Mudanças Climáticas

O risco das mudanças climáticas nas cidades e a Conferência do Clima que acaba de começar

7 de novembro de 2016

    por Amelia Gonzalez   Início de tarde na Rua das Laranjeiras. O domingo se arrastava, chuvoso e com temperatura amena. Eu andava por ali depois de descer a Estrada das Paineiras a pé quando, meio ao longe, comecei a ouvir o barulho de uma irritante motosserra. O som vai ficando mais forte à… Ver artigo

 

 

por Amelia Gonzalez

 

Início de tarde na Rua das Laranjeiras. O domingo se arrastava, chuvoso e com temperatura amena. Eu andava por ali depois de descer a Estrada das Paineiras a pé quando, meio ao longe, comecei a ouvir o barulho de uma irritante motosserra. O som vai ficando mais forte à medida que me aproximo e se mistura com buzinas nervosas. Vai-se embora toda a minha construção para conseguir prolongar o prazer da caminhada perto da mata e me deixo contaminar pela histeria urbana, com raiva de quem buzina alto, com horror de quem estava cortando a árvore.
 
Chego perto dos funcionários da Comlurb e faço a pergunta que sempre faço quando vejo uma cena como aquela, uma árvore adulta, ainda cheia de galhos, indo ao chão como se fosse uma inútil, um atraso, um empecilho. E ouço a resposta que quase sempre ouço, com algumas pequenas variações: o problema é que ela estava “pondo em risco a vida humana”, já que decidiu se bandear para um lado em vez de ficar reta, comportada, como exige a calçada de cimento e pedra que lhe serve de adorno.
 
Alguém passa e, diante dos barulhos, das pessoas nervosas que buzinam, histéricas, querendo passar, correr para “chegar logo”, sem dar direito à árvore de ter nem uma queda digna, sentencia:
 
“A humanidade agora só sabe viver sob estresse. Se não tiver um, as pessoas buscam para se sentir bem.”
 
Sigo meu caminho, procuro me afastar mais rápido daquele tormento depois de ver o fim da árvore. O funcionário da Comlurb me diz que vão plantar outra no lugar, mas eu não acredito. Já fiz e refiz caminhos de outras árvores arrancadas  (aqui mesmo, na esquina de casa tem uma), e nunca plantam outra no lugar. Nunca. Também não discuto mais, como já fiz. O mundo é dos que têm armas nas mãos, eu não tenho. A arma, nesse caso, é a motosserra.
 
Busco trazer para a retina outras cenas, lindas, que tinham me afetado bastante quando assisti, na noite anterior, ao filme “Península Mitre”, de Joaquín e Julián Azulay. Vai ser uma das atrações da Mostra Internacional de Cinema Green Nation que vai ser exibida na terceira edição do Green National Fest, entre os dias 24 e 27 de novembro no Museu do Amanhã. As sessões são gratuitas e vai valer a pena assistir, tem filmes muito bons na agenda.
 
Este, em especial, fala sobre a relação do homem com a natureza. Durante 53 dias os irmãos Gaúchos Del Mar se meteram a caminhar nas entranhas da Península Mitre, a ponta mais ao leste da Província de Terra Del Fuego. O objetivo deles era surfar uma onda de classe mundial no Farol de Cabo San Diego. Puseram pouca comida na bagagem e enfrentaram vento, neve, chuva constante. Mas, acima de tudo, se embrenharam numa relação com a natureza. As imagens são contagiantes. O silêncio paira, como um ponto no fim de uma frase.
 
Um deles se machuca no joelho, já não conseguem mais andar tão agilmente. Chegam ao Cabo San Diego e descobrem que lá não existe a tal onda. Vinte quilômetros depois, quase sem comida e sem forças, os irmãos conseguem, finalmente, a onda que buscavam.
 
Cada um que assistir ao filme há de guardar alguma lembrança, há de ver aflorar algum sentimento, uma percepção sobre aqueles 53 dias em que os quatro homens  se embrenham por um dos ainda poucos lugares completamente inabitados do planeta. Em todo o trajeto foram acolhidos por dois moradores que já tinham sido previamente avisados da passagem dos andarilhos e os recebem com comida quente e teto. São homens que vivem quase como os bichos, levando pouco da civilização para aquele mundo de terra, pedras, mar, areia, árvores, bichos.
 
