De jornalista para jornalista

Em outras palavras – Meio Ambiente para Jornalistas

29 de janeiro de 2004

Teresa Urban lança livro para a imprensa e mesmo destacando informações do Paraná,






A distribuição inicial de Em Outras Palavras – Meio Ambiente Para Jornalistas foi realizada em três sábados consecutivos de julho, em Curitiba, Londrina e Foz do Iguaçu, após as Jornadas de Meio Ambiente para Jornalistas – debates e informações sobre temas básicos para a cobertura diária. As palestras trataram do papel da mídia e do Ministério Público, legislação ambiental, lei de recursos hídricos e sistema de licenciamento estaduais, além de temas globais (biodiversidade, mudanças climáticas e água), um em cada cidade.
E não é que as pessoas foram! Cerca de 700 pessoas nos três dias. Em Curitiba, a presença de estudantes foi maior do que a de profissionais. Os dados (“brutalidades”) que o jornalista Washington Novaes colocou como que paralisaram a platéia, que preferiu bem-escutar a debater. Desse encontro surgiu a proposta de se fazer reuniões menores no Sindicato para se discutir temas específicos (o que é um Eia/Rima, por exemplo). Em Londrina, a predominância foi de profissionais, quando a jornalista Liana John enfocou mais o que é ser um profissional envolvido com jornalismo. Em Foz do Iguaçu, o jornalista Roberto Belmonte abordou a questão ética e a responsabilidade social e os alunos estavam preparados para o debate. Havia gente de Toledo, Pato Branco, Cascavel e até de Londrina. “O resultado geral foi fantástico. Isso me deu disposição de encarar os encontros de forma permanente. Vou propor que se faça todo ano uma jornada com jornalistas”, adianta Teresa.
Patrocinado pela Petrobrás, o livro é dividido em seis partes:


Em Outras Palavras — com exemplificações de 400 termos utilizados com freqüência no trabalho de profissionais da área ambiental. (Exemplos: Adicionalidade, Agenda 21 Local, Audiência Pública, Azedamento do Mangue, Biótopo, Conservação in situ, Ecologia profunda, Erosão genética, Estatuto das cidades, GEF, Hot spot de biodiversidade, Meia vida, RPPN, Síndrome da China.)


Uma Variada Rede Legal — resume a legislação brasileira mais importante e traz um índice das leis ambientais do País, como indicador para buscas mais detalhadas.


Ameaçados! — lista das espécies da flora e da fauna ameaçadas de extinção no País. (Com a data e nome do catalogador.)


Sob a Proteção da Lei — lista das áreas protegidas em diversos níveis, no País. (Quais são e a função de cada uma, Unidades de Conservação Federais por Estado, Unidades de Conservação de Proteção Integral.)
Informações úteis — com centenas de links para consulta eletrônica. (Endereços, ONGs mais atuantes e sites de referência para informações via internet, em ordem alfabética, e endereços eletrônicos recomendados pelo Instituto Ambiental Vid’água – www.vidaagua.org.br/links/ links.shtm)


No Paraná — um conjunto de dados básicos sobre o ambiente, uso da terra, legislação ambiental e espécies ameaçadas no Estado.



Teresa Urban voltou do exílio político em 1977. Jornalista formada em 1967, só pôde trabalhar a partir de 1978, passando pelas sucursais do Estadão, Veja e Jornal do Brasil. Depois da cobertura da Eco-92, montou um sistema de informações independente sobre meio ambiente, a Rede Verde, ligada às ONGs, e com o rádio como principal veículo. De porta-voz do movimento ambientalista, passou a coordená-lo e foi eleita representante da região Sul no Conama. De 1996 a 1999, fez auditoria de projetos de saneamento implementados com recursos do Banco Mundial na região metropolitana de Curitiba. Esses projetos que ela ajudou a formatar eram inovadores – até então o banco não tinha essa abertura para a sociedade. “Aprendi muito nesse período sobre a questão técnica e científica do meio ambiente”.


Uma lição para a imprensa
Teresa Urban: não se consegue que um repórter de economia faça perguntas sobre licenciamento ambiental


Teresa Urban escreveu vários livros. Seus preferidos: “Saudade do Matão”, uma tentativa de organizar uma parte da história da conservação da natureza no Brasil e dos velhos conservacionistas, e “Missão quase Impossível”, sobre o movimento ambientalista em seu período mais recente. Em sua casa, em Curitiba, ela falou à Folha do Meio Ambiente.


