Pré-classificação de licitação internacional lista consórcios que vão estudar estratégias para Amazônia

13 de fevereiro de 2004

BID tem financiamento engatilhado de 200 milhões de dólares

O objetivo é conhecido: buscar uma estratégia segura para ocupação da Amazônia Legal através de um desenvolvimento sustentado. Daí a criação do Proecotur – Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo da Amazônia Legal que integra além do Ministério do Meio Ambiente, os ministérios do Esporte e Turismo (Embratur) e das Relações Exteriores (ABC). O programa tem apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que aprovou um financiamento de US$ 200 milhões a serem liberados num período de três anos.


Pré-classificação – Saiu o resultado inicial da primeira licitação internacional, com o objetivo de ter um estudo de mercado para a região da Amazônia Legal, além do diagnóstico e da estratégia da operação turística. Cinco grupos foram pré-classificados: os consórcios TC-BR, Monitor, STCP, THR-JP e a empresa espanhola Europraxis. As respostas técnicas foram abertas dia 7 de fevereiro e, segundo técnicos do PNUD/MMA/ABC Itamaraty o resultado deverá sair até o final de março. O grupo que ganhar a proposta técnica iniciará a negociação de preço.


Melhores práticas de ecoturismo – O Ministério do Meio Ambiente, através do Proecotur, do PNUD e da Unidade de Administração de Projetos da Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores promovem, dia 26 de fevereiro, a abertura de propostas de mais uma licitação na área de ecoturismo. Tema do trabalho: levantamento de melhores práticas de ecoturismo e elaboração de guias de orientação para o desenvolvimento da atividade turística na Amazônia.


Segundo o coordenador do Proecotur, Ricardo Soavisnki, esta licitação, para empresas nacionais, proporcionará ao governo um estudo detalhado para um publicação que sirva de orientação dos empresários nacionais e internacionais que queiram investir na atividade turística na Amazônia Legal.



Abema vai participar da RIO+10


O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, confirmou a participação da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Meio Ambiente (Abema) na Comissão Interministerial para a Participação do Brasil na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável – a Rio+10 -, que ocorrerá entre 26 de agosto e 4 de setembro deste ano em Joanesburgo, na África do Sul.


De acordo com nota do Ministério das Relações Exteriores, “a Cúpula de Joanesburgo será uma oportunidade singular para que a comunidade internacional possa avaliar a implementação da Agenda 21 e os desafios que restam para que o desenvolvimento sustentável se traduza em iniciativas e ações concretas”. Conforme o presidente da Abema, Claudio Langone, também secretário de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, os estados brasileiros podem e devem ter uma participação mais efetiva nos debates preparatórios à Rio+10. Sendo assim, ainda segundo nota do ministério, ” a Abema pode trazer uma perspectiva relevante para a atuação do Brasil na Conferência de Joanesburgo e nas reuniões preparatórias”.


Mais Informações: Abema: www.abema.org.br – e-mail: abema@abema.org.br









Política Ambiental para Amazônia

Congresso discute ação do governo na Amazônia

11 de fevereiro de 2004

A secretária Mary Allegreti promete gestão integrada e desenvolvimento sustentável

Dos 1,7 milhão
de hectares desmatados até
o ano de 1999, 46,34% ou 695 mil hectares eram de responsabilidade do Mato Grosso,  campeão absoluto do desmatamento


Desmatamento
Allegretti discutiu com os deputados duas ações estratégicas de gestão ambiental: a política de controle do desmatamento e a criação de unidades de conservação. Em relação ao controle do desmatamento, a secretária exibiu dados mostrando que, até o ano 2000, pelo menos 14,3% do bioma Amazônia haviam sido afetados pelo desmatamento, correspondendo a uma extensão de 589 mil quilômetros quadrados.


Ela explicou que o incremento  médio anual do desmatamento, no período de 1996 a 2000, é da ordem de 17.170 quilômetros quadrados. No período, foram desmatados 85.866 quilômetros quadrados, sendo 18.161 em 1996; 13.227 em 1997; 17.383 em 1998; 17.259 em 1999 e 19.836 quilômetros quadrados no ano 2000.


Segundo Allegretti, dos 1,7 milhão de hectares de floresta amazônica desmatados até o ano de 1999, 46,34% ou 695 mil hectares eram de responsabilidade Mato Grosso, o campeão absoluto do desmatamento.


Segue-se o Pará, com 511 mil hectares, ou 29% do total, o Estado de Rondônia com 235 mil hectares desmatados ou 13% do total, e o Maranhão com 123 mil hectares desmatados, ou 7% do total. O Acre desmatou 44 mil hectares; o Amazonas, 72 mil; Roraima também 72 mil e o Tocantins, 21,6 mil.


Allegretti diz que, mesmo considerando o fato de que a legislação vigente permite o desmatamento de até 80 milhões de hectares ou 20% das matas da Amazônia, a região necessita de uma política de contenção do desmatamento ilegal, responsável por mais de 40% das derrubadas na área.


Os projetos mais importantes


A secretária de Coordenação da Amazônia, do MMA, Mary Allegretti, apontou, durante os debates com os parlamentares da Comissão da Amazônia da Câmara dos Deputados, alguns projetos em implantação pelo Ministério do Meio Ambiente, destinados a implementar o desenvolvimento sustentável na Amazônia.


