Barra da Estiva, galos na madrugada

29 de outubro de 2014

"Bem cedo embarcamos no PIPES em direção a Ribeiro Gonçalves.  A paisagem continua com o cerrado, de vez em quando uma vereda ornada de buritizeiros.  Vão surgindo os “talhados”, monólitos rochosos tipo pão de açúcar, com as cores variando conforme as horas do dia, desde o cinzento até o dourado. Como sentinelas, alguns deles parecem… Ver artigo

"Bem cedo embarcamos no PIPES em direção a Ribeiro Gonçalves. 
A paisagem continua com o cerrado, de vez em quando uma vereda ornada de buritizeiros. 
Vão surgindo os “talhados”, monólitos rochosos tipo pão de açúcar, com as cores variando conforme as horas do dia, desde o cinzento até o dourado. Como sentinelas, alguns deles parecem desviar !"
 
 
Geraldo Gentil Vieira
geraldogvieira@gmail.com
 
É vencida a cachoeira do Puga, próxi- mo à foz do Riachão. Devido à cheia, elas estão quase encobertas, perigosas, e quan- do surgem, o capitão Murilo chama todos à proa, o barco empina a popa com o con- trapeso e mais uma “batedeira” é vencida. 
 
Calmaria, o barco vai descendo no seu monótono pó-pó-pó, o sol já a declinar no horizonte, nuvens negras indicam chuvas sem demora. Aqui e ali pequenas roças de milho, cana de açúcar, bananeiras e abóbo- ras, lavouras de subsistência no barranco. Junto às choupanas cobertas por folhas de buritizeiros, famílias tristes saúdam a pas- sagem do inesperado barco.
 
Em Baixa Funda, a barca PIPES atraca para um fl agrante de agressão ambiental, a abertura de um porto clandestino para balsa de travessia não autorizada pelo Iba- ma, no município de Barra Funda.
As águas mudam de repente, alguém 
 
As águas mudam de repente, alguém grita, incrédulo: “uma cachoeira!”. To- dos amarram o colete salva-vidas em segundos. Pensei: “vai capotar, vai naufragar, impossível sair desta”. O co- mandante Murilo de um salto levanta e segura firme o leme, grita alto: “Todos sentados!” E vêm uma sucessão de jo- gadas bruscas, batidas duras e secas nas rochas do fundo, sacudidas tremendas, medonhas. E o valente barco, qual um cavalo indomado vai sacolejando em disparada cega pelas corredeiras e se acalma. Impaciente, o timoneiro fica de pé no estreito corredor, e com voz alta e segura, avisa: “pessoal, vamos atracar em Barra da Estiva, não é mais possível continuar!”.

Passada a fúria do rio, vêm a fúria dos céus. Dia difícil, com o guia Gilson orientando o “pego do rio”, o talvegue, que só os olhos experientes conseguem ver.  Foi assim que atingimos a fazenda Barra da Estiva.

É noite quando pisamos terra fi rme. Quem nos olha são assustados homens da fazenda segurando lamparinas, na es- curidão da margem. Ali quem mora é o fazendeiro Zarur, de viagem a Teresina, quem está na casa é o sr. Asdrúbal Borges Formiga, seu irmão. Vamos tropeçando na escuridão até a sede da fazenda, uma casa em estilo colonial piauiense, dedica- da à pecuária, tendo ao lado uma capela entre as palmeiras. 

O senhor Asdrúbal nos seus setenta anos, muito animado, convida a todos para passar a noite na fazenda. Nas gran- des salas, redes armadas e mesas largas com cadeiras e tamboretes. Uma a uma foram sendo acesas as lamparinas. É que só agora chegará a energia elétrica, que será ligada na próxima semana. 

Após os cumprimentos, fomos para o banho no igarapé, o Zeca segurando lamparinas sentado nas raízes do barran- co. Em destaque a Jane, digo Shirleane, que se agregou à expedição, não faltan- do Tarzans, e mesmo onças rondando ao largo, dizia o Zeca. Foi esta a parada mais pitoresca de toda a expedição, o banho à luz de lamparina no riacho com enchen- te, as gotas de chuva caindo forte nas ár- vores e em nossas cabeças, curiangos e corujas cruzando em vôos rasantes. 
 
Nada melhor do que um trago da branquinha Mangueira para abrir o apetite após um banho frio no igarapé. Enquanto não saía o jantar, fi camos na sala contando sobre o agitado dia aos so- lavancos nas “batedeiras”, e ouvindo os casos do senhor Asdrúbal, um político tradicional que já foi prefeito três vezes em Ribeiro.
Casa hospitaleira, as redes armadas na sala grande, num canto um grande monte de espigas de milho em palha. No outro canto, um armário pesado e alto com uma fi leira de xícaras em vários ta- manhos, bules e jarras em latão nas es- tantes. À luz da tremulante lamparina as peças brilhavam como prata. Ao lado um pote de barro de onde com um caneco de latão com alça comprida, se tirava água potável.
 
Pela enorme porta que dava à cozi- nha, vejo o crepitar do fogo e panelas a fumegar. Surge a senhora Maria de Jesus (pronunciam Jisuis), convidando para o jantar à luz de lamparina. Famintos de um dia, sentamos em torno da gran- de mesa de três tábuas corridas e nos servimos com um delicioso cardápio à moda Estiva: carne, arroz-maria-isabel e ovos fritos, o senhor Asdrúbal à cabecei- ra. Após o jantar sentamos em volta da mesa e nas redes, ouvindo histórias de rios, igarapés, onças e sertões até as onze da noite, já os galos cantando a primeira sinfonia, contadas pelo senhor Asdrúbal, dona Jesus e o Zeca. 
 
Noite bem dormida como nunca na folgada rede, e de manhã cedo mesa far- ta: tapioca, cuscuz de milho e de arroz, ovos fritos, bolo, leite, café preto, um le- gítimo café da manhã parnaibano. Uma casa hospitaleira! 
Barra