LANGSDORFF: A EXPEDIÇÃO DE DUAS PÁTRIAS

25 de março de 2015

A serviço das ciências, a Expedição Langsdorff contou com os rublos do Tzar e os Réis do imperador

 

EXPEDIÇÃO LANGSDORFF – PARTE 16

O RESGATE DA ICONOGRAFIA

De São Paulo a Cuiabá: o testemunho da mais genial aventura científica e cultural em terras brasileiras

 
25 de Marco de 2012 MIGUEL FLORI – MIGUELFLORI@FOLHADOMEIO.COM.BR
 

 
 

 
A façanha da Expedição Langsdorff se deve muito à escolha de três artistas geniais e aventureiros. Georg Heinrich von Langsdorff mostrou ter um faro aguçado para a escolha de seus ilustradores, os verdadeiros “fotógrafos” da missão. Sai o extraordinário Rugendas e entram os não menos extraordinários Taunay e Florence. Mas o cônsul alemão-russo reclama da dificuldade em administrar seus espíritos livres: “Não entendo porque todo artista tem que ser temperamental, nervoso e displicente. Talvez por isso a maioria deles morra na miséria. Suas obras só são reconhecidas depois de sua morte e vão enriquecer os comerciantes de livros, quadros e antiquários, até mesmo de objetos da História Natural, pois estes sabem muito bem como valorizar esse material que um pobre colecionador, a duras penas, conseguiu reunir, muitas vezes correndo riscos e sacrificando a própria vida”.
 


“Não entendo porque todo artista tem que ser temperamental, nervoso e displicente. Talvez por isso a maioria deles morra na miséria. Suas obras só são reconhecidas depois de sua morte e vão enriquecer os comerciantes de livros, quadros e antiquários…”

 Professia de Langsdorff.

 

As ilustrações das paisagens foram reproduzidas nas edições anteriores, em 15 partes, para intercalar o relato da peregrinação dos expedicionários com os aspectos cenográficos testemunhados por eles. Os esboços de Florence sobre as transposições de cachoeiras, danças indígenas e outros acontecimentos circunstanciais, verdadeiro ‘storyboard’ da expedição, foram também reproduzidos ao longo da narrativa, como recurso para percepção da dinâmica dos acontecimentos. Uma coletânea de desenhos sobre a fauna, a flora e os aspectos humanos apresentados nestas últimas edições dedicadas à Expedição Langsdorff permite extrapolarmos a importância da iconografia completa, que tanto desgaste representou para o velho cônsul e seus comandados.

 
Duas falsas-corais ladeiam uma cobra-de-capim. Serpentes tranquilas que não merecem nossa aversão. Taunay,  Janeiro de 1826.
 
 
Cuíca (marsupial). Porto Feliz, 1826. Taunay.
 
 
Tucano (ramphastídeo) – Taunay
 
 
Maguari. Rio Tietê, julho de 1826. Florence.
 
Ave ciconiforme. Florence a confunde com o tuiuiú, outro ciconídeo. ‘Uma das maiores e mais vistosas aves aquáticas do Brasil. O maguari chega a atingir mais de um metro de altura. (…) Esse registro para o rio Tietê é mais um exemplo de uma avifauna paludícola, outrora rica e hoje desaparecida quase por completo de toda a região’. (Prof. Dante Martins Teixeira)
 
 
Socó-boi. Rio Tietê, julho de 1826. Florence.
 
