Revisitando Barra do Garças

A indústria dos curtumes

20 de julho de 2007

Da poluição e do desperdício ao reaproveitamento

A EMPAER fez uma parceria com o curtume, para acertar a medida certa que poderia ser despejada como fertilizante, sem atingir os recursos hídricos ou prejudicar o solo


 


Planta do Curtusa.: a sociedade brasileira espera que a expansão da indústria de curtimento
acompanhe o resultado das pesquisas e encontre um equilíbrio ambiental,
procurando sempre reaproveitar todos os subprodutos


 


 


A indústria dos curtumes não tem bom histórico em relação ao meio ambiente. A própria natureza de suas operações –  receber os couros verdes ou salgados, conter o processo natural de decomposição, remover os restos de carne e pelo, enrijecer e depois amaciar o couro – enfim, tudo isto requer o uso de produtos químicos poderosos. A matéria-prima do curtimento é o cromo trivalente (diferente do cromo hexavalente, tóxico e cancerígeno, usado na indústria metalúrgica). Ao lavar os couros após o curtimento, o efluente sai rico nesse cromo valioso.


Barra do Garças
Em junho do ano passado, ao sobrevoar Barra do Garças (MT), ficamos chocados ao ver um efluente acinzentado sendo despejado em terra vazia perto do aeroporto. Os moradores reclamavam do mau cheiro e culpavam o Curtume Santo Antônio – Curtusa. Uma matéria publicada na Folha do Meio Ambiente (edição 171/agosto 2006) exprimiu nossa preocupação com o que tínhamos visto.
Em junho agora, fomos convidados a conhecer as instalações deste curtume de Barra do Garças. A história hoje é outra. Pelo visto, nos últimos cinco anos há um esforço para diminuir os impactos ambientais. A começar pelo cromo. Entre 40 e 50% do efluente de cromo é reciclado.
O excedente ainda passa por dois tratamentos (um físico-químico, um biológico) e sai praticamente isento de cromo. A parte sólida é desidratada e levada para uma vala do aterro industrial licenciado.
O lodo (são 60 m³ por dia) e o excedente do efluente (800m³/dia) são encaminhados para um projeto de fertirrigação para reflorestamento – justamente o que tínhamos visto do ar – numa fazenda a três quilômetros da fábrica. O líquido –  composto basicamente por matéria orgânica, nitrogênio, cal e enxofre – é bombeado até a fazenda onde é espalhada por sistema de aspersão. Parece uma irrigação normal. O lodo, mais grosso, é levado num caminhão diretamente para os campos.


Consequências
Mas então, qual é a conseqüência disso tudo? Não vai contaminar o lençol freático? Evidente que solos com características diferentes têm taxas de absorção e saturação diferentes. Daí, a importância de realizar pesquisas detalhadas antes de implantar um projeto desses.
Durante um ano, vários experimentos extensivos foram realizados pelos técnicos e acompanhados por análises minuciosas. Alexandre Scarello, técnico agropecuário da Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural-Empaer, fez uma parceria com o curtume, para acertar a medida certa que poderia ser despejada como fertilizante, sem atingir os recursos hídricos ou prejudicar o solo.
Pelas pesquisas realizadas, chegou-se a conclusão que após atingir o ponto de saturação, o ideal é deixar o solo em descanso por até dois anos e depois repetir as análises. Os 350 hectares da fazenda darão ao curtume uma margem de 10 anos para dispor os resíduos, quando terá que passar por novas avaliações das condições do solo e lençol freático. 


Os resultados surpreendem. As mudas de eucalipto cresceram quase o dobro do registrado normalmente. Também houve sucesso com outras árvores, como a Acácia Mangium (australiana) e Nim (indiana). Ao aproveitar o efluente na fertilização, a empresa diminui a poluição e chega a aumentar sua renda com novos produtos, como as sementes de nim que valem uma média de R$ 300,00 por quilo para uso farmacêutico e cosmético.
Os curtumes, como as outras indústrias e até como nós mesmos, precisam economizar água. Todos têm que racionalizar o uso dos recursos hídricos. Também aí a Curtusa tem seu esforço compensado: enquanto a média nacional de consumo de água é de 600-700 litros/couro, a Curtusa, que tem uma produção diária de 2.500 couros, conseguiu abaixar o consumo de 500 para 298 litros/couro.


Inovações: sebo-diesel
Antigamente, a empresa queimava madeira para esquentar a caldeira (precisa de vapor para certos processos). Aqui, também inovou. O sebo de primeira qualidade produzido pelo cozimento da carnaça é vendido à indústria de sabão, sabonetes e de cosméticos, onde é transformado em glicerina.  Na Curtusa, o sebo de segunda qualidade é reaproveitado como combustível na caldeira, eliminando a queima de madeira. Recentemente, o sebo de terceira qualidade (das máquinas, pisos, purga etc.) também começou a ser recuperado para uso na caldeira.
Não pára aí. O gerente-geral, Sergio Motta, teve a idéia de destilar sebo para produzir sebo-diesel. Este combustível está sendo testado em alguns veículos da frota da empresa, como ca-minhões, tratores e até o ônibus dos funcionários. E tem mais! Do processo de descarne dos couros é produzida farinha de carne para ração de aves, suínos e peixes.  E os aparas, os residuais dos couros? Nada se perde. São vendidos para fábricas de gelatina em São Paulo e Rio Grande do Sul. Pois é, a gente passa a ver a
inofensiva gelatina com outros olhos… 
Confesso que visitar um curtume não foi fácil para mim. É um espanto de ver chegar os caminhões cheios de couros moles e escorregadios, recém-arrancados dos bois. Tive que me controlar e concentrar nas explicações do gerente Sérgio Motta ao descrever a engenharia dos equipamentos que buscam fazer mais com menos.
A relação pacífica das empresas com as pessoas que vivem em seu entorno é cada vez mais valorizada. Poluir o ar ou as águas pode significar prejudicar os próprios funcionários, ou mesmo os seus, os meus, os nossos filhos. Cada vez mais as companhias têm de olhar a produção como um todo: gerando emprego e lucro, produzindo sem dar um tiro no próprio pé ao impactar o ambiente (ar, água ou solo). Em 2003, o Brasil produziu cerca de 35 milhões de peles bovnas, sendo que em torno de 15 milhões foram absorvidos no mercado interno, na produção de sapatos, artigos de couro e revestimento de móveis. O excedente é exportado. No ano passado, só em exportações, foram 36 milhões de couros, gerando US$1.878 bilhão de dólares, segundo a Revista Courobusiness.  São números impressionantes. Com o crescimento vertiginoso de produção de gado de corte, a disponibilidade de peles aumenta exponencialmente.
O que a sociedade brasileira espera? Sim, espera que a expansão da indústria de curtimento acompanhe o resultado das pesquisas e encontre um equilíbrio ambiental, procurando sempre reaproveitar todos os subprodutos, como é o caso da Curtusa. A meta é minimizar os impactos nos recursos hídricos e no solo. Todo progresso que não leva em conta o meio ambiente é um progresso estéril.


       Mais informações:
Andressa Jensen Dela Torres, gestora ambiental
andressa.delatorres@bmzcouros.com.br