Coronavírus

Coronavírus: com o distanciamento social, o Brasil começa a reagir

20 de março de 2020

A ciência é a resposta para o pânico: o vírus da sensatez circula descontroladamente, eis a boa-nova

 

 

FIQUEM EM CASA - Bombeiros no Rio: clamor para que as pessoas deixassem as praias no fim de semana Sergio Moraes/Reuters
 
 
 
 
Um relato importado da França ajuda a entender o humor do Brasil nos primeiros dias depois da eclosão da Covid-19. O Café de Flore, em cujas cadeiras e banquetas de forro vermelho se sentavam Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, e a Brasserie Lipp permaneceram religiosamente abertos durante os dias plúmbeos da ocupação alemã, nos anos da II Guerra Mundial, ao som de Maurice Chevalier. Na semana passada, pela primeira vez na história, fecharam as portas. Disse um garçom, habituado a ouvir de seus colegas os relatos dos anos 1940: “Ao menos sabíamos contra quem estávamos lutando, os nazistas. Agora não temos a menor ideia”. Esse medo difuso, sem rosto, um tanto recôndito, visto pela frieza da estatística — eram mais de 500 casos positivos confirmados e sete mortes de brasileiros até as 16h da quinta-feira 19 —, explica a movimentação algo em câmera lenta de mudança de comportamento no cotidiano do país. Não ajudou, é claro, o presidente Jair Bolsonaro ter dito que havia “histeria” coletiva e que, apesar de tudo, ele e a primeira-dama Michelle comemorariam seus aniversários como de costume, com “uma festinha tradicional”.
 
 
 
 
 
COMPRAS PELA INTERNET – Shopping vazio em São Paulo: restrição de horários e fechamentos por todo o Brasil //Divulgação
 
 
 
O exemplo, como se vê claramente, não vem de cima. E o impacto acaba acontecendo na população. Nas praias do Rio de Janeiro, no fim de semana de 14 e 15, a Defesa Civil pôs carros de bombeiro com alto-falantes conclamando moradores a adotar o distanciamento social: “Por favor, para sua segurança e a de seus vizinhos, amigos e familiares, volte para casa. A hora é de conscientização”. Em um primeiro momento, que se estendeu mais que o desejado, o clamor mal foi escutado por ouvidos moucos, alheios à urgência. Diz o psicobiólogo Ricardo Monezi, professor da PUC-SP: “Diante de pandemias ou crises muito grandes, o cérebro tenta proteger sua integridade ao negar ou minimizar a situação para evitar exagerada ansiedade negativa associada ao medo”. É uma postura humana, demasiadamente humana, que em situações excep­cionais como a de hoje exige alerta — sem pânico, porque na maioria dos casos, reafirme-se com estridência, a Covid-19 é leve. O índice de letalidade é de 4% — passa disso apenas a partir dos 60 anos de idade; 14,8% dos idosos com mais de 80 anos não resistem à doença. Mas cada dia de medidas preventivas é um dia em que vidas são salvas. A resposta necessária veio, finalmente, com decisões firmes de alguns governadores e prefeitos (leia na pág. 42), que impuseram a suspensão de aulas e o fechamento do comércio, e indicações equilibradas do Ministério da Saúde. E então, mas não como num passe de mágica, e sim como resposta a uma leva de informações precisas, ancoradas na ciência e na medicina, as areias das praias começaram a se esvaziar, os carros já não circulam tanto, o home office virou a expressão em inglês mais conhecida no Brasil, missas foram realizadas ao ar livre, torneios esportivos pararam, fronteiras foram fechadas, rolos de papel higiênico sumiram dos supermercados etc. Gestos banais e carinhosos como o beijo e o abraço, brasileiríssimos, foram trocados pelo toque de cotovelos. Para ficar com uma máxima coloquial: caiu a ficha (talvez menos a do presidente da República), e o vírus da sensatez circula descontroladamente, eis uma boa-nova.