PPG7 – O primeiro desses projetos é o Programa Piloto ou PPG7, cujo objetivo é otimizar os benefícios ambientais oferecidos pelos ecossistemas das florestas tropicais. Financiado pelas sete nações mais industrializadas do mundo, o PPG7 dispõe de recursos de US$ 280 milhões. Segundo Allegretti, o PPG7, voltado para a gestão ambiental nos estados, já financiou demarcação de terras indígenas, recursos para pesquisas, inclusive destinados ao INPA, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e para o Museu Goeldi. Alcançando a sua segunda fase, o PPG7 sai da dimensão de piloto e passa a adotar diretamente as políticas de sustentabilidade da Amazônia.


PPTAL – Há ainda o Projeto para a Proteção das Terras Indígenas e o Programa Amazônia Solidária, cujo objetivo é garantir a proteção da floresta po meio do apoio econômico e social para as comunidades tradicionais, e que dispõe de R$ 41 milhões, sendo R$ 11 milhões do Orçamento Geral da União e R$ 30 milhões de recursos do Fundo de Desenvolvimento do Norte – FNO.


Proecotur – A secretária mencionou também o Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo, que pretende criar infra-estrutura turística em nove pólos, reparando a região para receber investimentos privados. Um contrato firmado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID – garante US$ 211 milhões para o programa, dos quais US$ 200 milhões só para investimentos.


Áreas Alteradas – Há também o Projeto de Recuperação de Áreas Alteradas, cujo objetivo é promover a recuperação ambiental e a reincorporação econômica de áreas desmatadas. Os recursos, no valor de R$ 8,7 milhões, são provenientes de emendas parlamentares, e deverão atender a 1.235 famílias e cerca de 2.100 hectares em recuperação.


Região Urbana – Finalmente, Allegretti mencionou o Projeto de Desenvolvimento Ambiental Urbano na Amazônia, cujo propósito é desenvolver ações estratégicas de gestão ambiental urbana, visando a melhoria da qualidade de vida nas cidades. São 85 pequenos projetos, no valor de R$ 56 milhões, alocados no Orçamento Geral da União através de emendas parlamentares.


Licenciamento Ambiental
O licenciamento é baseado em imagens de satélite e em sistemas de georreferenciamento


A arma que o governo tem para conter esse desmatamento irregular é, segundo Allegretti, o Sistema de Licenciamento Ambiental em Propriedade Rural. Uma área prioritária já foi definida para a implantação desse sistema: a área dos 43 municípios mais que mais devastam a floresta.


Allegretti diz tratar-se de um método inovador de licenciamento baseado em imagens de satélite e em sistemas de georreferenciamento, que permite aos órgãos de meio ambiente exercer um controle mais efetivo sobre o desmatamento em cada propriedade rural. O programa é financiado com recursos do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, o PPG7.


Conforme a secretária, o Licenciamento Ambiental em Propriedade Rural é feito a partir da entrega, pelo proprietário, de uma carta-imagem com informações sobre sua propriedade.


Nesse mapa são indicadas as áreas em exploração a serem exploradas economicamente, a reserva legal e as áreas de preservação permanente. A carta-imagem é sobreposta a informações contidas em imagens de satélite e armazenadas em uma base de dados própria do órgão fiscalizador, que pode verificar se houve desmatamento em áreas proibidas.


Allegretti explicou que todo o processo de licenciamento está orientado pelo Código Florestal que, para a Amazônia Legal, determina a manutenção de 80% de reserva legal em áreas de floresta e de 35% em áreas de cerrado.
Essa lei exige ainda a manutenção das áreas de preservação permanente e veta a concessão de autorização de desmatamento para os proprietários que mantenham áreas desmatadas abandonadas ou subutilizadas em sua propriedade.


A secretária informou que o Sistema de Licenciamento Ambiental em Propriedade Rural já foi testado com sucesso no Estado do Mato Grosso que o adotou em 1999. No primeiro ano de funcionamento, o sistema reduziu em 24% a taxa de desmatamento no estado e em 53% o número de focos de calor registrados no período. Agora, o sistema está sendo instalado em todos os estados.


Desafio é integrar a sustentabilidade
nas decisões de política econômica
Até hoje não foi feito um debate sério sobre os objetivos da agência que substitui a Sudam. Onde e como haverá interação desses objetivos com os objetivos de uma política de desenvolvimento sustentável?


Para a secretária Mary Allegretti, o grande desafio que hoje se impõe à Amazônia, na questão ambiental, é garantir uma integração da noção de sustentabilidade no processo de decisão das políticas de desenvolvimento da região.


Como exemplo dessa falta de integração, ela cita a recente reinstitucionalização da Sudam, com a criação da Agência de Desenvolvimento Regional da Amazônia. Até hoje — diz Mary — não foi feito um debate sério e profundo sobre os objetivos dessa agência, e onde e como haverá uma interação desses objetivos com os objetivos de uma política de desenvolvimento sustentável para a região.


Allegretti garante que o Ministério do Meio Ambiente está fazendo a sua parte. Ela distribuiu com os parlamentares da Comissão da Amazônia uma publicação intitulada “Instrumentos Econômicos para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia”, que contém uma síntese das políticas públicas de fomento ao desenvolvimento da Amazônia, com uma análise sobre sua eficácia, e um quadro sobre o estado e desenvolvimento atual da Amazônia.


