Suplemento - Ecoturismo

Programa da Embratur mobiliza cidadãos para alavancar o turismo municipal

29 de abril de 2004

Vantagens do PNMT: aumento de arrecadação, mais emprego e melhoria da qualidade de vida

“O PNMT ensina o caminho das pedras. Ensina a pescar. A partir daí, quem se engajar no Programa, saberá onde obter verbas para
colocar em prática seu projeto turístico”
Anna Maria Marcondes Machado


 


Planejar o turismo para que seja uma atividade rentável e gere empregos não é uma tarefa fácil. Mais difícil ainda é planejá-lo num país com dimensões continentais como o Brasil, onde a quantidade imensurável de atrações naturais não basta para auxiliar na realização desta tarefa.
O Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT) do Instituto Brasileiro do Esporte e Turismo (Embratur), elaborado em 1994, com objetivo de facilitar a gestão do turismo no país, tem conseguido  aproximar-se de uma política ideal para o setor. Com mais de 1100 municípios engajados na proposta, o PNMT, através de seus multiplicadores, vem conscientizando a população de que  desenvolver o turismo não depende apenas do governo. E graças ao esforço da Embratur, os cidadãos tem compreendido a importância de se incluírem neste processo.
A fórmula do PNMT é simples. De acordo com os critérios adotados pelo programa, o município é considerado de interesse turístico se o poder público municipal, a sociedade civil e privada tiverem implantado o Fundo e o Conselho Municipal de Turismo e elaborado o Plano de Desenvolvimento Sustentável do Turismo. Dentre outros afazeres,   os cidadãos são incumbidos de identificar as potencialidades de sua região, como atrações históricas, naturais e culturais bem como, produtos e serviços e que eles próprios encontrem os meios de divulgá-los a fim de atrair turistas. O PNMT acompanha, orienta o processo e treina  monitores municipais. Efetivadas estas etapas e constatado que existe uma forte mobilização da sociedade para alavancar o turismo, o município é contemplado com a Roseta do PNMT.


A compensação
O trabalho é compensado mais tarde com a diminuição do índice de desemprego, aumento da arrecadação de impostos no município, bem como, a melhoria da qualidade de vida. As experiências bem-sucedidas vão servir de exemplo para outros municípios interessados em aderir ao programa.
A receita já despertou cidadãos e provou que dá certo. Hoje já se percebe a evolução do turismo em determinadas cidades brasileiras que, antes da chegada do PNMT, desconheciam o retorno significativo de planejar a atividade no local onde se mora. Com este novo modelo de pensar o turismo, o morador define e avalia a sua cidade e o que ela precisa para se tornar potência em matéria de turismo, seja a nível regional, nacional ou internacional.
A partir deste conceito, equipes de voluntários de municípios engajados têm ajudado a construir um novo paradigma para o turismo, sem perder de vista a sua sustentabilidade. Por exemplo: um empresário quer construir uma pousada; ele terá atitude muito mais digna de um cidadão, se ao decorar sua pousada utilizar artesanato local. Agindo assim, ele vai estar valorizando os produtos da sua terra. E em alguns casos  poderá indicar ao hóspede onde encontrar peças semelhantes, caso ele venha a se interessar pela decoração do ambiente. Por outro lado, vai constar nos “folders” das agências de turismo o nome da sua pousada.
Como numa brincadeira de corrente, a tendência é a de todos aproveitarem os resultados deste engajamento, principalmente o turista. Para isso, é necessário vários setores da economia contribuírem para alavancar o setor, que vão desde hotéis, pousadas, restaurantes, como também a infra estrutura local (rede hospitalar, meios de transporte, agências bancárias, operadoras de turismo etc.) até a conservação dos pontos turísticos e da  limpeza da cidade.


Mais informações:
PNMT: Tel (061) 326-3977; Fax 326-1767
www.embratur.gov.br
pnmt@embratur.gov.br