Socó-boi. Rio Tietê, julho de 1826. Florence.
Ave ardeídea. ‘Os socós são verdadeiras garças e distinguem-se das cegonhas (ciconídeos) pela característica postura do pescoço, sempre encolhido e dobrado em ‘S’. Também no vôo se reconhecem facilmente, pois as garças e socós, como a maioria dos ardeídeos, voam com as pernas esticadas pra trás e com a longa cabeça tão recurvada que quase repousa sobre o dorso, o que bem as distingue dos patos, cegonhas e maçaricos, que alongam o comprido pescoço para frente durante o vôo’. (Eurico Santos)
‘Deve seu nome popular ao fato de possuir uma voz grossa e profunda que lembra um mugido ao longe’. (Prof. Dante)
 
 
 
 
Quero-quero (Ave caradriiforme).
Em março de 1826, no caminho de Sorocaba a Castro. Taunay. ‘Uma das espécies mais populares da avifauna nacional, o quero-quero chama a atenção por sua fortíssima voz onomatopaica, emitida como alarme ante a aproximação de qualquer intruso. Ostenta um esporão avermelhado no encontro de cada asa, que é utilizado para ameaçar e bater em rivais ou predadores que se aproximem do seu ninho ou filhotes’. (Prof. Dante Martins Teixeira)
No Uruguai e na Argentina, recebe o nome de tero-tero. ‘No Chile existe uma variedade, lá conhecida por queltegue cujos ovos são apreciados e fáceis de obter, porque a fêmea é a própria a denunciar o ninho, por excesso de zelo, volteando em redor dele e lançando gritos que bem demonstram o seu amor pela futura prole. Compare-se o hábito do nosso precavido quero-quero, que só levanta o vôo longe do ninho, com o desse seu primo, que logo denuncia a ninhada. Em certas regiões do Brasil dão ao quero-quero o nome de espanta-boiada’. (Eurico Santos. Da Ema ao Beija-flor)
Os fazendeiros de antanho simpatizavam com sua presença denunciadora de intrusos. Em um texto poético, o escritor uruguaio Juan Zorrilha de San Martín (1855-1931) divaga: ‘Mas se vos aproximardes da passagem do rio, sair-vos-á certamente ao encontro o verdadeiro e simpático guardião das aves, a sentinela, o guarda, não de sua casa, mas da própria passagem, do riacho, do juncal, da terra: o tero-tero. É necessário que conheçais bem, com calma de artista, esse nosso valente tero-tero. É digno do mármore. Ele, de cauda curta, com suas largas patas e seu bico afilado e seu uniforme cinzento, de peito negro e branco e seu topete móbil, seu porte marcial e seu grito incessante, é ali a nota da cor e o motivo sinfônico predominante; ele vos vem ao encontro a largos passos, resoluto, provocador, insolente, fazendo rápidas reverências ou ameaças de investida, que por fim realiza, levantando-se com gritos desaforados e passando e revoluteando sobre vossas cabeças em linhas oblíquas, acode-lhe a companheira que ficou atrás e que grita com ele, pousa no solo abrindo as asas e antes de fechá-las de todo, tocando apenas a terra, volta a levantar-se repetindo aceleradamente seu toque de alarma; acorrem-lhe companheiros; duas ou três parelhas incorporam-se à primeira, junta a elas as ressonâncias dos clarins, a guerrilha aérea atroa o campo. Os outros pássaros estiram os pescoços e percebem, olhando com um olho para o lugar do perigo. O tero-tero é o guerrilheiro alado que dá o alarma ao intruso ou denuncia o homem escondido; tem a consciência do seu direito e a ilusão de sua força, baseado nas duplas puas rosadas de suas asas. Não é maior do que uma perdiz, e dá a impressão de uma fera; sê-lo-ia nos ares se fosse do tamanho de um condor, porque o tero-tero é ave heróica. Não foge da descarga mortífera, acode o companheiro ferido e morre sobre ele lançando seu anátema: tero!… tero! Com o olho injetado, brilhante como uma gota de tinta’.
 
