Brasília

Francisco Ozanan

9 de maio de 2016

A despedida, aos 72 anos, do jardineiro-mor de Brasília.

Dois pioneiros que deixaram seus legados: Professor Francisco Ozanan e Ernesto Silva

 

Brasília e um dos canteiros de flores do mestre Francisco Ozanan, em frente ao Palácio do Planalto.

 

 

Ozanan, o ex-Chefe do Departamento de Parques e Jardins da Novacap-DPJ, chegou a Brasília em 1969 "para passar apenas três meses". Mas a magia de Brasília o conquistou definitivamente. "Brasília me adotou. Aqui está minha alma e meu lar", vivia repetindo. Desde 1980, à frente do DPJ – Ozanan é Cidadão Honorário de Brasília e autor do livro "Árvores de Brasília" que escreveu com seus colegas Maria das Graça Ribeiro Rodrigues e o prof. José Wagner Borges Machado.

 

 

PENSAMENTOS DE OZANAN

 

 

EQUILÍBRIO NAS CIDADES

“O homem é verdadeiramente um ser especial. Por ser racional – tem um poder de adaptação fantástico, pois consegue viver bem em quaisquer dos ambientes habitados pelas outras espécies: pode construir o seu próprio ambiente mais frio ou mais quente, mais seco ou mais úmido, na terra e no mar e, agora, até no espaço. O homem aprendeu a fazer seu habitat de acordo com suas conveniências econômicas e sociais. Aprendeu a construir seu ambiente nas cidades, onde ele nasce, cresce, se reproduz, se alimenta, realiza seu trabalho, pratica esportes, tem o seu lazer, vive e morre. Mas nisso tudo tem um segredo: é preciso que exista um certo equilíbrio entre os elementos naturais. Quanto maior esse equilíbrio, maior será o conforto, a saúde e a qualidade de vida. E, nessa ecologia da cidade, seja ela uma vila, uma metrópole ou uma megalópole, a urbanização tem um papel fundamental”.

 

O ROMÂNTICO

“O romântico e bom das cidades não são as modernidades, os arranha-céus, os viadutos e as luzes. O que é romântico mesmo nas cidades são os jardins, os parques e as árvores. A vida sem romantismo é muito pouco”.

 

DOIS MALES DAS CIDADES

“Acho que as cidades brasileiras sofrem de dois males: primeiro, a falta de um plano diretor que mostre onde elas devem crescer, onde devem estar as grandes avenidas, como arborizá-las, como proteger os parques e os jardins, como diminuir a poluição das águas, como minimizar o desperdício, como favorecer o trânsito, como tratar do lixo, do saneamento etc. Em segundo lugar, precisamos ter administradores mais conscientes de suas responsabilidades, para que a gestão urbana traga sempre uma melhora da qualidade de vida. É bom que a população se preocupe com o desmatamento da Amazônia, o desaparecimento de animais. Mas é também muito importante que a sociedade preserve os ambientes criados pelo próprio homem moderno que são as cidades, onde estão (ou deveriam estar) os parques, os jardins, a arborização nas avenidas e ruas, os gramados e as flores. É a natureza que ameniza o clima e estabelece um conforto maior para os habitantes”.

 

O VERDE DE BRASÍLIA

“Veja bem, Brasília é a primeira cidade do país em área verde por habitante. São 120 metros quadrados de floresta urbana por pessoa. Trocando em miúdos, são exatamente 50 milhões de metros quadrados de gramados, 1.000 canteiros com flores variadas, 4 milhões de árvores plantadas. Brasília é uma cidade que construiu o seu verde. Isso é um exemplo. A maioria das cidades poluem seus lagos, seus rios e destroem suas árvores”.

 

SENSIBILIDADE

“Hoje, os canteiros e os jardins são os únicos bens públicos totalmente livre de qualquer tipo de vandalismo”.

 

 

Os Dez Mandamentos da Arborização Urbana

 

1 – Plantar espécies nativas da região

2 – Adequar a espécie ao espaço disponível
 

3 – Planejar a arborização de tal modo que a cidade esteja florida o ano inteiro
 

– Estudar o sistema radicular das árvores plantadas para que ele não interfira em redes subterrâneas e edificações
 

5 – Não plantar espécies frutíferas em áreas muito próximas às residências e edificações comerciais, pois pode atrair animais indesejáveis, como morcegos
 

6 – Não realizar podas desnecessárias, interferindo o mínimo possível na arquitetura da copa das árvores
 

7 – Fazer a poda apenas dentro dos padrões técnicos recomendáveis, ouvindo sempre o órgão responsável pela arborização

8 – Abolir completamente machados e facões na poda das árvores, utilizando instrumental adequado, como motosserra, facilitando a recuperação das cicatrizes nas plantas
 

9 – Manter um canal de comunicação permanente com a população para atender aos pedidos de poda em no máximo 48 horas, preservando assim a credibilidade da instituição governamental
 

10 – Não plantar árvores na estação da seca, evitando-se a onerosa e ineficiente irrigação através de carros-pipas ou consumo de água potável da rede pública