Temas do estudo


 Ausência de foco espacial (ou excessiva concentração de projetos no Leste do Pará, Zona Franca de Manaus e Norte de Mato Grosso)
 Fragmentação institucional e financeira (ou a parcela de recursos transferidos para a região é expressiva, mas a dispersão dos recursos entre diferentes agências encarregadas da sua administração impede um uso mais eficaz)
 Falta de comando do poder público
 Ausência de visão de médio e longo prazos
 Baixo nível de envolvimento de estados e municípios
 Ausência de parcerias entre o poder público e a iniciativa privada e baixo nível de envolvimento da comunidade nas decisões de caráter estratégico


Parlamentares garantem que há uma enorme distância entre a intenção e o gesto


Para Allegretti, até o presidente FHC sabe que o grande problema da Amazônia é a ausência de
coordenação as políticas


Vários dos 26 integrantes da Comissão da Amazônia participaram dos debates que se seguiram à exposição da Secretária de Coordenação da Amazônia, Mary Allegretti, a maioria reclamando da falta de recursos e de uma correspondência entre as políticas e estratégias anunciadas e os resultados efetivamente apurados.


O deputado Babá (PT-PA) pôs em dúvida o que as populações amazônicas efetivamente ganharam com as ações ambientais desenvolvidas na região, afirmando que pouco foi feito para modernizar a agricultura amazônica. As propostas de modernização agrícola até hoje levadas ao governo federal não tiveram qualquer resposta, segundo afirmou.


Babá disse que “não saiu do papel” o zoneamento ecológico-econômico da Amazônia, e o pouco que foi feito, nos estados do Mato Grosso e Rondônia, foi a um custo elevado, da ordem de US$ 100 o hectare.


Allegretti respondeu que esse tipo de questionamento deve ser endereçado ao Ministério da Agricultura, mas assinalou a execução, com êxito, de cerca de 300 pequenos projetos do Programa Comunidade Solidária na Amazônia, apesar das limitações de recursos financeiros.


Ela admitiu que até agora fez-se pouco na Amazônia em termos de zoneamento, embora dois estados — Acre e Amapá — já tenham concluído o trabalho, com recursos do PPG7. Ela observou que, embora a responsabilidade do zoneamento seja do Ministério do Meio Ambiente, os recursos são controlados pelo Ministério da Integração Nacional.


Já o deputado Eurípedes Miranda, (Bloco PDT, PPS-RO), acusou o Incra de autorizar desmatamentos em áreas improdutivas, e criticou o que classificou de “engessamento do desmatamento”, afirmando que, em decorrência das exigências quanto às áreas desmatadas, os pequenos proprietários rurais não estão conseguindo financiamento para tocar suas lavouras.


O deputado Asdrubal Bentes (PMDB-PA) criticou a descoordenação das políticas públicas na Amazônia, lembrando que, embora a política ambiental, a política agrícola e a política da reforma agrária sejam políticas de um só governo, não há como fazê-las convergir.


Lembrou que, no Sul do Pará há 70 mil famílias assentadas. Se cada uma delas desmatar três hectares por ano, serão 210 mil hectares de floresta desmatada a cada ano. Ora — argumenta — se não há crédito, os assentados queimam a floresta, vendem a madeira e depois voltam para a cidade, onde vão mendigar ou submeter-se a subempregos. Este, disse, é o resultado visível da falta de coordenação das políticas oficiais.


Para Bentes, embora a região do Marabá seja de grande extensão, qualquer problema relacionado às ações governamentais terá de ser solucionado em Belém. Como não houve um planejamento estratégico, enormes áreas claramente impróprias para a pecuária, foram desmatadas.


Allegretti respondeu ao parlamentar dizendo que até ao presidente Fernando Henrique ela já disse que o grande problema da Amazônia é a ausência de coordenação das políticas. Daí porque, um dos pilares da estratégia do Ministério do Meio Ambiente para a região é justamente buscar essa coordenação.


 

Desenvolvimento Sustentável

Amazônia: negócios sustentáveis ampliam pequenos empreendimentos

2 de fevereiro de 2004

Iniciativas produtivas comunitárias, desenvolvidas na Amazônia pelo Programa Demonstrativo (PDA), serão a base do Programa para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG-7) para incrementar a produção sustentável das populações tradicionais (extrativistas, seringueiros, ribeirinhos e índios). Esse é um fator considerado fundamental para melhoria da qualidade de vida dessas comunidades, mantendo-as na floresta e evitando… Ver artigo

Iniciativas produtivas comunitárias, desenvolvidas na Amazônia pelo Programa Demonstrativo (PDA), serão a base do Programa para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG-7) para incrementar a produção sustentável das populações tradicionais (extrativistas, seringueiros, ribeirinhos e índios). Esse é um fator considerado fundamental para melhoria da qualidade de vida dessas comunidades, mantendo-as na floresta e evitando o desmatamento causado pelos grandes empreendimentos.


