Amazônia

Pesquisa aponta redução drástica de besouros na Amazônia

14 de fevereiro de 2020

    Condições climáticas extremas e atividades humanas vêm afetando insetos no planeta. Na Amazônia, caiu para menos da metade a população dos besouros rola-bosta, que espalham nutrientes e sementes na floresta.     Um igarapé no meio da Amazônia, na Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1           A… Ver artigo

 

 

Condições climáticas extremas e atividades humanas vêm afetando insetos no planeta. Na Amazônia, caiu para menos da metade a população dos besouros rola-bosta, que espalham nutrientes e sementes na floresta.

 

 

Um igarapé no meio da Amazônia, na Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1

Um igarapé no meio da Amazônia, na Floresta Nacional do Tapajós — Foto: Marcelo Brandt/G1
 
 
 
 
 
A população de besouros na Amazônia caiu para um terço do total original após o El Niño registrado de 2014 a 2016, aponta um estudo publicado na edição desta semana do periódico "Biotropica". O levantamento soma-se a tantas outras pesquisas recentes que mostram um cenário alarmante: o mundo pode estar perto de um apocalipse dos insetos. E esse cenário é muito grave para a viabilidade da vida na Terra.
 
"Condições climáticas extremas, aliadas às atividades humanas, como degradação florestal, incêndios e desmatamento, estão causando grandes perdas para os insetos", afirma à DW Brasil o biólogo Filipe França, um dos autores do trabalho, resultado de uma parceria entre a Embrapa Amazônia Oriental do Brasil e a Universidade de Lancaster no Reino Unido no âmbito da Rede Amazônia Sustentável.
 
"É suficientemente preocupante quando mostramos que mais da metade dos besouros foram perdidos após o evento climático do El Niño, mas o problema não para por aí. Nossos resultados também mostram que a contribuição desses besouros para espalhar nutrientes e sementes nas florestas foi reduzida, respectivamente, em 67% e 22%", diz.
 
Ou seja: os besouros cumprem um papel ambiental importantíssimo para a biodiversidade. Com um menor número deles, o equilíbrio fica em risco. Para a pesquisa, foram considerados os besouros da família Scarabaidae, conhecidos como rola-bosta.
 
França e a equipe realizaram coletas de 98 espécies de Scarabaidae na Amazônia em três momentos – em cada uma delas, ficaram cerca de quatro meses na floresta: 2010, 2016 e 2017. Na primeira leva, foram recolhidos 8 mil exemplares. Na segunda e na terceira, respectivamente 3.700 e 2.600, nos mesmos terrenos e com a mesma metodologia.
 
"Quando alguém está com febre, já sabemos que é um sinal de que algo não está funcionando bem no corpo daquela pessoa", compara. "Não é diferente com florestas, que apresentam diversos componentes que permitem a manutenção da saúde ambiental."
 
O biólogo aponta os besouros rola-bosta realizam importante contribuição ao ecossistema ao espalhar nutrientes e sementes presentes nas fezes dos animais. "Essas atividades ecológicas contribuem tanto para o fornecimento de adubo para as plantas, quanto para a recuperação da vegetação a partir das sementes dispersadas", diz.
 
França afirma que embora os efeitos do El Niño tenham sido os causadores da situação, a culpa também é do ser humano – o aquecimento global está aumentando eventos do tipo, em frequência, duração e intensidade, diz.
 
"Eu esperaria que as secas mais frequentes e extremas previstas para a região, aliadas às temperaturas mais altas graças ao aquecimento global e às atividades humanas, causem ainda mais perdas nas populações de insetos na Amazônia", prevê.
 
Sobre a amostragem, ele explica como é representativo escolher os rola-bosta para tal pesquisa. "Eles têm cerca de 7 mil espécies conhecidas no mundo, e de 10% a 12% delas estão presentes no Brasil", contextualiza.
 