 
 
 
A jararaca (Bothrops Moojeni).
‘Só veio a ser conhecida oficialmente da ciência 140 anos após ter sido vista por Florence, mais especificamente quando da construção de Brasília, de onde proveio o material em que foi baseada a descrição da espécie. É uma serpente peçonhenta, da família Viperidae’. (Prof. Ulysses Caramaschi)
 
 
 
Tapiti (lagomorfo),São João de Ipanema, 1826. Taunay. O português Gabriel Soares de Souza em seu ‘Tratado Descritivo do Brasil’ em 1587, assim se referia ao tapiti: “Em toda a parte dos matos da Bahia se criam coelhos como os de Espanha, mas não são tamanhos, a que os índios chamam tapotim, e todas as feições tem de coelho, senão o rabo, porque não o tem’. 
‘Os naturalistas, atendendo a certas características morfológicas e anatômicas, muito justamente provaram que tal espécie não é nem coelho nem lebre, sendo mais este que aquele, e foram mais longe, criando para ele a subordem dos lagomorfos e a família dos leporídeos. (…) Em Mato Grosso e também em São Paulo a gente matuta conhece esse pseudo-coelho pelo nome de candimba’. (Eurico Santos. Entre o Gambá e o Macaco).
 
 
 
 
Urubu-rei. Por Taunay.
Ave da família dos catartídeos. “São aves exclusivamente americanas e destinadas a desempenhar um papel importantíssimo no equilíbrio biológico deste continente. (…) Escrevem L. Travassos, C. Pinto e J. Muniz: ‘Com o hábito das caçadas nos campos, onde ficam abandonados muitos animais grandes, habituam-se a acompanhar as caravanas de caçadores. Um tiro é bastante para atraí-los em grande quantidade. Não se pode abandonar qualquer caça morta por pouco tempo que não seja estragada por uma multidão destas aves. Afirmam que não ataca o corpo da onça antes de retirar-se o couro, receando alguma cilada’. (…) O urubu-rei é parente próximo do condor, que habita os Andes. (…) Era corrente a história de que nenhum urubu tocava na carniça, sem que primeiro chegasse o urubu-rei, o qual somente comia os olhos, retirando-se após, com imponência realenga. Daí o título que recebia o majestoso necrófago, tido e havido como o rei dos urubus, entre a criançada e a gente crédula que, aliás, são crianças grandes. (…) Quando existe uma carniça, a turma logo percebe, pelo olfato, que há banquete e surge como por encanto. O urubu-rei, bem mais raro, também se mete no bando, democraticamente. Acontece, porém, que os demais urubus apreciam a carne perfeitamente decomposta, enquanto o pseudo-monarca gosta do pitéu apenas faisandé”. (Eurico Santos. Da Ema ao Beija-flor)
 
 
 
Saracura (ave gruiforme)
 
 
 
 
 
Anhumapoca. Rio Paraguai, dezembro de 1826. Florence. A anhumapoca é uma das aves mais comuns do pantanal mato-grossense. Também conhecida por tachã. Pertence à ordem dos anseriformes.
‘Martius diz que o tachã canta tão precisamente à meia noite, que pode servir de relógio. A denominação indígena “poca” parece significar o que soa, o que rompe o silêncio da noite. (…) Em matéria de fidelidade conjugal e harmonia entre cônjuges, essas aves dão lições a certa classe de bípedes implumes’. (Eurico Santos)
 
 
 
 
Salmo Dourado. Rio Tietê, julho de 1826. Florence.
‘Vista lateral do famoso dourado, representado pelo artista em toda sua beleza. É um Characidae de grande porte, muito apreciado na pesca esportiva. (…) Sua abundância no rio Tietê está fortemente ameaçada pelas sucessivas barragens ao longo do rio, que não permitem a realização do ciclo de vida natural da espécie’. (ProfªÉrica Pellegrini Caramaschi) O dourado é o piraju ou pirajuba, literalmente ‘peixe amarelo’, dos nossos indígenas. O historiador Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1958) foi diretor entre 1917 e 1939 do Museu Paulista, conhecido como Museu do Ipiranga. Afonso Taunay chamou o Tietê de “grande rio de São Paulo, tributário do Paraná, indestrutivelmente ligado à história da construção territorial do imenso Brasil ocidental”.
 
 
 
 
Traíra. São João de Ipanema, janeiro de 1826. Taunay.
 