Sob a responsabilidade de cooperativas e associações, a produção atual de polpa de frutas, de óleos vegetais, de madeira com plano de manejo e do látex, não alcança volume suficiente para beneficiar a maior parte dessas populações.
Levantamentos do PPG-7 mostram 22 mil pessoas vivendo nas reservas extrativistas federais de Chico Mendes e Alto Juruá, no Acre; Rio Ouro Preto, em Rondônia e Rio Cajari, no Pará. A população indígena cresceu de 250 mil para 350 mil, nos últimos dez anos.
As cooperativas enfrentam problemas como ausência de linha de crédito específica e de distribuição do produto no mercado. “Muitos empreendimentos comunitários sequer conseguem viabilizar a venda de sua produção”, observa Regina Cavini, coordenadora do Projeto Negócios Sustentáveis, o braço do PPG-7 destinado a expandir a produção na Amazônia.


O subprograma conta com 2 milhões de Euros, doados pelo governo holandês, para executar o projeto nos próximos dois anos. As exigências para ampliação de experiências inovadoras do PDA atingem três vertentes: a proposta precisa ser comunitária, usar os recursos naturais de forma sustentável e ser viável economicamente.
Será feito um inventário completo dos cerca de cem projetos amazônicos. As etapas de produção e organização dos empreendimentos serão avaliadas em uma visita dos técnicos. “As lideranças estão encontrando dificuldades na gestão dos pequenos negócios”, justifica Regina Cavini. O programa prevê cursos de capacitação para acabar com essa deficiência, transferência de tecnologia, estudos setoriais estratégicos e parcerias comerciais.


Os setores de beneficiamento da castanha, de óleos vegetais, frutas, madeira e borracha, receberão atenção especial do Projeto Negócios Sustentáveis. “As pessoas que desenvolvem essas atividades prestam um serviço ao Brasil mantendo a floresta em pé”, ressalta a coordenadora. Um dos objetivos do programa é manter os conhecimentos tradicionais com a ocupação da mão-de-obra local.
A produção amazônica possui características peculiares que precisam ser entendidas pelas grandes empresas. Regina Cavini cita o exemplo do volume variável de castanha. “Em um ano, o castanhal produz muito, no ano seguinte, isso pode não acontecer. Conhecendo essas características, as empresas vão se preparar para trabalhar com essas diferenças”, aponta. Outra singularidade é o uso múltiplo da floresta, onde um trabalhador exerce várias atividades.


Werner Kornexl: precisamos ir além da produção de subsistência


Embora a primeira fase do PPG-7 tenha sido destinada à organização das populações e à formação de lideranças na região amazônica, muitos projetos produtivos foram desenvolvidos paralelamente. O Banco Mundial, por exemplo, financia planos de manejo, produção de açaí, castanha, cupuaçu e palmito. São aproximadamente 400 programas.
Uma mudança significativa pode ser vista nas pequenas comunidades da região. “A capacidade de negociação mudou. Houve melhoria na geração de renda, nas questões de saúde, higiene e educação”, afirma o especialista florestal do Banco Mundial, Werner Kornexl, que também já atuou no Programa de Reservas Extrativistas (Resex) do PPG-7.
O objetivo inicial da produção de subsistência foi plenamente alcançado, acrescenta. Ele considera que esse limite não é suficiente para manter essas pessoas morando na floresta. Para isso, é preciso implantar projetos que gerem valor agregado às comunidades, a exemplo da aquisição de máquinas para beneficiamento de produtos, na busca de energia, mesmo que seja alternativa.


O Banco Mundial investiu recursos em 140 projetos demonstrativos comunitários, que beneficiam cerca de 50 famílias diretamente, em 30 projetos pró-manejo.
A sustentabilidade, a longo prazo, ainda está comprometida, segundo Kornexl. Existem problemas nas áreas de infra-estrutura e educação. Mas as campanhas sobre a importância da floresta e a necessidade de desenvolvimento sustentável, criadas pelo MMA, pelo PPG-7 e pelas ONGs, estão conseguindo sensibilizar pequenos produtores amazônicos e o setor privado nacional.


Ecoturismo
Outro negócio que vem crescendo e ocupando um espaço importante no desenvolvimento sustentável da Amazônia é o ecoturismo. Essa é uma atividade que educa, fixa o homem na região, gera emprego, aumenta a renda familiar e ajuda a preservar.


Outros projetos produtivos
A situação mudou, mas o transporte é deficitário e falta infra-estrutura. Assim mesmo os agroextrativistas conseguem trazer, por mês, 12 toneladas de polpa de frutas para Brasília


O Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) é a outra ponta que está viabilizando projetos produtivos. Em parceria com a Secretaria de Coordenação da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, o CNS acompanha desde a elaboração de propostas até a liberação de recursos de até R$ 3 mil destinados a iniciativas agroextrativistas sustentáveis. Parte desses recursos são destinados à capacitação e ao gerenciamento dos pequenos negócios.
A responsabilidade é assumida pelas cooperativas e associações. Os líderes identificam os mesmos problemas apontados pelos técnicos do PPG-7. A situação mudou, mas o transporte é deficitário e falta infra-estrutura.


