Mata Atlântica

Apenas 30,81% das áreas de proteção de Campinas estão preservadas

6 de junho de 2016

Foram desmatados 3 hectares de mata atlântica entre 2000 e 2014. Plano prevê recuperação de 150 hectares por ano nos próximos 10 anos.

Renata VictalDo G1 Campinas e Região

 

Mata Santa Genebra é uma das áreas de preservação da Mata Atlântica encrustadas na cidade (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

Mata Santa Genebra é uma das áreas de preservação da Mata Atlântica encrustadas na cidade (Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal)

 

No dia em que se comemora do Dia Mundial do Meio Ambiente, o G1 Campinas traça um retrato da situaçãoda Mata Atlântica no município. Levantamentos georeferenciados revelam que a cidade possui 10.954 hectares de Área de Preservação Permanente (APP), o que representa 13,76% da área do município. No entanto, deste total, 3.375 hectares estão em conformidade com a legislação. Ou seja, apenas 30,81% das APPs estão em bom estado de conservação ou recuperados.

 

De acordo com os dados mais recentes do Atlas dos Municípios da Mata Atlântica, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e que mostra um balanço sobre a situação dos 3.429 municípios abrangidos pela Lei da Mata Atlântica, foram desmatados 3 hectares de Mata Atlântica em Campinas entre 2000 e 2014.
 
 
 
Temos 7.579 hectares de mata atlântica que terão que ser total ou parcialmente recuperados"
Rogério Menezes, secretário do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
 
 
 
Novos parques
 
O secretário do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da cidade, Rogério Menezes, está atendo aos números e ciente dos desafios que tem pela frente. Na avaliação dele, há muito a ser feito, mas, pela primeira vez, ele garante que a prefeitura tem se engajado em ações que podem ajudar a reverter este quadro.
 
"Temos 7.579 hectares de Mata Atlântica que terão que ser total ou parcialmente recuperados. O primeiro passo de recuperação já foi dado. Fizemos um levantamento para recuperar 150 hectares por ano, nos próximos 10 anos. Então, no fim deste período, teremos recuperados 1.590 hectares, o que abrange boa parte das áreas públicas da cidade. Hoje, a maior parte do passivo a ser recuperada está em áreas privadas ou na zona rural. Também estamos prevendo a criação de parques lineares. Serão 940 hectares em 49 novos parques", explica o secretário.

 

Prefeitura espera replantar 150 hectares por ano nos próximos 10 anos (Foto: Divulgação/Prefeitura)

Prefeitura espera replantar 150 hectares por ano
nos próximos 10 anos (Foto: Divulgação/Prefeitura)
 
 
Replantio
 
De outubro de 2015 a março deste ano, durante o período de chuva, a prefeitura recuperou 100 hectares de Mata Atlântica nas APPs. E, de janeiro de 2013 até agora, já foram plantadas 172.427mudas de árvores nativas a um custo de compensação R$ 16.571 milhões entre plantio e manutenção.
 
"O replantio está associado às compensações ambientais. Antes, o banco de área verdes não funcionava. Agora, há monitoramento individual de cada muda. Sabemos quais são, onde estão e podemos acompanhar seu crescimento", conta o secretário.
 
 
Monitoramento com drone
 
O biólogo Jodir Pereira da Silva professor do Colégio Técnico da Unicamp (Cotuca) tem utilizado um drone para agilizar o monitoramento destas áreas de replantio. Ele conta que, hoje, apesar de todas as mudas das espécies de Mata Atlântica replantadas na cidade receberem um QR Code, o acompanhamento do crescimento das espécies seria muito difícil diante das grandes extensões de áreas replantadas sem o uso do drone.
 
"Com o QR Code a gente sabe quantas e quais mudas foram plantadas, de quais espécies, mas é difícil acompanhar o crescimento de uma vegetação com mais de 10 mil mudas. A imagem aérea é mais precisa e nos ajuda bastante. Com o drone a gente consegue ver as falhas de crescimento nessa vegetação. O aparelho é georeferenciado e, com a latitude e longitude do local, o fiscal da prefeitura pode ir lá, ver o que acontece no terreno, se tem alguma erosão, por exemplo. O drone dá celeridade".