“As traíras, peixes da família dos Caracídeos,  habitam águas calmas. Formam-se casais na época de reprodução e o macho toma conta do ninho até a eclosão dos ovos”. (Profª Érica Caramaschi)
Nos momentos iniciais da expedição, Taunay ainda tentava agradar o cônsul com ilustrações de peixes. Langsdorff era também ictiólogo e devia se entusiasmar com o resultado.
O nome vulgar deste peixe atesta a falta de limite da presunção humana. Deve-se à desconfiança causada pelo hábito de fingirem-se de mortos e tascarem dolorosa mordida com seus caninos desiguais no pescador desavisado. O pescador, que mascara o anzol com a isca enganadora, deve se achar o protótipo da virtude.
 
 
 
 
Tatu-aíva (tatu ‘ruim’ dos indígenas, pelo hábito de escarafunchar sepulturas). São João de Ipanema, fevereiro de 1826. Taunay. 
‘É um dos tatus mais fossoriais e quando ameaçado, enterra-se em pouco tempo, utilizando as enormes garras das patas dianteiras”. (Prof. Cristopher Tribe)
‘Preguiças, tamanduás e tatus são, na realidade, derrelitos de uma fauna gigantesca que foi escasseando à proporção que as condições mesológicas se iam mostrando adversas. (…) Os desdentados ou xenartros atuais tiveram mastodônticos representantes aqui na América. Hoje não passam de miniaturas, brinquedos’. (Eurico Santos. Entre o Gambá e o Macaco)
Os dasipodídeos, família a que pertencem, têm suas particularidades assinaladas popularmente: ‘Tatu é bicho manso, nunca mordeu ninguém. Inda que queira morder, tatu dentes não tem’. 
O pediatra Edgard Steffen, com a autoridade de quem estuda os segredos da reprodução, explica: ‘Nas fêmeas do gênero Dasypus, ocorre poliembrionia, processo em que a célula-ovo dá origem a vários indivíduos idênticos’. Mas o povaréu já conhecia o fenômeno, registrado nesses versinhos:  ‘O tatu mais o mulita, é a lei da criação. 
Sendo macho não pode ter irmã, 
sendo fêmea não pode ter irmão’.
Atentos ao conhecimento popular, os dicionários consignam para o plural da palavra: ‘Diz-se das irmãs que não têm irmão ou dos irmãos que não têm irmã’. Expressão quase em desuso,‘caçar um tatu’ era a fatídica queda no barro. Talvez pela escassez de barro nos dias de hoje. Ou de tatu! 
 
 
 
 
‘Cobra Cascavé. Population d’Albuquerque, Décembre, 1826’. Florence.
Cascavel, inocente palavra portuguesa que significava apenas ‘chocalho’, teve seu sentido ampliado e temido ao ser associado pelos antigos colonizadores à serpente chamada pelos índios de ‘boicininga’, isto é, ‘a cobra que faz barulho’. A pintora inglesa Marianne North (1830-1890) anotou ‘cascabela’ em seu diário, outra denominação que não ficaria mal para este animal de nome científico ‘Crotalus’ (chocalho ou guizo, em grego) ‘durissus’ (muito duro, em latim).
“O povo dá ainda à mulher de mau gênio o nome de ‘cascavel’ e a um indivíduo resistente o de ‘cascavel de quatro ventas’, ‘cascavel de rabo fino’ é o perverso, como ‘cascavel de vereda’, o traiçoeiro”. (Eurico Santos)
 
 
 