A minha reflexão sobre o filme ficou ainda mais consistente depois que assisti à cena da morte da árvore numa rua que já foi muito arborizada.
 
No fim do documentário, embora se esforcem um pouco para mostrar um rosto sorridente, os quatro homens aparentam cansaço e solitude. Cada um nos seus próprios pensamentos. A convivência tão próxima e tão sem mediação com a natureza trouxe-lhes serenidade, não alegria e dispersão. Trouxe-lhes a certeza de que nessa relação, se houver embate, o homem só ganhará com armas, porque quando vai só com o corpo ele se depara com sua própria fragilidade diante da força das águas, dos ventos, da chuva, da neve.
 
A proposta do Movimento Green Nation, que levará gratuitamente ao público do Museu do Amanhã este e outros filmes tão delicados (na lista de exibições está também o imperdível “This Changes Everything”, de Naomi Klein) , é justamente ajudar a refletir sobre sustentabilidade e ser palco de ações práticas do dia a dia que possam trazer mudanças. É a terceira edição do festival, dirigido por Marcos Didonet. Em 2014 aconteceu no Museu da República. 
 
Estou escrevendo este texto no domingo (6). Amanhã, segunda-feira (7), quando vocês estiverem lendo, será o primeiro dia da 22ª Conferência do Clima patrocinada pelas Nações Unidas, que este ano vai acontecer em Marrakesh, capital do Marrocos. Não será um evento de muitas notícias, nenhum outro Acordo está sendo esperado, como no ano passado quando, em Paris, 195 países assinaram o Acordo Climático que entrou em vigor no dia 4 de novembro. O que se espera dessa mega reunião no país africano é que os líderes, agora com o Acordo assinado e ratificado, regulamentem suas regras para que ele possa virar um tratado operacional em 2020, portanto daqui a quatro anos.
 
 
Porta-voz da convenção do clima da ONU Nick Nuttall, secretária executiva da convenção Patricia Espinosa e ministro das relações exteriores do Marrocos e presidente da COP 22 Saleheddine Mezouar participam do evento neste domingo em Marrakech, em Marrocos
 
Hoje à noite, na edição do programa “Conexão Futura”, que vai ao ar às 19h15 pelo Canal Futura, a presidente do comitê cientifico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC),  Suzana Khan, vai contar sobre a expectativa do encontro. No relatório do PBMC que ela vai levar para a África estão algumas sugestões que o Brasil apresentará. E entre os pontos que pretendem levar a debate está, justamente, o papel das cidades nas mudanças climáticas.
 
O Brasil terá, a partir de 2020, 90% de sua população vivendo em áreas urbanas. Dessa forma, como mostra o relatório, “pequenos, médios e grandes centros urbanos assumem o protagonismo no combate às intempéries do clima, sendo responsáveis pelo consumo de 70% da energia disponível e por 40% das emissões de gases de efeito estufa. É importante notar que este aumento se dará em quase sua totalidade nos países em desenvolvimento. Dependendo de como a política para o planejamento urbano for implementada, este aspecto poderá tanto ser positivo com modelos de urbanização modernos e sustentáveis ou negativo, com a continuidade do crescimento caótico das cidades dos países mais pobres”.
 
Mesmo assim, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, a campanha para prefeito que acaba de eleger Marcelo Crivella pouco ou quase nada tocou no tema. O desmoronamento da ciclovia construída às pressas entre Niemeyer e Leblon , sem considerar o fato de que o mar está aumentando e é um risco erguer qualquer coisa à sua beira, ilustra como pode ser perigosa a ignorância de dirigentes municipais.
 
Deve haver outra forma de acabar com o risco que algumas árvores oferecem aos humanos. Para isso é preciso investir em estudos e cálculos. Mas, acima de tudo, é preciso estar interessado e acreditar que as mudanças climáticas põem em risco os habitantes de grandes cidades.
 
Foto: Reuters/Youssef Boudlal