Carências à parte, o Conselho está descobrindo grandes mercados em Brasília e São Paulo. “Estamos conseguindo trazer 12 toneladas de polpa mensal para os brasilienses e 60 mil quilos de peixe”, revela o assessor técnico, Carlos Martins Leão. Para conservar o peixe, eles instalaram uma câmara fria, com capacidade para 12 toneladas, no Memorial Chico Mendes, localizado no Parque da Cidade. A comercialização do peixe acontece apenas por encomenda.
Os seringueiros têm também uma loja de artesanato no Memorial, que gera recursos da ordem de R$ 6 mil por mês. Martins reconhece que a comercialização dos produtos amazônicos precisa ser organizada, só assim poderão conquistar o mercado paulista. Uma das alternativas seria uma parceria com empresas ou cooperativas que trabalhasse com polpa de frutas.

Amazônia

Amazonas: Eduardo Braga vai criar Zona Franca Verde

8 de dezembro de 2003

Secretário de Meio Ambiente preocupado com desmatamento quer riqueza da floresta ao alcance da população, mas de forma sustentável






Virgílio Viana quer reverter a degradação
por meio de um programa que crie
a Zona Franca Verde

Folha do Meio – Como o senhor define a situação socioambiental do Amazonas hoje?
Virgílio Viana –
Nós temos duas situações: a do interior e da capital. No interior, está o povo mais sofrido. O fim do Ciclo da Borracha, que foi responsável pela grande ocupação desse estado, obrigou o homem da floresta a explorar o peixe, os bichos de casco e a madeira. Aí vieram as leis e a fiscalização do Ibama, mas nenhuma instrução ou educação junto com elas.


E do ribeirinho, aquele que tira madeira com machado, passou a ser cobrada ATPF e outros documentos. Novamente, ele se viu obrigado a desistir de sobreviver cortando e vendendo madeira. E o êxodo rural aumentou. O homem da floresta foi para as sedes dos municípios ou veio para Manaus. O que se vê, atualmente, são calhas de rios inteiros sendo esvaziados. Enquanto na capital há um inchaço populacional e um crescimento desordenado que vem provocando desmatamentos, aumento de lixo, poluição de igarapés e uma situação socioeconômica preocupante.


Só para se ter uma idéia, mais de 80% dos igarapés de Manaus estão poluídos, cobertos de lixo de todos os tipos. Não há dados sobre a devastação das matas, mas sabe-se que as invasões de terrenos seguem para as áreas onde há floresta.


FMA – E o povo que ficou no interior, como está hoje?
Virgílio –
Houve uma quebra na economia. O regatão, um barco típico da região, que fazia o escoamento da produção, deixou de fazer as viagens porque já não tinha o que trazer para as cidades com a queda da produção. Os habitantes da floresta que viviam da pesca, do bicho de casco e da madeira ficaram sem renda e alguns sem emprego. Um dado mostra claramente isso. Somente no Alto Solimões, 80% das madeireiras estão fechadas e em uma delas, 13 trabalhadores que perderam o emprego se tornaram “mulas” do tráfico de drogas e estão presos. O que é comum nessa região de fronteira com a Colômbia, onde falta emprego e formas de explorar os recursos naturais e sobram traficantes internacionais. Dados da Polícia Federal dão conta de que há 500 brasileiros presos em Portugal, Itália, Espanha e Holanda, por tráfico. É um quadro sombrio esse do interior.


FMA – Apesar de ter havido essa quebra na exploração de madeira e pescado, há informações de que o desmatamento no Amazonas prossegue e de que os recursos pesqueiros andam ameaçados, não é verdade?
Virgílio –
É verdade, mas isso ocorre por região e não no estado todo. A floresta, por exemplo, sofre uma maior pressão no sul do Amazonas – uma área que vai do município de Apuí até o de Humaitá – onde o processo de desmatamento vem ocorrendo em virtude da expansão da fronteira agrícola, tal qual aconteceu nos estados de Rondônia e do Pará. Lá está concentrado 70% do desmatamento do estado, a maioria para plantio de soja e outra parte para a exploração de madeira. E é tudo desmatamento legal, porque a legislação em vigor dá mais facilmente uma permissão para derrubar a floresta do que para mantê-la em pé. Isso é um absurdo, mas é a realidade.


A leste do estado ocorre a maior pressão sobre a pesca e já tem lagos inteiros sem nenhum peixe. É o caso do lago dos Reis, no município de Careiro. Ali a pressão foi tanta que a população não tem como retirar o alimento do próprio ambiente. O rio Amazonas, próximo a fronteira com o Pará, é um dos mais prejudicados com a pesca desordenada e predatória.


FMA – Com tantos problemas e dimensões tão grandes o Amazonas parece mesmo fadado a perder suas riquezas naturais e ver seu povo passar fome…
Virgílio –
Não é bem assim. Há uma crise social e ausência de sistemas de produção sustentáveis. Por um lado é uma situação trágica, mas por outro há uma grande esperança que nasce a partir das descobertas dos conhecimentos que as populações tradicionais acumularam ao longo dos tempos. Eles conhecem tudo dessa floresta e sabem como sobreviver dela, falta apenas mecanismos e sistemas de produção e comercialização. E é aí que entra o programa Zona Franca Verde, do governo do Amazonas.







Os técnicos do governo vão ao interior explicar que regras simplificadas podem privilegiar
aqueles que quiserem trabalhar
de forma a manter a floresta
em pé em vez de derrubá-la

Zona Franca Verde:
o que é e como funciona


FMA – Mas o que é o Zona Franca Verde?
Virgílio –
É um programa de geração de emprego e renda associado à conservação da natureza e que tem como estratégia apoio a sistemas de produção florestal, pesqueiro e de agricultura familiar. Tudo associado à gestão apropriada de áreas protegidas, áreas estas que representam 45% do território do Amazonas e totalizam 70 milhões de hectares; quase duas vezes o tamanho da Alemanha.