 
Jabuti (Diamantino, 1828). Por Florence.
Cágado, jabuti ou tartaruga? Os répteis que têm uma carapaça envolvente ao corpo pertencem à ordem dos Quelônios. O ‘jabuti’ retratado por Florenceé, na verdade, um cágado. O jabuti é terrestre, tem a carapaça bem alta e arredondada e as patas traseiras parecidas com miniaturas de patas de elefantes. A explicação mais simples e razoável para o nome indígena ‘jabuti’ é justamente ‘redondo’, em referência ao seu formato. O étimo está presente na palavra ‘jabuticaba’, algo como ‘um tanto de bolinhas redondas’, no falar dos nossos índios. O cágado possui carapaça mais achatada, vive por perto de rios e lagos e recolhe a cabeça lateralmente em sua proteção, ao contrário de seus outros aparentados. O que não for cágado nem jabuti é tartaruga. O biólogo Flávio Molina, da Fundação Zoológico de São Paulo, ensina:” A tartaruga-da-amazônia é, morfologicamente, um cágado chamado de tartaruga. Na região Norte, aliás, o termo tartaruga é aplicado apenas para essa espécie. Cada uma das outras espécies locais têm seu próprio nome, como tracajá, pitiú e iaçá”. Nossos índios não pouparam palavras para especificar os diferentes sexos ou fases de crescimento da também chamada tartaruga-do-Amazonas: jurará-açu e araú para as fêmeas; capitari ou capitaré para os machos; aiuçá para os jovens. 
 
 
 
Araticum (anonácea), o saputá ou bacupari  (Salacia sp) e o Tingui (Magonia pubescens). Ilustrações de Florence.
 
 
“Justicia, a duas léguas do rio Preto” e a flor do embiruçu. Florence.
 
À Direta ‘Singe du Pérou, dessiné à Cuyabá’. Agosto de 1827. Adrien Taunay. Macaco cebídeo, de nome popular caiarara. É aparentado com o macaco-prego brasileiro. ‘A presença desse macaco em Cuiabá provavelmente se deve a contatos comerciais entre o Peru amazônico e o Mato Grosso, pois sua área de ocorrência é o noroeste do continente e o extremo ocidental da bacia do Amazonas’. (Prof. Cristopher Tribe)
 
 
 
 
O sagüi, soim ou sauim. Macaco calitriquídeo. ‘Cuyabá, 17 de maio de 1827’. Adrien Taunay.
Leonardo da Vinci (1452-1519) já sabia das coisas: “Quando redigires um tratado dedicado à descrição dos animais quadrúpedes coloque entre eles o homem, que na primeira infância marcha com quatro patas”.
Macaco é palavra de origem africana. Mico, palavra caraíba. Sagui tem sua origem no tupi e símio é palavra latina que significa ‘nariz achatado’. 
 ‘Calitriquídeo’, o nome da família destes macacos, pode ser complicado, mas é de fácil e interessante explicação. Em grego, ‘cali’ é belo e ‘trix’, cabelo ou pelo. A expressão ‘por um triz’ tem a mesma origem e significa literalmente ‘por um fio de cabelo’.O mico-leão-dourado é o representante mais famoso da família.

 

 

Ronaldo Mota Sardenberg – ENTREVISTA

 

LANGSDORFF: A EXPEDIÇÃO  DE DUAS PÁTRIAS

A serviço das ciências, a Expedição Langsdorff contou com os rublos do Tzar e os Réis do imperador

Silvestre Gorgulho

silvestre@gorgulho.com 

 

Definir Ronaldo Mota Sardenberg como diplomata é pouco. É pouco para um embaixador de primeira grandeza que comandou postos brasileiros em Moscou, Madri e nas Nações Unidas, em Nova York. É pouco porque além da diplomacia, Ronaldo Sardenberg avançou e conquistou espaços para Pensar um Brasil maior a médio e longo prazo, na montagem de uma plataforma científica. Foi ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo Fernando Henrique Cardoso, responsável pelas políticas nuclear, espacial e de Mudanças Climáticas. Além do Projeto Sipam/Sivam, gerenciou os trabalhos sobre segurança das comunicações e de preparação de estudos estratégicos e cenários para o Projeto Brasil 2020 e o Programa Calha Norte. No segundo mandato de FHC, Sardenberg assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia, onde começou a montar estratégia para o desenvolvimento da pesquisa científica no país. Na sua gestão, o Brasil conquistou espaços importantes na ciência mundial, principalmente com o Projeto Genoma. E outros desafios foram lançados por Sardenberg quando, por exemplo, assumiu a presidência da Anatel.  Fez questão de fazer um chamamento a todas instituições que atuam no setor para reforçar a presença brasileira nas atividades centrais do panorama das telecomunicações e, assim, entrelaçar o progresso científico com progresso social, para adequá-los às especificidades brasileiras. Foi a sensibilidade diplomática, somada à acuidade e percepção cultural e estratégica que colocou o então embaixador em Moscou, Ronaldo Sardenberg, no meio de uma nova aventura: garimpar, redescobrir e repatriar a obra Langsdorff.

