1ª Parte - Expedição Langsdorff

ILUSTRAÇÕES INDÍGENAS NA EXPEDIÇÃO LANGSDORFF

23 de outubro de 2015

A vida e a cultura indígena documentada pela Expedição Langsdorff

Guerrilhas. Ilustração de Rugendas, provavelmente do acervo da expedição.

 

 

Sepultamento de um indígena em Minas Gerais. Ilustração de Rugendas, provavelmente do acervo da expedição.

 

 

Botocudos, Machacalis, e Puris. Ilustrações de Rugendas, provavelmente levadas ilegalmente pelo autor.

 

RUGENDAS E AS ILUSTRAÇÕES SURRUPIADAS
As ilustrações dos índios brasileiros e as coleções de seus artefatos eram objetivos considerados muito importantes e uma das finalidades da expedição. O desligamento de Rugendas como ilustrador oficial durante a viagem a Minas Gerais incomodaria Langsdorff não só pela grosseria do pintor, mas também pelo oportunismo em desrespeitar o contrato assinado e manter muitas ilustrações em seu poder. As ilustrações de tropeiros, caçadas, paisagens, cerimônias indígenas e de representantes de várias tribos levadas para a Europa desfalcaram o acervo iconográfico da expedição. Enquanto lúcido, Langsdorff  lamentaria essa perda. Considerava obras as pertencentes ao Tzar. Rugendas as publicaria ilegalmente em seu famoso livro com cem litografias, “Voyage Pittoresque dans le Brésil”. 
Em seu relatório para o vice-chanceler russo em 18 de dezembro de 1824, Langsdorff explicava: “Ele entregou-me algumas cópias e esboços feitos a lápis, sem grande importância e praticamente inacabados. Conservou consigo os trabalhos bons e originais”.  
Langsdorff  freqüentemente solicitava em seus comunicados aos representantes do governo russo a intervenção para reaver oficialmente as ilustrações subtraídas ao acervo.
 
 

Ornamentos e flechas dos índios Bororo. Ilustrações de Adrien Taunay.

 

 

AS ILUSTRAÇÕES FEITAS POR FLORENCE E TAUNAY

 
As ilustrações de indígenas feitas por Hercule Florence e Aimé-Adrien Taunay se complementam. Florence valoriza a minúcia, o detalhe. É um ilustrador científico em sua essência. Os grupos indígenas que retrata se mostram em poses formais e suas pinturas e ornamentos são representados meticulosamente. O próprio Taunay se considera artista mais habilidoso e sensível que Florence. Pode-se mostrar tão detalhista como nas ilustrações dos ornamentos e flechas dos Bororo, mas esbanja maestria na composição de cenas e nas pinturas de paisagens. Capta o clima de embevecimento dos Bororo, que escutam absortos o relato de uma caçada, assunto que deveria ser obrigatório nas tardes da aldeia. Langsdorff teria experimentado muito orgulho e prazer em admirar a sensibilidade de Taunay nas ilustrações feitas na aldeia indígena de Pau-Seco. Não chegou a vê-las. Teria pensado que valera a pena mantê-lo na expedição. 
 
 
“Reunião dos índios Bororos no acampamento chamado de Pau-Seco. Estão atentos ao relato de um deles de uma luta contra uma onça”. Adrien Taunay, 1827.
 
 
Índio Munduruku, nas proximidades de Salto Augusto. Florence, maio de 1828.
 
 
“Vista da aldeia dos índios Bororo, chamada Pau-Seco, situada a 7 léguas do Paraguai e em seu lado esquerdo, no caminho de Vila Maria a Vila Bela de Mato Grosso”. Taunay, 1827.
 
 
 
Habitação dos Apiacás no rio Arinos. Abril de 1828. Hercule Florence. ‘Numa única aquarela, notável pela beleza iconográfica, Florence sintetiza o máximo de informação passível de registro gráfico. (…) Desenha, inclusive, o machado de pedra encabado, ainda em uso, pelo visto, àquela época’. (Mão esquerda do primeiro índio, à esquerda). (Profª Bertha Ribeiro)
 
 
 
“Alguns Bororos fazem uma visita aos Srs. Riedel e Taunay na casa que ocupam perto de sua aldeia”. Taunay, de costas e Riedel, na rede, recebem os visitantes.  Taunay, 1827. 
 
 
 
A vida e a cultura indígena documentada pela Expedição Langsdorff
 
 

As pinturas corporais são detalhadas e uma jovem índia é retratada de costas, para mostrar a pintura das pernas e nádegas. Na tese sobre iconografia indígena, ‘Contribuição da Iconografia para o Conhecimento de Índios Brasileiros no Século XIX’ (1970), Thekla Hartmann salienta o caráter etnográfico dos registros de Florence e recupera a declaração do etnólogo e explorador alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) dirigida em 1921 a Ataliba Florence, filho de Hércules Florence: “Seu pai foi um observador extraordinariamente exato. 
 
Tudo que escreveu ou desenhou é a tal ponto tão vivo e fiel que sua obra parece não a de um simples desenhista viajante, mas de um etnógrafo e geógrafo profissional”.  Thekla Hartmann considera Hércules Florence e Aimé-Adrien Taunay “os melhores desenhadores de índios de todos quantos visitaram o Brasil no século XIX, em termos do valor documental de seus trabalhos” e seus registros colocam em evidência grupos indígenas que estavam “até então ausentes do panorama iconográfico”.
‘Os 13 desenhos de Apiaká na Viagem fluvial são os primeiros dessa numerosa tribo que, já em 1850, entrara em franco declínio e, mais ainda, os únicos a retratarem os índios em seu primitivo estado, ainda inocentes do contato permanente com o branco. Nesse sentido, é escusado insistir no valor documental, histórico e etnográfico dos desenhos’ (Thekla Hartmann)