E o primeiro passo para consolidar esse programa, que já foi lançado e está sendo implementado nas regiões do Alto Solimões e do Juruá, e no município de Maués, é desburocratizar a legislação ambiental em vigor, tornando-a acessível ao homem do interior. A minuta, com as regras simplificadas e que privilegia aqueles que quiserem trabalhar de forma a manter a floresta em pé em vez de derrubá-la, já está pronta e deverá ser encaminhada ainda este ano pelo governador Eduardo Braga à Assembléia Legislativa do Estado. Depois disso aprovado, iremos colocar pontos com internet nos municípios do interior para que o homem da floresta possa tirar sua autorização, para exploração da mata de forma sustentável, sem muita burocracia. Esse é um passo muito importante.


FMA – Mas quanto ao fomento de sistemas de produção?
Virgílio –
O Estado vai oferecer assistência técnica e já vem fazendo isso, a um custo para os cofres públicos na ordem de R$ 8 milhões, para o homem do interior. Junto com isso, está oferecendo, por meio da Agência de Fomento do Amazonas, crédito para projetos de desenvolvimento sustentável, que pode ser desde a retirada do cipó até da castanha, num total de R$ 10 milhões. Dinheiro que o Banco da Amazônia (BASA) nunca colocou à disposição do homem da floresta, salvo por um projeto que eles financiaram este ano no Pará, pela primeira vez na história. E, finalmente, o governo entra ainda com o apoio à comercialização, usando seu poder de compra para adquirir ou intermediar a venda dos produtos.


Um bom exemplo é o da produção de 10 mil carteiras escolares que o Estado comprou para a rede pública de ensino e que foram produzidas com madeira com selo verde, no município de Itacoatiara, pela Associação dos Moveleiros de lá. São as primeiras carteiras com madeira certificada produzidas no Brasil e estão gerando mais de 80 empregos diretos. Isso é Zona Franca Verde.


FMA – Essa proposta da Zona Franca Verde não chega a ser utópica, visto que há tanto a ser feito e isso deve levar muito tempo e o programa pode se perder nesse caminho?
Virgílio –
Os resultados satisfatórios só virão, verdadeiramente, a longo prazo. Mas há soluções a curtíssimo prazo que já podem ir mudando esse cenário sombrio do interior. As carteiras são exemplo disso. Há também o caso da Associação dos Agroextrativistas de Santo Antônio do Mourão, no município de Eirunepé, que estão produzindo 1.750m3 de madeira por ano, por meio de manejo. Este projeto está beneficiando 80 famílias do lugar e gerando renda. Então, apesar de sabermos que estamos enfrentando um déficit histórico de ausência de políticas nessa área de desenvolvimento sustentável, acreditamos que esse é o único caminho para a sobrevivência do Amazonas. Só que temos consciência de que é necessária uma coalizão em todos as esferas de poder para que isso dê certo.


Até porque, hoje, os maiores compradores de madeira tropical estão em São Paulo e não no exterior. Então se o Brasil não conscientizar o Brasil de que precisa se unir para proteger suas riquezas naturais, iremos sumir com elas. E a Zona Franca Verde é uma chance inédita de escrevermos um capítulo diferente de uma história que está predestinada a repetir a mesma da Mata Atlântica.


Entenda o que é a Zona Franca Verde


A melhor explicação é um bom exemplo. A noroeste do Amazonas, o micro empresário José Carlos extraía dez quilos de óleo de andiroba por hora, usando de energia solar e uma telha de alumínio. O produto era comercializado no Amazonas a preços pouco rentáveis, incapazes de promover a ampliação do negócio. Inserido no Programa Zona Franca Verde (ZFV), ele passou a produzir 40 quilos por hora. Tudo graças a aquisição de uma máquina que faz o serviço mais rápido e com menos desperdício. A compra do equipamento foi feita com dinheiro de um financiamento concedido pela Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) por meio da linha de crédito Pró-Floresta criada para atender participante do Zona Franca Verde.


O exemplo é um dos casos considerados simbólicos sobre como o ZFV pode mudar a realidade do povo do Amazonas, citado pelo secretário executivo de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado, João Matos. De acordo com ele, a história de crescimento empresarial de José Carlos está apenas começando.


Matos disse que na fase atual, técnicos da Agência de Florestas e Negócios Sustentáveis do Governo do Amazonas estão buscando em São Paulo – maior comprador do óleo de andiroba – empresários que queiram se tornar parceiros do micro empresários amazonense. “A idéia é abrir mercado para o produto de José Carlos e possibilitar que os empresários tanto adquiram o óleo de andiroba aqui e com preços competitivos, quanto tenham interesse em ajudar a aumentar o negócio de José Carlos, por meio de uma parceria.”


Isso, explica Matos, é bem diferente do que ocorria. Antes, os compradores chegavam e pagavam qualquer preço pelos produtos da floresta porque os produtores locais não estavam capitalizados e nem preparados para o mercado externo. Hoje, eles possuem financiamento, orientação técnica e buscam parceria, não a venda dos domínios das riquezas naturais do Amazonas.