 


“A Expedição Langsdorff em si, por sua divulgação e seus estudos, teve , tem e terá um fortíssimo impacto cultural e científico não só no Brasil, mas também na Rússia e em todo o mundo. O acervo ajuda-nos  a compreender o nosso país e o mundo em que vivemos. O acervo é de  incomensurável riqueza e  amplitude”. 

Embaixador Ronaldo Sardenberg

 

 
 
Depois de um século esquecido no porão do Jardim Botânico de São Petersburgo (Leningrado) o precioso acervo de Langsdorff, Rugendas, Florence e Taunay volta ao Brasil com apoio do Itamarati.
 
 
 
Folha do Meio – Embaixador: porque a Exposição Langsdorff, uma das maiores do planeta, foi tão esquecida pelo Brasil?
Ronaldo Sardenberg – Na verdade, a Expedição havia sido esquecida na própria Rússia, que  é a detentora  do acervo. Foram os editores Leonel Kaz, Salvador Monteiro e o fotógrafo Claus Meyer, da Editora  Alumbramento, que me procuraram em Moscou com um projeto maravilhoso: publicar um livro de arte e realizar exposições de parte do acervo da Missão do Barão Georg Heinrich von Langsdorff, nas  capitais de diferentes Estados brasileiros. 
 
FMA – Isso foi quando?
Ronaldo – Foi em 1987. Eu era o Embaixador do Brasil junto ao Governo da União Soviética. A propósito, li e apreciei a recente entrevista  de Leonel Kaz  a esta  FMA, na qual ele presta uma valiosa contribuição à narrativa dos  esforços para  tornar o projeto realidade. 
 
FMA – Como foram as primeiras conversas com as autoridades russas?
Ronaldo – Compreendi de imediato que o projeto  de Kaz e Monteiro era de alto interesse cultural e histórico, pois envolvia a preciosa abertura dos arquivos relativos à Missão de Langsdorff. Entrei em contato com o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, aproveitando laços profissionais e de amizade que eu tinha com o então  Chanceler Eduardo Chevardnadze.
Além disso, organizei uma visita minha à Academia de Ciências em Leningrado (São Petersburgo), que abrigava todo o acervo da Missão. Conversei com diretores da Academia, inclusive o professor Boris Komissarov, a maior autoridade no assunto,  que teve papel  decisivo em sua tramitação. Posteriormente, Komissarov teve a gentileza de me presentear com um exemplar autografado do álbum que a Alumbramento  viria publicar. Leonel Kaz, Salvador Monteiro e Claus Meyer foram muito ativos e foram também recebidos na Academia de Ciências.
 
FMA – E como foram as primeiras conversas. Foi uma conversa fácil?
Ronaldo – Olha, foi uma conversa extremamente cordial. Desde o primeiro momento, todos se  convenceram do arrojo da iniciativa e da relevância do projeto para  a ciência  e para a cultura. A parte russa, como é natural, se interessou por questões práticas laterais, tais como as  relativas a  seguros, preservação e guarda das peças, bem assim com o compromisso de seu reembarque quando encerrada  sua presença  no  do Brasil. 
Essa  atitude mostrou que a Academia estava considerando séria  a proposta brasileira.
 
