos o almoço, mas um ligeiro descuido fez as panelas voarem da mesa às águas do rio. Só houve tempo para a chef, a advogada Niude E. Santo, levar as mãos à cabeça e bradar “oh meu Deus!”. Foi assim que do banquete longamente esperado, uma peixada cheirando ao aromático coentro, passamos ao faminto sanduíche.

Descendo sempre, saudamos a comunidade quilombola do Riacho das Rãs. Nessa comunidade a menina Cazumbinha nasceu, cresceu, aprendeu a ler e a escrever. Foi lá também que Cazumbinha, de nome Meire Cazumbá, escreveu em co-autoria com Marie Ange Bordas um belo livro sobre o seu universo e o da gente do lugar.

Conta como são as comidas e os costumes, as plantas e os bichos, as pessoas e os lugares, as canções e as festas, tão diferentes mas tão semelhantes às histórias de qualquer criança. As autoras participaram de oficinas em que ouviram as histórias das Cazumbinhas e assim criaram desenhos que ilustram o livro; frutas e bichos vêm nos rodapés com textos explicativos sobre os quilombos e a dura vida das comunidades quilombolas. Assim é a vida no Rio das Rãs, na Bahia.

A pequena bacia do riacho das Rãs, de regime intermitente ou temporário, deságua na margem direita do rio São Francisco. Tem como afluentes na margem direita o rio Carnaíba de Dentro, que recebe as águas do Carnaíba de Fora, do Muquém e da Mutuca. Riacho das Rãs ganhou importância por possuir um dos primeiros territórios de quilombolas reconhecidos no estado da Bahia.

Segundo Silva, pesquisador de Populações Afro-Indoamericanas e professor de Sociologia do Núcleo de Ensino Superior de Bom Jesus da Lapa, da Universidade do Estado da Bahia, “cabe salientar que ‘Quilombo do Rio das Rãs’, ‘Comunidade Remanescente do Rio das Rãs’, ‘Fazenda Rio das Rãs’ ou, simplesmente, ‘Rio das Rãs’ são denominações utilizadas para se referir à mesma área, com cerca de 38 mil hectares, situada à margem direita do Médio São Francisco, município de Bom Jesus da Lapa”.

A Constituição de 1988 (art. 68) preconiza que “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”. Desde antes, alguns dos chamados remanescentes de comunidades de quilombos já enfrentavam litígios judiciais na Bahia, Maranhão, Pará, Goiás e São Paulo, entre outros estados, para impedir que fazendeiros e empresas, privadas e públicas, subtraíssem, por processos judiciais ou ações violentas, as terras tradicionalmente ocupadas por esses grupos.

Desde 1988, os conflitos recrudesceram e alcançaram destaque na imprensa do Brasil e do exterior, pois a questão passa a ser vinculada ao referido artigo, uma novidade constitucional já experimentada em legislações federais de países como Jamaica e Colômbia.

Deste modo, o tema das comunidades negras rurais, até então tratado como questão fundiária, assume uma conotação mais ampla, compreendendo aspectos étnicos, históricos, antropológicos e culturais latu sensu.

Na minha opinião, os direitos dos negros são sagrados, como os dos índios, dois pilares da nação brasileira. Projetos culturais como o Cazumbinha merecem ser divulgados. Levando informação sadia, artes cênicas e lúdicas, educação ambiental, atividades ecológicas e outras como plantio de árvores, aumentam a auto-estima da população ribeirinha e resgatam seus valores. Por ocasião da I Bienal do Livro e da Leitura de Brasília, encontrei nas Edições Mazza de Belo Horizonte, títulos de livros infantis que retratam o universo afrobrasileiro, uma especialidade desta editora.

Como a barca PIPES descia em disparada para eventos na Lapa do Bom Jesus, o chapéu de lebre furado de Lico Paiva, que se encontrava bem à frente na proa, voou pelos ares. Foi o bastante para Enio Fraga saltar às águas já turvas pelas cheias de dezembro, e resgatar o cônico chapéu, trazendo o sorriso de volta ao velho pescador.

Não longe dali fica Ibotirama, sede do barco-escola São Salvador. Restaurado pelo Ministério do Meio Ambiente, o barco visa levar educação ambiental às cidades ribeirinhas desde Carinhanha e Malhada, passando por Lapa, Sítio do Mato, Gameleira, Paratinga, Ibotirama, Morpará, Barra, Mocambo do Vento, Dunas de Ibiraba e Xique Xique.