Com isso, ele deixa claro que as portas do estado para que empresários de todo o Brasil e o mundo sejam parceiros e compradores dos produtos da floresta estão abertas. (LK)

Amazônia

Amazonas: Eduardo Braga vai criar Zona Franca Verde

8 de dezembro de 2003

Secretário de Meio Ambiente preocupado com desmatamento quer riqueza da floresta ao alcance da população, mas de forma sustentável






Virgílio Viana quer reverter a degradação
por meio de um programa que crie
a Zona Franca Verde

Folha do Meio – Como o senhor define a situação socioambiental do Amazonas hoje?
Virgílio Viana –
Nós temos duas situações: a do interior e da capital. No interior, está o povo mais sofrido. O fim do Ciclo da Borracha, que foi responsável pela grande ocupação desse estado, obrigou o homem da floresta a explorar o peixe, os bichos de casco e a madeira. Aí vieram as leis e a fiscalização do Ibama, mas nenhuma instrução ou educação junto com elas.


E do ribeirinho, aquele que tira madeira com machado, passou a ser cobrada ATPF e outros documentos. Novamente, ele se viu obrigado a desistir de sobreviver cortando e vendendo madeira. E o êxodo rural aumentou. O homem da floresta foi para as sedes dos municípios ou veio para Manaus. O que se vê, atualmente, são calhas de rios inteiros sendo esvaziados. Enquanto na capital há um inchaço populacional e um crescimento desordenado que vem provocando desmatamentos, aumento de lixo, poluição de igarapés e uma situação socioeconômica preocupante.


Só para se ter uma idéia, mais de 80% dos igarapés de Manaus estão poluídos, cobertos de lixo de todos os tipos. Não há dados sobre a devastação das matas, mas sabe-se que as invasões de terrenos seguem para as áreas onde há floresta.


FMA – E o povo que ficou no interior, como está hoje?
Virgílio –
Houve uma quebra na economia. O regatão, um barco típico da região, que fazia o escoamento da produção, deixou de fazer as viagens porque já não tinha o que trazer para as cidades com a queda da produção. Os habitantes da floresta que viviam da pesca, do bicho de casco e da madeira ficaram sem renda e alguns sem emprego. Um dado mostra claramente isso. Somente no Alto Solimões, 80% das madeireiras estão fechadas e em uma delas, 13 trabalhadores que perderam o emprego se tornaram “mulas” do tráfico de drogas e estão presos. O que é comum nessa região de fronteira com a Colômbia, onde falta emprego e formas de explorar os recursos naturais e sobram traficantes internacionais. Dados da Polícia Federal dão conta de que há 500 brasileiros presos em Portugal, Itália, Espanha e Holanda, por tráfico. É um quadro sombrio esse do interior.


FMA – Apesar de ter havido essa quebra na exploração de madeira e pescado, há informações de que o desmatamento no Amazonas prossegue e de que os recursos pesqueiros andam ameaçados, não é verdade?
Virgílio –
É verdade, mas isso ocorre por região e não no estado todo. A floresta, por exemplo, sofre uma maior pressão no sul do Amazonas – uma área que vai do município de Apuí até o de Humaitá – onde o processo de desmatamento vem ocorrendo em virtude da expansão da fronteira agrícola, tal qual aconteceu nos estados de Rondônia e do Pará. Lá está concentrado 70% do desmatamento do estado, a maioria para plantio de soja e outra parte para a exploração de madeira. E é tudo desmatamento legal, porque a legislação em vigor dá mais facilmente uma permissão para derrubar a floresta do que para mantê-la em pé. Isso é um absurdo, mas é a realidade.


A leste do estado ocorre a maior pressão sobre a pesca e já tem lagos inteiros sem nenhum peixe. É o caso do lago dos Reis, no município de Careiro. Ali a pressão foi tanta que a população não tem como retirar o alimento do próprio ambiente. O rio Amazonas, próximo a fronteira com o Pará, é um dos mais prejudicados com a pesca desordenada e predatória.


FMA – Com tantos problemas e dimensões tão grandes o Amazonas parece mesmo fadado a perder suas riquezas naturais e ver seu povo passar fome…
Virgílio –
Não é bem assim. Há uma crise social e ausência de sistemas de produção sustentáveis. Por um lado é uma situação trágica, mas por outro há uma grande esperança que nasce a partir das descobertas dos conhecimentos que as populações tradicionais acumularam ao longo dos tempos. Eles conhecem tudo dessa floresta e sabem como sobreviver dela, falta apenas mecanismos e sistemas de produção e comercialização. E é aí que entra o programa Zona Franca Verde, do governo do Amazonas.







Os técnicos do governo vão ao interior explicar que regras simplificadas podem privilegiar
aqueles que quiserem trabalhar
de forma a manter a floresta
em pé em vez de derrubá-la

Zona Franca Verde:
o que é e como funciona


FMA – Mas o que é o Zona Franca Verde?
Virgílio –
É um programa de geração de emprego e renda associado à conservação da natureza e que tem como estratégia apoio a sistemas de produção florestal, pesqueiro e de agricultura familiar. Tudo associado à gestão apropriada de áreas protegidas, áreas estas que representam 45% do território do Amazonas e totalizam 70 milhões de hectares; quase duas vezes o tamanho da Alemanha.