FMA – Qual foi seu impacto pessoal quando viu tanta preciosidade?
Ronaldo – Dizer que foi de entusiasmo é muito pouco. Longe de meu País, tendo contato com aquele acervo tão rico, tão completo e tão detalhista de um Brasil de 1800 foi assim, como dizer, de perder o fôlego. O envolvimento do Tzar era, em si, um fato extremamente significativo para sinalizar a importância da Missão. Como se sabe, o tzarismo era  um regime autoritário e de decisões centralizadas. Além disso, outras potências  europeias, como a Áustria (Spix e Von Martius), França, Inglaterra (Waterton) e Prússia já promoviam  estudos  sobre o novo mundo. E o Brasil era o novo mundo.
O francês Auguste de Saint  Hilaire viajou  com Langsdorff a Minas Gerais, em 1816. Já o famosíssimo naturalista prussiano Alexander  von Humboldt havia sido detido em Belém  e sua vasta coleção de espécies vegetais fora  confiscada pelas autoridades locais como contrabando ou, na linguagem de hoje, como pirataria genética, já que sua pesquisa não tinha autorização das autoridades luso-brasileiras.
 
FMA – Embaixador, coloque melhor o contexto político vivido pelo senhor em Moscou. A Rússia estava em plena Perestroika.
Ronaldo – Isso mesmo. Para o bom entendimento de minha atitude, é conveniente a gente reviver este contexto histórico.  Na época, por determinação minha, os trabalhos da Embaixada brasileira se concentravam nos campos político e comercial. 
No primeiro, buscávamos aproveitar um momento em que se lançavam as importantes mudanças introduzidas por Gorbachev, em termos das políticas da perestroika (construção) e da glassnost (transparência). 
Era também objetivo da Embaixada a dinamização do acesso dos produtos brasileiros ao mercado soviético, que, a rigor, se interessava por apenas dois produtos: café solúvel e suco de laranja. Em termos de relações bilaterais, a Embaixada tratava especialmente de construir o  caminho para a futura visita do então presidente José Sarney à Rússia. Era a primeira visita de um presidente brasileiro. A visita ocorreu no final de 1987. 
 
FMA – O senhor era embaixador no Governo José Sarney…
Ronaldo – Sim, e logo nos primeiros dias de seu mandato, o presidente Sarney me havia indicado que tinha o propósito de visitar a Rússia e abrir uma nova fronteira política, cultural e comercial. Neste sentido, ele apoiaria os esforços que eu pudesse empreender para obtê-lo. Do ponto de vista diplomático  o tema da Missão Langsdorff  vinha integrar um quadro  amplo de desenvolvimento das  relações com o Governo de Gorbatchev. Melhor do que isso, a altíssima qualidade e a importância dos trabalhos daquela  Expedição nos trazia um estímulo especial. Favorecia esta nossa aproximação.
 
 
 
Embaixador Ronaldo Sardenberg: “Meu primeiro contato com aquele acervo tão rico, tão completo e tão detalhista de um Brasil de 1800 foi assim, como dizer, de perder o fôlego”. 
 
 
 
FMA – Como o senhor avalia essa série de reportagens sobre Langsdorff?
Ronaldo – Iniciativa excelente. As reportagens complementam bem a divulgação da época, porque ela é abrangente e mostra muito bem a Expedição no Brasil e acompanhada por brasileiros. Salienta e mostra em profundidade o lado brasileiro, com detalhes interessantíssimos de uma expedição realmente extraordinária por suas dificuldades logísticas, amplitude do trabalho, duração e um empenho fantástico. Os relatórios minuciosos, a abrangência da  catalogação da flora e da  fauna brasileira, os relatos vastamente ilustrados  por artistas de primeira grandeza como Rugendas, Florence e Taunay “fotografando” tudo e todos, indígenas, negros, caboclos é realmente uma aventura épica. O trabalho merece reconhecimento e o jornal está de parabéns.
 
