Fake News

As novas fake news

10 de julho de 2020

Diário do Nordeste, 5 de julho de 2020

 

 

 

Temos um dia por ano para a mentira, o 1º de abril. Todos entram na brincadeira, sabem que as notícias são falsas, mas, mesmo assim, muitos acreditam. Até eu gosto de acreditar, quando é uma notícia boa. A história dessa data é curiosa: quando o papa Gregório mudou o calendário e o ano passou a começar em 1º de janeiro, as pessoas menos informadas, mais tolas, as que não aceitavam a mudança, continuavam a comemorar o novo ano na data anterior ao calendário gregoriano, que era o 1º de abril. E muitos passaram a zombar dos “bobos de abril”, mandando convites falsos para falsas festas. Aí devem ter nascido as fake news.

Aqui no Ceará tínhamos a ocasião especial para as fake news, que era o Cajueiro da Mentira, na praça do Ferreira. No 1º de abril faziam um concurso de mentiras, concorriam mentirosos reconhecidos, aplaudidos, uns artistas. O vencedor era anunciado ao som de uma banda que tocava marchas e polcas. E punham no tronco do cajueiro um retrato do eleito, dando-lhe o título de Mentiroso-Mor. Poucas vezes se vê coisa tão honesta e ingênua, como esse nosso humor.

Mas as novas fake news não são como o cajueiro. Nem como a ficção, uma maneira fantasiosa de dizer a verdade. Algumas pessoas as usam para fazer sátiras, com um sentimento gaiato que faz parte da humanidade. Ou para ganhar guerras, como fez Franklin, espalhando o boato que índios assassinos eram agentes do rei inglês. Com a internet, as fake news se tornaram uma arma nas mãos de todos. São usadas para eleger políticos desonestos, obter lucro, difamar, caluniar, agredir, ameaçar, derrubar um concorrente, para vinganças, invejas, charlatanismo, bullying, para atrair e enganar ingênuos, disseminar o desentendimento, o ódio.
 
Tanto repetem uma mentira que ela passa a ser tida como verdade. Mesmo há quem prefira acreditar na pos-truth, pós-verdade, eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2016, ano que marca o nascimento das novas fake news, na eleição do presidente norte-americano. Sabem que as pessoas aceitam mais os apelos à emoção e à crença popular, que os fatos, e mansamente acolhem mensagens de malfeitores.
 
O modo como são feitas as novas fake news é assombroso. Grupos especializados em espalhar boatos recebem uma encomenda, trabalham clandestinos, como criminosos, na região da internet chamada deep web, rede profunda, quase impossível de ser rastreada. Eles criam uma página de internet e uma entidade sem rosto, um robô. Assim que uma palavra é reconhecida na web o robô envia o boato; a pessoa desavisada o repassa e ele é disseminado para milhões de pessoas. De origem falsa a pessoas reais, é o caminho. Um robô pode disparar uma notícia falsa a cada dois segundos. Há milhares de robôs, programados para mandar as fake news certas para as pessoas certas. E as fake news entram em nossas vidas como uma avalanche. Mas estamos aprendendo a nos defender, surgem fortes correntes contrárias, leis que as criminalizam e um novo senso crítico.
 
São péssimos os resultados para um país que vive sob o reino das fake news, pois as pessoas perdem o rumo, sentem-se desamparadas. Todo um povo pisa em falso. Toda uma nação precisa duvidar. Acaba a confiança. Acabam a verdade e a fé.