Turismo e sujeira não andam juntos


A maioria das cidades engajadas no programa tem uma preocupação comum: o combate ao lixo urbano e sua reciclagem. Das metrópoles como Belo Horizonte e Goiânia aos pequenos municípios no sertão nordestino, o lixo é considerado o inimigo número um do turismo. Diversas maneiras foram encontradas pelos municípios para dar um destino mais nobre aos seus resíduos domésticos e industriais. Enquanto em BH, grupos de teatro encenam peças educativas em cima do Ecomóvel e incentivam o uso de saquinhos de lixo pelos motoristas, na cidade de Brejo da Madre de Deus/PE, “seu” Severino construiu com sucatas uma usina de reciclagem e mobilizou a comunidade a trabalhar nela. Em Mallet/PR, as crianças aderiram a campanha de limpeza e em Goiânia, a indústria de reciclagem produz telhas ambientais para casas populares destinadas a famílias de baixa renda. Com a casa limpa, estas cidades passaram a receber mais turistas do que antes.
A coleta seletiva do lixo tem, inclusive, influenciado o comportamento dos turistas, os quais são desencorajados a sujar o ambiente que visitam. Como manter a qualidade do ambiente depende tanto do turista como da comunidade anfitriã, o programa tem como princípio básico a sustentabilidade do setor. Inclui-se aí; também; a necessidade de manter o patrimônio cultural , como igrejas, museus, praças; sítios arqueológicos e atrações naturais, garantindo o atendimento às gerações futuras.
A sustentabilidade do turismo contempla também os aspectos econômicos e culturais. Se a atividade não permite o resgate da identidade cultural, ela está fora dos padrões aceitáveis pela Embratur. O desenvolvimento do turismo, de acordo o PNMT, deverá gerir novos postos de trabalho e tem que ser economicamente suficiente para manter-se. Estas avaliações são fundamentais para verificar erros e acertos estratégicos na implementação do programa.
Organizados, os municípios só têm a ganhar com o PNMT. Ao contrário de outros programas governamentais, não  é prioridade do PNMT o repasse verbas e sim  de conhecimentos e técnicas de planejamento que, segundo técnicos do programa, valem mais do que os recursos financeiros. “Nós ensinamos o caminho das pedras, a partir daí eles saberão como obter verbas para por em prática seus projetos”, finaliza Anna Maria Marcondes Machado, supervisora de projetos de descentralização.


Caio Carvalho: ecoturismo precisa fazer parte do desenvolvimento sustentável
Conhecimento da natureza e valorização das culturas ajudam criar consciência ambiental


O projeto de abertura dos parques nacionais aos turistas nacionais e estrangeiros é coerente com a Política Nacional do Ecoturismo  aprovada pelo Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.
No documento, resultante das atividades de um Grupo de Trabalho constituído por especialistas da Embratur e do Ministério do Meio Ambiente, o ecoturismo é definido como “um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas”.
Nesse sentido, conforme observa o presidente da Embratur, Caio Carvalho, o ecoturismo deve gerar benefícios econômicos, sociais e ambientais, tais como a diversificação da economia regional, através da indução do estabelecimento de micros e pequenos negócios; geração local de empregos; fixação da população no interior; melhoramento da infra-estrutura de transporte, comunicação e saneamento; criação de alternativas de arrecadação para os parques nacionais; diminuição do impacto sobre o patrimônio natural, cultural e no plano estético-paisagístico e melhoria nos equipamentos das áreas protegidas.
Mudança de mentalidade
Lembra o presidente da Embratur que o ecoturismo no Brasil ficou longos anos apenas na retórica, privilegiando-se uma visão meramente contemplativa dos recursos naturais, especialmente de reservas como os parques nacionais.
Hoje, no entanto, a visão é outra: de natureza quantitativa e qualitativa, que destaca a utilização econômica e a geração de emprego e renda. Lembra Caio que o interesse em torno dos parques nacionais não é apenas dos estrangeiros. Os brasileiros estão a cada dia se interessando em conhecê-los. No Pantanal, por exemplo – diz ele – o fluxo de turistas brasileiros já se iguala aos estrangeiros.
Caio apoia a iniciativa do Ibama, de abertura dos parques, e defende a participação de capitais estrangeiros na terceirização dos equipamentos e da administração dos serviços, lembrando a importância de atrair a tecnologia disponível no mundo a respeito da matéria, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.


