Semana da Àgua

Dia mundial da água tem muito pouco a comemorar

22 de março de 2016

Mudanças climáticas apontam para cenário crítico no futuro

 

Segundo Bocuhy, as projeções atuais, com as alterações climáticas em todo o planeta, apontam “para uma piora do quadro no Brasil”. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indica que o Nordeste e Centro-Oeste do país serão duramente castigados pelos efeitos do aquecimento, enquanto a região Sudeste, que abriga as maiores populações, terá seu regime de chuvas alterado, com precipitações intensas seguidas de veranicos, o que dificulta a capacidades de abastecimento.


“As mudanças climáticas afetam cada vez mais qualquer tipo de previsibilidade sobre o clima. As séries históricas não podem mais ser levadas em conta para prevenir catástrofes, por exemplo”, diz o presidente do Proam.


O desmatamento indiscriminado da floresta amazônica é a principal razão desse quadro de incertezas sobre o clima no Brasil nos próximos anos. “A Amazônia é que mantém o nosso ecossistema funcionando.” De acordo com o ambientalista, a floresta amazônica é responsável por 40% da regularidade climática nos países da América do Sul, a leste do Andes. “O desmatamento provoca seca em vários países, inclusive a Argentina”, afirma. O aumento da fronteira agrícola no Centro-Oeste do Brasil é um dos motivos, conforme ele, de períodos mais intensos de falta de chuvas no Pantanal e no futuro pode levar a uma maçica perda da maior reserva de biodiversidade do mundo. 


Dados divulgados recentemente pelo Ministério das Cidades, com base em levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), mostram que metade da população brasileira ainda não tem esgoto coletado em suas casas e cerca de 35 milhões de pessoas nem sequer têm acesso a água tratada no país. 

COLETA DE ESGOTO

O índice, de 49,8%, coloca o Brasil em 11º lugar no ranking latino-americano deste serviço, atrás de países como Peru, Bolívia e Venezuela. Os dados dessas nações são compilados pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), que divulga o índice de 62,6% para o Brasil porque inclui fossas. Os números mostram que a coleta de esgoto melhorou só 3,6 pontos porcentuais nos últimos cinco anos e ainda está muito distante da meta estabelecida pelo Plano Nacional de Saneamento Básico, que é atingir 93% de coleta no País em 2033.


Bocuhy, especialista em políticas públicas e que esteve presente nos debates na Conferência Rio 92, que criou o Dia Mundial da Água, lembra que, entre a definição da data, que passou a ser comemorado no dia 22 de março de 94, e hoje, “a falta de água de boa qualidade vem se tornando uma realidade muito preocupante, provocada por visões empresariais e mobiliária dentro de uma dinâmica de ocupação territorial de forma predatória”. Com a justificativa de criação de emprego, renda e aumento do PIB, argumenta, a atual dinâmica da economia mundial, na qual o Brasil está inserido, acentua “a destruição dos ecossistemas de produção, com o corte das matas e impermeabilização do solo”.


Para o presidente do Proam, o Dia Mundial da Água pode ser muito importante “para que a sociedade e governo percebam a necessidade de preservar esse bem fundamental à sobrevivência do planeta”.