FMA – As redações vão se especializar, com profissionais que encaram a questão ambiental como uma questão social, cultural e espiritual?
Teresa – Hoje, a gente ainda encara os problemas ambientais de uma forma muito segmentada. A gente precisa almejar que se incorporem nas questões de natureza pública, nas questões maiores da sociedade, a questão ambiental como diretriz de governo e não como um segmento a ser contemplado com um pouco de recurso. Você não consegue hoje que um repórter de economia faça uma pergunta sobre licenciamento ambiental. Não faz, embora seja uma notícia tão importante quanto um investimento. Por exemplo: o licenciamento estabelece alguma restrição ao uso de matéria-prima? Ao tanto que vai ser usado? Ao tipo de exploração? Isso faz parte da economia. As empresas já sabem disso e têm que incorporar esse viés, mas a imprensa não se dá conta disso. Enquanto o jornalista não colocar para dentro de si mesmo essa questão, seja na esfera dos instrumentos administrativos da sociedade, seja na convicção pessoal de compreender isso como parte da sua vida, nada vai acontecer. Tenho um pouco de medo da especialização, porque aí vamos ter um especialista em meio ambiente que vai tentar puxar as pautas, mas a questão vai continuar não permeando o noticiário. Para chegar nesse ponto que você tenha o profissional incorporando essa dimensão social, ética, espiritual nós temos um chão para andar.
FMA – A universidade é capaz de formar jornalistas com senso holístico?
Teresa – Os cursos de jornalismo caminharam por um viés muito estranho. O tipo de jornalismo que se ensina está respondendo muito mais a uma demanda de um mercado que é pobre em termos de responsabilidade social. Você tem um profissional que não sai da universidade com a consciência clara do poder que tem. Isso é assustador. Jornalismo não é mais uma paixão, de dar sangue, de ter compromisso com o que está acontecendo. É uma rotina de pegar uma pauta pronta: você vai entrevistar fulano a tal hora, chega ali com vinte linhas, entrega. Você não vê entusiasmo, garra, vontade de saber mais, nada. (Em lugar de estarem na rua, estão todos ao telefone…) Telefone é a última saída, quando não há outro meio para contatar a realidade.

FMA – A geração que nasceu dentro da ambiência eletrônica é menos sensível para entender e expressar os problemas que afetam a biosfera?
Teresa – Eu tenho muita pena desses meninos que estão entrando no mercado e muita pena das crianças da idade do meu neto. O contato com a realidade está sendo mediado pelo medo, pela violência, pelo profundo fosso social que se estabeleceu entre os que têm e os que não têm. O refúgio acaba sendo o lazer solitário pelo meio eletrônico, a comunicação a distância, porque o mundo lá fora virou uma coisa hostil e desconhecida. O fosso é ideológico, a separação que se criou é insustentável. Você tem um movimento de individualismo muito forte – de que cada um cuida da sua vida e o resto que se arranje – que é típico de uma economia de mercado agressiva. A pior coisa que pode acontecer com uma geração de um país é perder o gosto por aprender. O aprendizado tem sido transformado num adestramento. E isso é assustador. Daí por que a informática é tão atraente, porque aparentemente ela resolve os problemas. É um tal de recorte e cole nos trabalhos da universidade e as pessoas pensam que isso é conhecimento. Com os professores do ensino básico sendo tratados do jeito que são, você não pode ter a expectativa de que eles criem nas crianças uma paixão pelo estudo. Estou convencida de que qualquer movimento social tem que chegar nas pessoas. E não é pelos meios de comunicação, por essa rede formal que está aí. A gente tem de levar para as pessoas comuns informações que elas não vão ter no jornal. Procurar juntar pessoas com generosidade para levar alguma coisa para quem não vai saber de outro jeito. Se você consegue passar questões associadas à forma como elas vivem, à perspectiva do futuro, elas até param para pensar. A educação ambiental tem que ir para rua. Que essa rede formal poderia dar uma mãozinha, poderia. Os cadernos de meio ambiente têm uma enorme aceitação e têm um papel importante na formação da sociedade. Existe um clima para conseguir patrocínio desses cadernos, mas falta um pouco de gás porque os jornais estão com redações super-enxutas.
Se a gente fosse usar aquele dispositivo constitucional que determina um espaço para educação ambiental nos meios que são concessão pública, esses meios passariam a ter profissionais mais bem preparados. Nós não vamos ter uma sociedade mais mobilizada, para evitar o processo de degradação, sem informação. As mobilizações baseadas em paixões não se sustentam. Podem responder imediatamente um questão, mas não têm profundidade. A educação ambiental precisa ser permanente, pois é um conhecimento novo que precisa ser incorporado, aprendido.


Mais informações:
Os interessados no livro devem entrar em contato por e-mail com a Rede Verde:
rverde@bsi.com.br