Corredor de Ecoturismo
É contudo, crucial, segundo a visão do presidente da Embratur, a criação de mão-de-obra especializada tanto para gerenciar esses serviços como para atender aos turistas, muitos deles interessados em aspectos particulares da fauna, da flora e dos demais recursos naturais dos parques.
Nesse sentido, Caio destacou a realização pela Embratur, em conjunto com o Ibama e várias ONGs, de pelo menos 40 oficinas que resultaram na formação de 970 profissionais prontos para operarem os parques.
O mais importante dessas oficinas, que são workshops com a duração de uma semana,  nos quais se discute todos os aspectos da administração e gerenciamento de parques e outras reservas naturais, foi uma correta avaliação do impacto do ecoturista no ecossistema, e a decisão de integrar a população local na responsabilidade de explorar os parques.
Conforme o presidente da Embratur, um passo importante para a ampliação do ecoturismo, sobretudo a nível de turista nacional, é criar um Corredor de Ecoturismo, a exemplo do existente para o turista estrangeiro, que adquire no exterior um pacote a custo baixo que lhe dá direito de percorrer o país, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, visitando os pontos de seu interesse.
Ele imagina um pacote cobrindo todos os parques nacionais, localizados nas diversas regiões do país, no qual o turista brasileiro poderia deslocar-se por via aérea e hospedar-se em hotéis adequados, pagando um preço acessível para a classe média, a exemplo do que ocorre com os países industrializados.


Os 13 parque que serão abertos aos turistas


1 – Parque Nacional do Iguaçu
2 – Parque Nacional das Sete Cidades
3 – Parque Nacional da Serra da Capivara
4 – Parque Nacional de Ubajara
5 – Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
6 – Parque Nacional de Monte Pascoal
7 – Parque Nacional de Abrolhos
8 – Parque Nacional do Jaú
9 – Parque Nacional do Araguaia
10 – Parque Nacional da Chapada dos Guimarães
11 – Parque Nacional de Brasília
12 – Parque Nacional do Caparaó
13 – Parque Nacional da Tijuca


 


O turismo nos
Parques Nacionais


Para o presidente da Embratur, Caio Carvalho, todo mundo observa hoje a possibilidade que tem um Parque Nacional de alavancar a economia da região onde está inserido. “Veja os exemplos expressivos que ocorrem nos Estados Unidos e em países da África. Veja também a experiência de Costa Rica, cuja economia está alicerçada principalmente na atividade turística desenvolvida a partir de seus Parques Nacionais e demais áreas protegidas”. O Brasil também caminha nesta direção e está bem perto de se tornar o mais novo país do rol daqueles que souberam tirar o melhor proveito da relação entre o crescimento econômico e preservação ambiental. Isso se deve a nova visão com que o governo e iniciativa privada passaram a enxergar nossos Parques Nacionais.
Explica o presidente da Embratur que o Governo Federal, através da Embratur e do Ibama, e o setor privado, por intermédio da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav), celebraram o Protocolo de Intenções destinado a impulsionar o turismo nos Parques Nacionais brasileiros.
A cada um desses agentes ficou delegado um conjunto de atribuições que, embora restrito aos limites das respectivas áreas de atuação, será posto em prática de forma integrada, propiciando em cada meio as condições necessárias para o incremento do turismo em nossas Unidades de Conservação e nas comunidades que as acolhem.


Ponto de vista
Poder da municipalização


Prefeitos que só vêem progresso nas fábricas deveriam apostar mais no setor


Hélio Fraga *


A municipalização do turismo é questão de urgência. O Brasil não pode pensar só nos grandes destinos do Sudeste, do Sul e do Nordeste. O País tem mais de 1,6 mil municípios com potencial turístico, bastando apenas encontrar formas de aproveitar essa riqueza oculta.
O Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), da Embratur, é o caminho mais viável e seguro. Por meio dele, são formados agentes encarregados de disseminar informações, diferentes conceitos, novas maneiras de agir.
O papel desses agentes multiplicadores é quase missionário. Eles partem da estaca zero e tornam-se verdadeiros apóstolos da nobre causa do turismo. São voluntários entusiasmados, que fazem aquele trabalho quase anônimo que engrandece as pessoas, mas jamais estará sob os holofotes dos palanques.
Não é fácil abrir a cabeça de uma comunidade para o turismo. Temos dezenas de produtos turísticos tratados com descaso e má vontade. Os prefeitos e vereadores ainda consideram que fábricas são sinônimo de empregos e progresso, mesmo trazendo poluição, resíduos tóxicos e contaminação dos rios. Não raciocinam que o turismo é capaz de produzir muito mais riquezas.
Sabemos o que o turista não admite: sujeira das cidades, insegurança, sinalização incorreta, desorganização, exploração nos preços, propaganda enganosa. Como aquelas histórias do hotel de praia a cinco quadras da orla, do hotel-fazenda que não chega a ser hotel, muito menos fazenda, do passeio a cavalo num jegue velho.
A comunidade precisa entender que o turista vai julgar o conjunto, do frentista do posto ao garçom da pizzaria.
Em vez do antigo binômio samba-futebol e do marketing errado mais recente, que é a erotização dos destinos, podemos enveredar por caminhos diferentes, como turismo de aventura, viagens para a terceira idade, turismo esportivo, e explorar tudo aquilo que os municípios oferecem – o folclore, a comida típica, o artesanato, a cachaça, as festas religiosas, os concursos de bandas, os festivais de música.
Instalações bonitas não são suficientes. Beleza natural por si só não basta – é preciso que o produto turístico esteja bem cuidado e todos na cidade prestem um serviço de primeira, sem falhas ou furos. Satisfeito, o turista voltará. Se nada deu certo, ele jamais porá os pés ali de novo.
Por isso, os agentes multiplicadores abrem os olhos das comunidades com importante apoio de parceiros como Sebrae e Senac – para uma realidade nova. Nós podemos sair da recessão, do desemprego e da estagnação, passando para uma situação de prosperidade. O turismo é o caminho. O único à nossa frente.