E o primeiro passo para consolidar esse programa, que já foi lançado e está sendo implementado nas regiões do Alto Solimões e do Juruá, e no município de Maués, é desburocratizar a legislação ambiental em vigor, tornando-a acessível ao homem do interior. A minuta, com as regras simplificadas e que privilegia aqueles que quiserem trabalhar de forma a manter a floresta em pé em vez de derrubá-la, já está pronta e deverá ser encaminhada ainda este ano pelo governador Eduardo Braga à Assembléia Legislativa do Estado. Depois disso aprovado, iremos colocar pontos com internet nos municípios do interior para que o homem da floresta possa tirar sua autorização, para exploração da mata de forma sustentável, sem muita burocracia. Esse é um passo muito importante.


FMA – Mas quanto ao fomento de sistemas de produção?
Virgílio –
O Estado vai oferecer assistência técnica e já vem fazendo isso, a um custo para os cofres públicos na ordem de R$ 8 milhões, para o homem do interior. Junto com isso, está oferecendo, por meio da Agência de Fomento do Amazonas, crédito para projetos de desenvolvimento sustentável, que pode ser desde a retirada do cipó até da castanha, num total de R$ 10 milhões. Dinheiro que o Banco da Amazônia (BASA) nunca colocou à disposição do homem da floresta, salvo por um projeto que eles financiaram este ano no Pará, pela primeira vez na história. E, finalmente, o governo entra ainda com o apoio à comercialização, usando seu poder de compra para adquirir ou intermediar a venda dos produtos.


Um bom exemplo é o da produção de 10 mil carteiras escolares que o Estado comprou para a rede pública de ensino e que foram produzidas com madeira com selo verde, no município de Itacoatiara, pela Associação dos Moveleiros de lá. São as primeiras carteiras com madeira certificada produzidas no Brasil e estão gerando mais de 80 empregos diretos. Isso é Zona Franca Verde.


FMA – Essa proposta da Zona Franca Verde não chega a ser utópica, visto que há tanto a ser feito e isso deve levar muito tempo e o programa pode se perder nesse caminho?
Virgílio –
Os resultados satisfatórios só virão, verdadeiramente, a longo prazo. Mas há soluções a curtíssimo prazo que já podem ir mudando esse cenário sombrio do interior. As carteiras são exemplo disso. Há também o caso da Associação dos Agroextrativistas de Santo Antônio do Mourão, no município de Eirunepé, que estão produzindo 1.750m3 de madeira por ano, por meio de manejo. Este projeto está beneficiando 80 famílias do lugar e gerando renda. Então, apesar de sabermos que estamos enfrentando um déficit histórico de ausência de políticas nessa área de desenvolvimento sustentável, acreditamos que esse é o único caminho para a sobrevivência do Amazonas. Só que temos consciência de que é necessária uma coalizão em todos as esferas de poder para que isso dê certo.


Até porque, hoje, os maiores compradores de madeira tropical estão em São Paulo e não no exterior. Então se o Brasil não conscientizar o Brasil de que precisa se unir para proteger suas riquezas naturais, iremos sumir com elas. E a Zona Franca Verde é uma chance inédita de escrevermos um capítulo diferente de uma história que está predestinada a repetir a mesma da Mata Atlântica.


Entenda o que é a Zona Franca Verde


A melhor explicação é um bom exemplo. A noroeste do Amazonas, o micro empresário José Carlos extraía dez quilos de óleo de andiroba por hora, usando de energia solar e uma telha de alumínio. O produto era comercializado no Amazonas a preços pouco rentáveis, incapazes de promover a ampliação do negócio. Inserido no Programa Zona Franca Verde (ZFV), ele passou a produzir 40 quilos por hora. Tudo graças a aquisição de uma máquina que faz o serviço mais rápido e com menos desperdício. A compra do equipamento foi feita com dinheiro de um financiamento concedido pela Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) por meio da linha de crédito Pró-Floresta criada para atender participante do Zona Franca Verde.


O exemplo é um dos casos considerados simbólicos sobre como o ZFV pode mudar a realidade do povo do Amazonas, citado pelo secretário executivo de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável do Estado, João Matos. De acordo com ele, a história de crescimento empresarial de José Carlos está apenas começando.


Matos disse que na fase atual, técnicos da Agência de Florestas e Negócios Sustentáveis do Governo do Amazonas estão buscando em São Paulo – maior comprador do óleo de andiroba – empresários que queiram se tornar parceiros do micro empresários amazonense. “A idéia é abrir mercado para o produto de José Carlos e possibilitar que os empresários tanto adquiram o óleo de andiroba aqui e com preços competitivos, quanto tenham interesse em ajudar a aumentar o negócio de José Carlos, por meio de uma parceria.”


Isso, explica Matos, é bem diferente do que ocorria. Antes, os compradores chegavam e pagavam qualquer preço pelos produtos da floresta porque os produtores locais não estavam capitalizados e nem preparados para o mercado externo. Hoje, eles possuem financiamento, orientação técnica e buscam parceria, não a venda dos domínios das riquezas naturais do Amazonas.


Com isso, ele deixa claro que as portas do estado para que empresários de todo o Brasil e o mundo sejam parceiros e compradores dos produtos da floresta estão abertas. (LK)