 

Drone é utilizado no monitoramento do replantio da Mata Atlântica em Campinas (Foto: Divulgação/Luiz Granzoto)

O biólogo e professor do Cotuca explica ao prefeito e ao secretário do Verde como funciona o drone que é utilizado no monitoramento do replantio da Mata Atlântica em Campinas (Foto: Divulgação/Luiz Granzoto)

 

A vegetação tem uma importância no ciclo hídrico. Basicamente, preservar a vegetação próxima das nascentes é preservar a água dos mananciais onde retiramos água para uso"
Jodir Pereira da Silva, biólogo
 

 

Mananciais de água
 
O professor explica que lutar pela preservação da Mata Atlântica deveria ser uma preocupação de todos, uma vez que o impacto da destruição dessa vegetação afeta a todos. Ele conta que é justamente essa vegetação a maior responsável pela preservação dos mananciais de água da região.
 
"A vegetação tem uma importância no ciclo hídrico. Basicamente, preservar a vegetação próxima das nascentes é preservar a água dos mananciais onde retiramos água para uso. Outro ponto é a regularidade de chuvas. Um pesquisador alemão elaborou um modelo que quantifica a importância da água que precipita nestes locais e constatou que 75% da água que precipita num é proveniente da transpiração da planta que está na região. As plantas tornam mais dinâmica a ciclagem da água e podem favorecer as chuvas mais constantes. Vivemos há pouco uma crise hídrica por conta da seca, então, temos que que aprender a lição e saber que, se não preservarmos a Mara Atlântica, nossa água ficará comprometida mais uma vez", conclui.
 
 
Decreto Municipal
 
Nesta segunda-feira (06), o prefeito Jonas Donizette vai assinar decreto do Plano Municipal do Verde, que inclui o Plano de Proteção e Recuperação da Mata Atlântica. O documento é um norteador e unificador, com diretrizes estabelecidas e metas bem delineadas.
 
Além de análises a respeito da Mata Atlântica, o Plano Municipal do Verde ajuda a identificar possíveis conexões e a formação de corredores ecológicos, que permitem maior estabilidade das áreas verdes do município e a migração de animais entre estes locais.
 
Para Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, o Plano Municipal da Mata Atlântica traz benefícios para a gestão ambiental e o planejamento do município, sendo um dos instrumentos mais eficientes para a proteção da floresta mais ameaçada do Brasil.
 
“Os Planos Municipais da Mata Atlântica materializam as leis do bioma Mata Atlântica. Com novas competências de gestão ambiental, o plano é importante para desenvolver políticas de meio ambiente localizadas, pois é uma legislação que pactua com a própria comunidade local e a sociedade, diferentemente das demais leis do país”, afirma Mario.
 
 
Família de macaco prego frequenta a Mata Santa Genebra, em Campinas (Foto: Divulgação/Santa Genebra)
 
Família de macaco prego frequenta a Mata Santa
Genebra,(Foto: Divulgação/Santa Genebra)

 

Santa Genebra
 
Com 251 hectares e localizada em Barão Geraldo, a Mata Santa Genebra é um pedaço remanescente de Mata Atlântica e um exemplo de preservação. Segunda maior floresta urbana do Brasil, atrás apenas da Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, a Mata Santa Genebra lançará na próxima sexta-feira (10) um programa de monitoramento de sua flora e fauna. Administrador do local, Pedro Pupo conta que serão instaladas câmeras de vigilância em todo o entorno da mata.
 
O objetivo é identificar com agilidade focos de incêndio e ainda a presença de caçadores, o despejo ilegal de lixo e o abandono de carros roubados. O plano de monitoramento prevê ainda a aplicação de chips nos animais e o uso de um veículo aéreo não tripulado (VANT).
 
"Queremos ter uma visão aérea da mata para poder acompanhar o crescimento da mata reflorestada, identificar clareiras para proceder com o plano de manejo e atuar com precisão em focos de incêndio.
 
Estamos fazendo um bom trabalho de recuperação da mata que estava degradada", ressalta Pupo.
 
O administrados conta ainda que há muito tempo não era feito nenhum registros de algumas espécies de animais na mata, mas este quadro mudou.
 
"Hoje temos a alegria de constatar que alguns destes animais, que não eram detectados há décadas, voltaram para cá. A gente tem pego em armadilhas fotográficas algumas jaguatiricas, gato do mato, macaco prego, tatu, lontra e até onça parda. É uma prova de que a preservação está funcionando e que não podemos parar", conclui Pupo.
 
 
Jaguatirica vista na Mata Santa Genebra, em Campinas (Foto: Divulgação/Santa Genebra)
 
Jaguatirica voltou a ser vista na Mata Santa Genebra, em Campinas (Foto: Divulgação/Santa Genebra)