* Hélio Fraga é jornalista, escritor e consultor em treinamento gerencial.


O Desafio da Sustentabilidade no Turismo Brasileiro


O atrativo
no turismo
sustentável necessita ser assumido como um capital, que se destruído, inviabiliza o negócio.
A praia da moda de um ano, paraíso dos especuladores imobiliários, se transforma numa latrina, à céu aberto, no ano seguinte


Eduardo Martins *


Um indicador da dinâmica de um assunto é a sua situação na Internet. Na WEB a palavra “ecoturismo” oferece cerca de 15.000 referências no Brasil, tem de tudo,  oferta de cursos, experiências bem sucedidas, pacotes, pesquisas, programas, oferta de serviços.
Outro indicador importante são os investimentos públicos. No Nordeste temos o PRODETUR, em fase de conclusão; na Amazônia o PROECOTUR, em negociação;  o BID-Pantanal já assegurado; e o PRODETUR-Sul em início de desenho. Somados são mais de US$ 1 bilhão de investimentos, somente de origem multilateral.
O mercado também sinaliza positivamente. Embalado pela desvalorização do Real, as estimativas são de crescimento do turismo,  que variam de 15 a 30%.
No entanto, apesar de todos estes sinais positivos, o nosso turismo está longe de ser apropriado ambientalmente. O desafio da sustentabilidade na atividade do turismo consumirá um grande esforço de convergência de governos, setor privado e sociedade. 
A primeira e, talvez, a mais urgente providência é proteger e cuidar da integridade dos nossos atrativos. O atrativo no turismo sustentável necessita ser assumido como um capital, que se destruído, inviabiliza o negócio. Exemplo clássico disto é o destroçamento da nossa costa. A praia da moda de um ano, paraíso dos especuladores imobiliários, se transforma numa latrina, à céu aberto, no ano seguinte. Os exemplos do Guarujá, Praia do Francês (AL) e tantos outros são as expressões nauseantes deste processo. 
A segunda é convencer os fornecedores de serviços e os gestores públicos, que a oferta de bons produtos de turismo sustentável, depende da convergência de ação de governos e mentalidade competitiva do setor privado. O que se vende no turismo é um produto complexo, que encontra estabilidade, quando a maior parte dos problemas básicos já estão resolvidos.
Sem estes esforços, possíveis de serem construídos com os meios disponíveis, a sustentabilidade do nosso turismo será tão efêmera quanto o iluminado verão brasileiro.


* Eduardo Martins
Ex-Presidente do Ibama, Pesquisador do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB e Consultor


Economia do turismo


O Brasil apesar “de bonito por natureza e abençoado por Deus”, ainda morde uma pequena fatia do mercado mundial de turismo