FMA – Há condições de ter esse acervo de relatórios e desenhos de Rugendas Taunay e Florence em duplicata no Brasil?
Ronaldo – É um novo projeto, por sinal muito interessante, mas não é barato. Tenho que salientar que a Missão Langsdorff foi conduzida com a anuência do governo brasileiro.  Tinha autorização de D. Pedro I e cooperação de José Bonifácio. É bom lembrar que o Barão de Von Langsdorff era um médico alemão, já tinha trabalhado em Portugal, portanto falava português. Pode ter nascido aí a ideia da expedição no Brasil. Mas Langsdorff se naturalizou russo com o nome de Grigorii Ivanovitch Langsdorff. Era amigo do Tzar Alexandre I que o nomeou Chefe do Consulado Geral da Rússia no Rio de Janeiro. O Tzar Alexandre I era entusiasta e o apoiador da Expedição.
 
FMA – E a duplicação do acervo?
Ronaldo – Sim, está aí um projeto interessante, mas a possível duplicação teria que ser  conduzida por meio de negociações diplomáticas diretamente com o governo russo. À primeira vista,  parece factível. A questão é como financiar uma operação nestes valores. Os custos que envolvem direitos, cópias, seguros e transporte são altos. 
 
FMA – Como diplomata, pai e gestor desta redescoberta do Brasil em território russo, como o senhor avalia a Expedição Langsdorff?
Ronaldo – Posso dizer que entre surpresas, deslumbramento, admiração e até emoção em ver o valiosíssimo acervo, sim ver os relatórios originais de Langsdorff, os desenhos originais de Rugendas, Florence e Taunay quase perdi mesmo o fôlego. E como diplomata, como brasileiro, gostaria que estas preciosidades estivessem aqui para que o Brasil de hoje conhecesse em detalhe o Brasil de 1800. 
Imagina que aquela Missão terminou em 1829 e o acervo permaneceu em mãos de diferentes órgãos russos e soviéticos. Sabe-se que apenas  em 1950,  a revista “O Cruzeiro” chegou a estampar  uma reportagem sobre o assunto, mas pouco mais se conhece sobre a questão. Era uma preciosidade longe de nossos olhos e, mesmo redescoberta em 1987, continua longe de nossos olhos, longe dos olhos de nossos professores, historiadores, cientistas e pesquisadores.
 
 
 
Sardenberg: “As reportagens da FMA complementam bem a divulgação da época, porque as matérias são abrangentes e mostram muito bem a Expedição no Brasil dentro da realidade brasileira”. 
 
 
FMA – Uma avaliação final.
Ronaldo – Olha, para mim foi um privilégio ter sido um instrumento desta redescoberta. Se, pessoalmente, tomei o avanço que obtivemos como um importante passo na questão da liberação do acesso ao acervo Langsdorff, como diplomata sei o que isto significa para a ciência, para a história e para as relações bilaterais entre Brasil e Rússia. Fico imaginando um acervo desse valor ser encontrado, em 1930, em perfeito estado de conservação, no porão do Jardim Botânico de Leningrado… é incrível.
A Expedição Langsdorff em si, por sua divulgação e seus estudos, teve , tem e terá um fortíssimo impacto cultural e científico não só no Brasil, mas também na Rússia e em todo o mundo. O acervo ajuda-nos  a compreender o nosso país e o mundo em que vivemos. O acervo é de  incomensurável riqueza e  amplitude. 
Olhando pelo retrovisor, fico muito feliz quando se reconhece o papel da Embaixada Brasileira  em Moscou no esforço para  concretizar  o assentimento  da  Academia de Ciências de São Petersburgo ao projeto de trazer ao Brasil de hoje tantos detalhes, nuances, particularidades culturais, científicas, geográficas e históricas de um Brasil da época do Império.
 
 
 
“O acervo ajuda-nos  a compreender nosso país e o mundo em que vivemos. O acervo é de  incomensurável riqueza e  amplitude.”
 
 
EXPEDIÇÃO LANGSDORFF – PARTE 17
Na próxima edição de abril – 261. Três pontos: 1) Um olhar mais apurado sobre o trabalho genial de Hercule Florence. 2) Histórias e causos bem brasileiros contados pelos viajantes. 3) Depoimento do embaixador Paulo de Tarso Flecha de Lima.