Desenvolvimento e sustentabilidade

Uma agenda global para mudança

25 de novembro de 2005

Gro Bruntland continua sua pregação por um desenvolvimento sustentado na teoria e na prática.

 Bruntland considera que os princípios do desenvolvimento sustentável são aplicáveis em  sociedades ricas e pobres.


O documento,
18 anos depois
O relatório “Nosso Futuro comum” provocou um grande impacto nas economias, na política e nas ciências. Gerou um “aquecimento” do conjunto da sociedade – ONGs, governos e empresas – que desaguaram cinco anos depois na Conferência do Rio de Janeiro. Pela primeira vez biodiversidade e clima foram colocados na mesma mesa. Uma frustração: não foi possível canalizar para o meio ambiente os recursos investidos em guerras. Apesar do impacto inicial, Bruntland acredita que o ritmo de adoção do conceito de desenvolvimento sustentável está muito mais lento do que se imaginava.


Desenvolvimento sustentável
Bruntland afirmou que o conceito é conhecido, mas que parece ser difícil que cada um compreenda e faça a sua parte. Na maioria das vezes, o comportamento de empresas, governos e indivíduos é olhar os outros para ver o que vão fazer, ou pior ainda, esperar que os outros façam o que ele mesmo deveria fazer. Muitas empresas vêm trabalhando com isso, entendem o compromisso de maneira pelo menos superficial e suas ações lideram o processo de mudanças, e isto é desejável. Gro Bruntland ressaltou que a base para as mudanças é o investimento na educação e em mudanças de comportamento de consumo e estilo de vida.


O papel das nações
Segundo Bruntland, o mundo ainda é dominado por Nações-Estado. Ela acredita que acordos entre nações podem ajudar e, em certos casos, até serem mais importantes que acordos mediados por agências multilateriais. Isso porque a ONU não tem poder sobre países – é apenas um organismo colaborativo. E é bom lembrar que ela sabe o que diz, porque, além de presidir a Comissão de Meio Ambiente, Bruntland foi também diretora-geral da Organização Mundial da Saúde entre 1998 e 2002. “Há 50 anos o mundo era pior e em 50 anos o mundo será ainda melhor do que hoje”, garante ela. Apesar de estar em um evento organizado pela Câmara Americana, não poupou críticas à postura dos Estados Unidos por não ter assinado o Protocolo de Kioto.


O Brasil precisa incentivar quem preserva
Bruntland considera que a teoria está disponível e o caminho prático será adotado pelo formato e dimensões das “regras do jogo”, que variam de um lugar para outro. Para o Brasil, Bruntland acredita que é necessário desenvolver leis e impostos mais justos, incentivar práticas adequadas, descentralizar investimentos e redistribuir decisões, porque, segundo ela, é difícil ser sustentável e ninguém vai fazer isto sozinho. Deu como exemplo positivo, a matriz energética brasileira e nossos combustíveis alternativos ao petróleo.


Pobres X Ricos
Bruntland considera que os princípios do desenvolvimento sustentável são aplicáveis em qualquer lugar, em países ricos ou pobres, porque, na verdade, as sociedades têm o direito de exigir melhores práticas de seus dirigentes. Não aceita que se diga que países pobres teriam, em tese, problemas mais urgentes para resolver, e com isso maiores dificuldades para implantar o modelo.
Um exemplo: a recente premiação da ativista do Kenya , bióloga Wangari Maathal, com o Prêmio Nobel da Paz. Maathal é uma pessoa pobre que mora num país pobre, mas assim mesmo ela conseguiu mobilizar milhares de pessoas para programas de reflorestamento. Com isto chamou a  atenção do mundo inteiro para um esforço da sociedade civil.


Quebra de patentes
Após ter feito elogios à política brasileira de combate à AIDS, que segundo ela, é um exemplo mundial, Bruntland foi confrontada com o fato de que este sucesso se deve, em parte, ao acesso a remédios que tiveram sua patente quebrada. Formalmente ela não apoiou a quebra de patentes industriais, lembrando que não se trata apenas de socializar ou não um conhecimento privado, mas também de se avaliar as condições de utilizar esta patente.
Paradoxo do crescimento
Bruntland também considerou que países em desenvolvimento com grandes mercados como Brasil, China e India, que não necessitam (pelas regras atuais do Protocolo de Kioto) controlar suas emissões, deverão ser chamados a fazê-lo em breve. Segundo Bruntland, em muitos países desenvolvidos a taxa de crescimento tem se estabilizado ou diminuído e em muitos países em desenvolvimento o que se tem visto é o contrário. O grande paradoxo é que, para crescer e eliminar a pobreza, países emergentes precisam vender seus produtos no mercado global, substituindo vendedores das economias desenvolvidas. Mas isto é perigoso, porque economias desenvolvidas são o motor global do planeta. Ou seja: como pedir para países mais ricos crescerem menos, se quando eles param de crescer o mundo também para? Nem a criadora do conceito de desenvolvimento sustentável teve resposta para esta grande questão.


rruschel@uol.com.br