O turismo é o segmento mais dinâmico da economia mundial. Só ele movimenta por ano 3 trilhões de dólares e gera 655 milhões em impostos. São mais de 50 ramos de atividades ligadas ao setor e no mundo, ele emprega hoje 260 milhões de pessoas.
São números astronômicos que o Brasil, apesar de “bonito por natureza e abençoado por Deus”, morde uma pequena fatia deste mercado em relação a países com menos recursos naturais e pouca  diversidade cultural.
Quase duas mil cidades com vocação turística não foram suficientes para se ter um turismo forte no Brasil. Nossos vizinhos, a Argentina e o Uruguai, recebem mais turistas do que aqui. Mesmo amparado em belas paisagens, um sol presente em todo  país mais de oito meses por ano e um povo hospitaleiro, o Brasil não conseguiu ainda ultrapassar seus vizinhos menos favorecidos pela natureza.
O problema é driblar a dificuldade de administrar de Brasília todos os segmentos envolvidos com o setor. Pensando nisso, o  PNMT trouxe à tona um impasse que há muito tempo estagnava a indústria do turismo: de quem é a responsabilidade de geri-la? A partir desta pergunta surgiram outras: Por que me sentir responsável pela gerência do setor? E mais outras como: O que ganharei com isso?  Foi respondendo a estas questões e discutindo com a comunidade que o PNMT consegui a adesão de milhares de brasileiros. Mais de 100 mil pessoas entre voluntários e não-voluntários cumprem seu papel de cidadãos do turismo e trabalham hoje no programa, entre elas, donas-de-casa, crianças, idosos, trabalhadores rurais, professores, políticos e empresários que vêem no turismo a solução de parte dos problemas do seu município.


O encanto da montanha


Márcia Turcato


O alpinismo, ou montanhismo, é uma das atividades esportivas mais antigas praticadas pelo homem; bem mais antiga que a navegação, responsável pelos grandes descobrimentos. Antes mesmo de ser classificado como modalidade de esporte, o montanhismo era exercitado pelos nômades em deslocamento e isso desde a pré-história.
As populações precisavam viajar em busca de alimentos, nas diferentes épocas do ano e, muitas vezes, havia uma montanha no caminho a ser transposta. Por tanto, as técnicas de escalada e os equipamentos utilizados para tal foram se aprimorando ao longo dos tempos.
Escalar com estilo, técnica e segurança exige treinamento, aperfeiçoamento constante, renúncia, humildade, solidariedade e fé. Muito além de ser encarado apenas como um esporte, o montanhismo é uma comunhão com a natureza e um constante aprendizado.
Ao longo dos tempos, o homem não precisou mais se deslocar em busca de alimentos ou para fugir de inimigos. Mas esta vontade de ultrapassar obstáculos, de olhar o outro lado, continuou impressa em seu DNA. Talvez por esta razão, nas grandes cidades ou nas regiões planas, as montanhas tenham cedido a vez para a escalada em muros artificiais, paredes rochosas e prédios desativados. Há diferentes modalidades de escalada, explica o montanhista Cristiano Requião. São elas:


Boldrins
Os boldrins são pequenas pedras que oferecem lances de muita dificuldade. Alguns deles acabam famosos entre os montanhistas por exigirem muita técnica para serem transpostos, com lances de troca tipo mão-pé constantes.
O encanto dos boldrins está, justamente, no grau de dificuldade. No Distrito Federal, boldrins típicos podem ser encontrados no Morro da Pedreira, ou do Urubu, na região conhecida como Fercal, sempre repleta de escaladores. Uma de suas vias mais conhecidas recebeu o nome de Libélula, justamente por exigir do escalador manobras de muita elasticidade.


Campo-escola
São várias pedras aglutinadas das mais variadas formas, permitindo não apenas a prática do boldrin como também uma série de movimentos de escalada em lances diversificados, como chaminés, tetos, fissuras etc, como descidas de paredão e/ou subidas com nós autoblocantes. No Rio de Janeiro, tornou-se famoso o campo-escola de Cascadura, pela sua diversidade e espaço de treinamento. Atualmente, o campo-escola utilizado para treinamento é o do Grajaú, próximo ao Perdido do Andaraí.


Muros
Os muros de escalada podem ser de concreto, pranchas de madeira, de gelo ou de material sintético, como os normalmente utilizados em grandes competições na Europa e nos Estados Unidos, com diversos tipos de agarra ou até fendas artificiais, confeccionadas em resina com areia, fixadas por meio de parafusos em posições que sugerem lances naturais de escalada. Em São Paulo, há verdadeiras escaladas em prédios e viadutos, com vias de diferentes graus de dificuldade e com inclinação variada.


Competições
Os estados do Paraná e de São Paulo são os que mais incentivam a prática de competições de escalada, popularizando o montanhismo entre os jovens. Em Brasília, algumas academias têm muros de escalada e organizam competições.
No Rio de Janeiro, o Pão de Açúcar possui em seu topo um muro com grau de dificuldade variada, cenário de diversas competições, onde montanhistas e simpatizantes do esporte podem praticar.