VIII - Série Expedição Américo Vespúcio - 10

O povo Xacriabá e os Indiozinhos

8 de junho de 2012

Lendas do Velho Chico e outras histórias

“Shãwã yuxibu enabu, shãwã yuxibu bikynã eskawanikiaki”, ou Vou contar para vocês como surgiu Shãwã Bake, a arara nova misteriosa. 

De “Shenipabu Miyui”, de J. M. Kaxinauá. 

 


Geraldo Gentil Vieira  < geraldogvieira@gmail.com

 
Joaquim Maná Kaxinauá, diz em “Huni Küine Miyie” (História do Povo Verdadeiro), que “Os índios tem conhecimento da natureza que o branco não tem; aportam uma tradição, um respeito da natureza (da mãe Terra), uma medicina e uma música próprias”. 
 Na bacia mineira do São Francisco, indígenas vêm resgatando seus valores nos municípios de Martinho Campos e Pompéu, onde a comunidade Caxixó, localizada às margens do rio Pará, luta pelo reconhecimento étnico oficial. Um grupo pataxó vive no município de Itapecerica na Aldeia Muã Mimatxi. A chegada dos pataxó em Minas ocorreu devido à ação violenta da polícia baiana atendendo a decisões judiciais a favor de fazendeiros que desarticularam as aldeias, dispersando o povo Pataxó, como forma de promover a “ocupação civilizada” na região de Porto Seguro.
Lendo o trabalho de Macaé Maria Evaristo dos Santos “Práticas instituintes de gestão das escolas Xacriabá”, encontrei esta bela lenda “sobre encantamento e desconfiança”, dessa nação indígena que vive nas margens dos rios Itacarambi e Peruaçu, afluentes do São Francisco, cultivando suas lavouras irrigadas em meio às mais belas cavernas do mundo:
ERA UMA VEZ… Uma índia e seu irmão saíram para o mato dizendo que iam caçar. Chegando no mato a fome apertou e eles resolveram, então, fazer um encanto pra não morrer de fome. A índia combinou com o irmão que iria transformar-se numa onça para matar algumas reses na fazenda vizinha. Antes de partir, entregou ao irmão três folhas para que ele colocasse em sua boca quando retornasse, o que lhe permitiria voltar à forma humana. 
E assim, ela partiu para cumprir o combinado. Tendo matado as reses, ela voltou correndo, querendo as folhas na boca para quebrar o encantamento. Entretanto seu irmão não lhe reconheceu e ao ver aquela criatura correu em disparada. Foi assim que a índia cabocla ficou encantada para toda a vida e vive até hoje, invisível, protegendo os Xacriabá.
Na Expedição Américo Vespúcio em 2001, divisei da proa o morro de Itapiraçaba, “pedra que salta e solta fogo” na voz indígena, a cerca de 12km de Januária. Esta cidade ribeirinha com belos casarões bem conservados seria batizada com aquele nome, mas homenageou a princesa Januária (ou foi uma bela escrava foragida, segundo as lendas?). Logo avistamos Itacarambi, que vêm antes de Manga.    
Visitamos as cavernas Pintada e a do Janelão, onde o pescador barbudo Lico Paiva vê índios pela primeira vez e tira o chapéu em homenagem a eles. Supersticioso, não entra nas cavernas, fica de fora conversando.
Em São João das Missões, que já pertenceu a Itacarambi, vivem os índios Xacriabá. Conheço a região de outros tempos, em levantamentos para a barragem hoje construída. Na caminhada que fizemos ao local, guiados por um índio xacriabá, este ao ver uma cobra estacou amedrontado e impediu que continuássemos pela mesma trilha sem olhar para trás. Segundo ele, a cobra “encanta”, e sendo assim, correríamos o risco de ficar parados e ela nos ofenderia. 
 
 
Os indiozinhos
 
Na ida Itacarambi acima,
E na volta Itacarambi abaixo,
O visionário e bom prefeito Vicente
Quase um missionário,
Lançava um punhado de balas aos pequenos xacriabá
Que corriam para abrir as porteiras 
(eram mais de 40 em 30 km de estrada)
E eles se engalfinhavam no chão poeirento…
O agradecimento,
Um largo sorriso no rosto ingênuo,
A mão direita posta firme estendida frente ao peito,
E a respeitosa saudação “Bênção!”.
E o franzino e visionário prefeito,
“Deus te abençoe!”.
Assim em cada porteira,
Os indiozinhos pediam a bênção,
O prefeito os abençoava em nome de Deus,
Uma chuva de balas voava pelos ares,
E atrás delas como flexas 
Záz! os indiozinhos xacriabá.
 
 
POSSE DA TERRA
Foi árdua a luta dos bravos xacriabá para a demarcação do seu território, e do prefeito para construir a barragem. Poucos anos após, ele perde a vida em acidente automobilístico nas traiçoeiras estradas. Meu tributo ao grande prefeito e aos inúmeros índios que perderam a vida na luta pela posse da terra que já era deles. 
Em 2007, um forte tremor de terra destruiu uma aldeia, ceifando a vida de uma criança xacriabá, a única morte já registrada no país por terremotos.
Depois desta pioneira visita que deu origem a um programa de perenização de pequenos rios da Codevasf, o geólogo Aristóteles Mello e eu, fizéramos as primeiras prospecções no eixo da futura barragem. 
Lembro dele fazendo testes de geofísica batendo numa chapa de ferro com uma pesada marreta, que num certo momento o fez cambalear. Rolamos de tanto rir, enquanto ele saía resmungando e limpando as roupas. Aqui também o engenheiro agrônomo Luciano Cordoval deu os primeiros passos (e em Canabrava) do hoje consagrado programa “Barraginhas”, da Embrapa. Batizamos aquelas barragens de paliçada e turfa de “barragens de castores”. Já que citei nomes, onde anda o velho amigo angolano-português José Luiz A. T. Costa? 
 
Cavernas do Peruaçu
Terra abençoada esta: o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, contíguo à Reserva Indígena do grande povo Xacriabá, um dos raros povos da floresta com área demarcada em Minas Gerais, que do alto da barragem do Itacarambi avistam suas terras irrigadas. 
Aqui digo que a matança dos índios brasileiros ontem e hoje é uma das páginas mais abomináveis da nossa história. Ainda hoje não damos valor ao vasto conhecimento que eles detém em biodiversidade, cultura e tudo o mais como povos que são.