 
"Apocalipse de insetos"
 
A comunidade científica não esconde a preocupação com cenários do tipo. No último dia 6 de janeiro, um grupo internacional de cientistas publicou na revista Nature Ecology & Evolution uma carta alertando sobre a necessidade de evitar esse "apocalipse dos insetos".
 
Diversos outros estudos mostram que um conjunto de atividades humanas associadas à expansão da agricultura, perda e fragmentação dos habitats naturais e mudanças climáticas estão causando extinções locais e também drásticas perdas nas populações de insetos ao redor do mundo, não apenas nas florestas mas também em outros ecossistemas", salienta França.
 
Uma pesquisa realizada por cientistas europeus publicada em outubro passado na Nature constatou que houve grande queda de artrópodes em campos de pastagens e florestas alemãs. Os inventários foram realizados entre 2008 e 2017 e contemplaram 2.700 espécies em três regiões do país. Em termos de abundância, foi aferida uma queda e 78% dos bichos.
 
"Outra pesquisa, nas florestas de Porto Rico, observou reduções entre 80 e 95% nas populações de insetos nos último 35 anos", aponta França.
 
A bióloga Adriane Esquivel-Muelbert, pesquisadora da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, demonstra preocupação frente a dados assim. "Somando as evidências de vários grupos de animais e plantas estamos cada vez mais certos de que mudanças ambientais estão colocando em risco a rica diversidade das florestas e os serviços que elas prestam para o planeta", afirma à DW Brasil.
 
"Esse estudo [realizado pela equipe de França] é mais uma valiosa evidência disso. Agora nos resta usar essas informações para mudar nossas ações e reverter a grande crise ambiental que vivemos. Não há tempo a perder."
 
 
Abelhas
 
Quando se pensa em insetos e sua importância para o meio ambiente, geralmente o que vem à mente são as abelhas.
 
"A importância delas para a produção de alimentos através da polinização é essencial para a humanidade, mas isto está sendo ameaçado pela perda desse grupo de insetos", explica França. "A título de exemplo, uma pesquisa recente liderada pela Embrapa mostrou como distúrbios antrópicos estão ameaçando a polinização do açaí na Amazônia."
 
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais de 75% dos cultivos destinados à alimentação humana dependem da polinização para ter qualidade e produtividade.
 
O sumiço das abelhas passou a ser notado há mais de 100 anos. Este fenômeno ganhou até nome: Síndrome do Colapso das Abelhas. Nos anos 1970, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos começou a mensurar o problema. O declínio das populações do bicho já era dramático. O cenário foi se consolidando na virada do milênio.
 
Entre as causas apontadas por pesquisadores está o uso indiscriminado de pesticidas agrícolas, a poluição e a perda de habitats – causada pelo avanço da urbanização. Para se ter uma ideia, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, apenas entre os anos de 2006 e 2007, de 30 a 60% das abelhas desapareceram da Califórnia – sendo que em algumas regiões do país, como o Texas, o declínio chegou a 70%. Órgãos europeus também acenderam a luz vermelha, com registros semelhantes em países como Bélgica, França, Itália, Portugal e Espanha.
 
Assim como as abelhas, os besouros são necessários para o equilíbrio ambiental. "Como um todo, são o grupo de animais mais biodiverso do planeta", afirma França. "Os rola-bosta são tão importantes quanto as abelhas, tanto para a humanidade quanto para os ecossistemas naturais."
 
"Os insetos são as pequenas coisas que fazem o mundo funcionar", aponta o biólogo. "Pense no que você comeu nos últimos dias, e eu garanto que os benefícios trazidos pelos insetos influenciaram a produção da maioria das frutas, vegetais, cereais e até mesmo da carne."
 
A importância dos insetos vai muito além dos benefícios para humanidade, destaca França. "Eles também são extremamente importantes para manter os ecossistemas terrestres e até mesmo aquático, tanto através da sua contribuição como alimento para diversos outros animais na cadeia alimentar, quanto através dos processos ecológicos que eles participam, como na ciclagem de nutrientes, polinização, dispersão de sementes, dentre muitas outras atividades", resume.