Série Expedição Américo Vespúcio - 10

LENDAS DO VELHO CHICO

22 de novembro de 2012

As índias velhas e os fantasmas de Guaicuí

 

Geraldo Gentil Vieira; 
geraldogvieira@gmail.com
 
Os índios chamavam o rio de “Guiaxim” e, por corruptela, Guaicuí, nome encontrado em velhos mapas. Em tupi-guarani quer dizer “rio da velha” 
(no singular). 
 
A igreja de pedras inacabada do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Barra do Guaicuí, ainda tem parte do telhado da época. Aqui os santos não mais residem, mas sim fantasmas de bandeirantes e revoadas de morcegos. Guaicuí está a cavaleiro na confluência de dois grandes rios, o Velhas e o São Francisco. Richard Burton foi um famoso viajante inglês descobridor das nascentes do Nilo; na verdade nunca lá pisou, estava preso por tribos enquanto seu colega John Speke lá chegava. Ele fez uma inédita descida no rio São Francisco desde Sabará no rio das Velhas até a foz em 1867 em um ajoujo. Enquanto da sua saga africana surge o filme “As montanhas da lua”, a saga brasileira continua inédita nas telas.
Na Sabarabuçu dos indígenas, no alto rio das Velhas, Fernão Dias fundou o arraial do Sumidouro. A bandeira prosseguiu para norte onde Fernão Dias fundou Itacambira, onde encontrou supostas esmeraldas, na verdade turmalinas. Explorou durante sete anos o desabitado sertão, iniciando o povoamento de Minas Gerais. Em Sumidouro seu filho bastardo rebelou-se. Fernão então justiçou o próprio filho enforcando-o. As lendas dizem que seus corpos estão enterrados em Guaicuí, onde suas almas perambulam nas noites pela vila que jamais cresceu. Tudo isto narrado em sete minutos pelo guia-mirim guaicuiense. Voltando ao polêmico Burton, ele narra em seu vibrante livro de viagem “Do Rio de Janeiro a Morro Velho”, que o rio das Velhas deve seu nome, segundo a tradição local,
“… às três índias velhas que o bandeirante Bartolomeu Bueno, o “Diabo Velho”, encontrou acocoradas à margem do rio, quando, em 1701, o atingiu em Sabará. A etimologia é muitas vezes incerta. Os índios chamavam o rio de “Guiaxim” e, por corruptela, Guaicuí, nome encontrado em velhos mapas. Em tupi-guarani quer dizer “rio da velha” (no singular), e provavelmente, os primeiros exploradores fizeram confusão, traduzindo-a no plural, e seus descendentes se encarregaram de inventar a história, agora clássica, das três velhas. O termo é aparentemente uma aglutinação de “goiamin”, velha, “cunhã”, mulher, e “ig”, água. Deriva talvez de “cacuau-ig”, que teria a mesma significação. Ives D’Evreux dá as seis idades da humanidade: peeitan, criancinha; konguantinmirym, criança; konguantin, adolescente; konguanmoukou, moça; konganmoukoupoire, mulher, e finalmente ouainuy, velha”. 
“Para o homem especificamente, peitan é criancinha de colo; kounomy-mirim, criança; kounomy, adolescente; kounomy-ouassou, homem; ava (aba), homem de meia idade; thouyaue, velho” (Burton, 2001). 
Richard Burton, o bigodudo, polêmico e espirituoso Marco Polo inglês, que soube traçar o caráter do rio das Velhas, do São Francisco e da sua gente melhor que ninguém, define assim o perfil de um remeiro ou remador sãofranciscano:
“Nunca trabalhava sem estar ‘tocado’ pela bebida, e eu não confiava nele quando inteiramente sóbrio; era vagaroso em excesso e levava cinco minutos para vestir o casaco e enfiar os velhos chinelos. No entanto, foi o único piloto de verdade que vi no rio; conhecia perfeitamente o ofício, fazia questão de ser o mestre a bordo e manejava um remo difícil com a unção de um remador de Oxford – no meu tempo. Sem dúvida, M. C. [Manuel Cipriano] não era uma perfeição, mas era intrépido e leal. Logo aprendemos a confiar em sua coragem, força e precisão. Havia algo mais interessante mesmo que a beleza, em seu olhar, refletindo o perigo, quando, manejando o remo como a nadadeira de um monstruoso peixe e firmemente plantado na canoa de popa da balouçante e sacolejante embarcação [seu ajoujo “Elisa”], ele se curvava de leve para a frente, olhava, fixa e tensamente, o sombrio paredão para o qual estávamos sendo arrastados a uma velocidade de vinte nós por hora e, graças a alguns engenhosos toques no leme, no momento exato, fazia a proa curvar-se, quase raspando no rochedo”.
O ajoujo vem dos pioneiros anos da colônia e durou até a chegada, primeiro da barca, depois do vapor, subindo e descendo o rio no transporte de gente e carga, atendendo as humildes comunidades com sua lenta regularidade. A rude embarcação é uma paliçada amarrada com cipós, embiras e couros sobre canoas indígenas ou comuns. 
A barca vem da rica tradição portuguesa na construção de embarcações, desde meados de 1750. Nelas se transportava para as feiras e fazendas produtos como rapadura, farinha, cachaça, fumo de rolo, querosene, carne e peixe secos, milho, feijão, arroz, frutas, verduras, ervas medicinais, borracha de mangaba do oeste baiano, cera de carnaúba, madeira, tecidos, cerâmicas, cartas, bilhetes e recados de todo dia, enfim, coisas que retratam a pujança de um rio.
Atracamos neste pitoresco sítio histórico em novembro de 2001, para fotos e caminhada à sombra de frondosas árvores. O pescador Lico Paiva colheu um saco de mangas, que distribuiu entre os expedicionários, para um longo dia de viagem até Januária, com breve parada em Ibiaí para abastecimento da barca. 
Antes de zarpar visitamos uma plantação de uvas aqui perto, onde morei nos anos 80, e sendo assim contarei uma lenda sobre essa velha cultura, que li no livro “Os possessos”, de uma americana que escreve sobre autores russos e orientais:
“Uma princesa usbeque estava grávida, e passeando pelo mercado, roubou duas uvas e comeu-as. O bebê na sua barriga deu um chute e gritou: ‘Devolva o valor dessas duas uvas senão eu vou sair desta casa!’. Por causa do forte efeito que as uvas causaram no caráter da criança, ela recebeu o nome de Mashrab, ‘o bebedor de vinho’. O menino cresceu preocupado com a injustiça, doava suas roupas, e aos três anos podia dizer olhando para os sapatos de um homem se ele iria para o céu ou para o inferno; derviche sufi, girava horas sobre si mesmo e um dia defecou no trono do rei em frente às odaliscas…”.