DE HERCULE A HÉRCULES – Parte 4

A FLORENCE, O QUE É DE FLORENCE

8 de abril de 2016

A César o que é de César e a Hercule Florence o que é deste artista genial

 

De bom humor, o historiador da ciência Boris Komissarov brinca ao ser entrevistado recentemente sobre a Expedição Langsdorff: "Na época, não existia fotografia e o papel do pintor era importante para o registro de tudo. Mas eles não eram pessoas ‘da ciência’, o que dificultava essa relação. Acho que Florence inventou a fotografia pensando na dificuldade que Langsdorff tinha com pintores”.

 

 

A PRIMEIRA PUBLICAÇÃO

A primeira publicação de Viagem Fluvial na Europa sairia somente em 1913, 34 anos após a morte de Florence, apresentada por seu sobrinho Philibert Florence, na revista de história do Principado de Mônaco. Em 2013, a editora ‘Lanterne Magique’ relançaria o ‘Voyage Fluvial du Tietê à l´Amazone Par les Provinces Brésiliennes de Saint-Paul, Mato Grosso et Grão Pará’, com ilustração de capa por Aimé-Adrien Taunay. À versão original de seu relato, Florence denominou Viagem ao interior do Brasil, feita pelo subscrito, na qualidade de Desenhista do Sr. Cavalheiro Langsdorff, Naturalista e Cônsul-Geral da Rússia no Brasil, Anos 1825-1826-1827-1828 e 1829’.

 

O jornalista francês William Luret se entusiasmou com a história do inventor solitário exilado em um país retrógrado e decidiu contar ao mundo detalhes da vida de Florence. A biografia de Florence escrita por Luret ainda não foi traduzida para o português. Luret, em entrevista durante a inauguração da Sala Hercule Florence no Théatre de La Photographie et de L’image, recorda: “Encontrei um dia no Nice-Matin, uma nota falando da instalação de um jovem músico alemão Michael Fahres. Ele havia criado uma espécie de tenda verde como a que Michel Redolfi chama ‘o canto dos pássaros’.

 

Este músico alemão a tinha chamado de instalação "Tributo a Hercule Florence". André Pereygne crítico de música do Nice-Matin e diretor do Conservatório comentou o evento, dizendo: "Hercules Florence, de Nice, é o inventor da zoofonia, ou seja, o vozes de transcrição de pássaros e da fotografia e participou de uma expedição naturalista na Amazônia na década de 1820". Tudo isso me intrigou muito. Então fui ver Jean-Pierre Giusto para contar a ele sobre esse personagem e conversar particularmente sobre a invenção da fotografia. Jean Pierre já conhecia Hercule Florence pelas obras de Boris Kossoy. Ele me emprestou seu livro em Português que tentei ler um pouco, mas não sei Português. Este personagem me interessou e decidi contar sua biografia.

 

Algum tempo depois, um milagre! Outro personagem entrou por acaso nesta história. Este é José Geraldo Motta Florence, que estava visitando Nice.

 

Decidi escrever esta história. Geraldo, a quem agradeço, entre todos os Florence que estão no Brasil, é um dos mais apaixonados por seu antepassado. Ele compilou e montou em sua casa tudo o que foi publicado sobre Hercules Florence”.

 

Através de José Geraldo, Luret tem acesso às anotações originais de Florence, Polidamente, manda um recado sobre a importância do documento e sugere sua guarda por alguma instituição oficial. “Então, eu tinha o meu parceiro extraordinário. Fui para o Brasil. Ele me levou por toda parte. Ele me levou para ver Boris Kossoy e Jacques Vielliard, que trabalhou na Zoofonia. Ele me apresentou a Tereza Cristina Florence, que possui o manuscrito de Hércules, 1.300 páginas, um enorme bloco de mão de Hércules escrito em francês. Eu sou um dos poucos, devo dizer com Boris Kossoy a ter visto e ter nas mãos o famoso manuscrito de Hercule Florence. Pode-se mencionar que está na posse de Tereza Cristina e está em muito mau estado. É absolutamente necessário fazer algo para protegê-lo, o papel rasga um pouco sob o efeito da tinta. Eu acho que é uma tarefa urgente recuperar este manuscrito, e restaurá-lo por segurança, e fazer microfilmes para que possamos realmente trabalhar nele”.

 

Busto de Hercule Florence em Campinas.

 

SEGREDOS REVELADOS

 

Luret descobre um segredo familiar durante suas pesquisas sobre a descendência de Florence: “Ele teve 20 filhos, o que explica a progênie de Florence no Brasil ser extremamente grande. Além disso, Hercules teve um filho ilegítimo durante a sua viagem para a Amazônia no norte do Brasil”.

 

Além de seus 17 filhos que sobreviveram até idade adulta, Florence, por segurança, assumiu um possível herdeiro que tivera durante a expedição. Procurado anos mais tarde pelo provável descendente, Florence teria reconhecido a paternidade. Na leitura de seu diário, a probabilidade maior de ter acontecido algum romance seria com Isabel, a beleza mato-grossense da fazenda nas cabeceiras do rio Paraguai. O único idílio anotado no dia 11 de dezembro de 1827, em trecho já publicado na reportagem sobre a expedição. (Ver edições anteriores)

 

Vale a pena recordar pela singeleza do relato emocionado: “Estava ausente o dono do sitio Campo dos Veados, mas isso não impediu sua mulher de receber-nos com toda a franqueza, simples e digna. Essa simplicidade rústica brindou-nos com o máximo de descanso. 
Aformoseiam este recanto matas de guaguaçus, a altiva e imponente palmeira, cujas folhas se volvem para o céu e não se curvam para a terra. 
Dir-se-á que Deus, às vezes, se compraz em estabelecer um concurso de harmonias que fazem sonhar com a felicidade. Este sítio, estas pradarias, este ar, estas palmeiras, as fontes do Paraguai, que nasce a um quarto de légua, e sintetizando todos os encantos a moça da casa, a mais bela jovem que vi até hoje. Que experiência de belezas, quanta elevação do pensamento!… 
No dia seguinte, depois do almoço, terminada a excursão que empreendera com o objetivo de desenhar uma nova planta, disso resultando o retardamento de minha refeição, fazia-a sozinho, sentado num banco, quando Isabel veio postar-se colada à porta de seu quarto, que dá para a varanda. ‘vai agora para o Pará’, disse-me ela, ‘e sinto que jamais retornará!’ Aperta-se me o coração, aproximo-me dela e nossas mãos se tocam vivamente. ‘Minha mãe chega” diz-me ela e, com efeito, sua mãe e sua irmã entram na varanda’. 

 

D. Pedro II – Desenho de Hercule Florence reproduzido em poligrafia.

 

 

PRECURSOR DO CONCEITO MULTIMÍDIA

 

Mais recentemente, os artistas contemporâneos encontraram em Florence uma fonte de inspiração. Na década de noventa, o artista sonoro alemão Michael Fahres, com um grupo de artistas da Rússia, Alemanha e Brasil, refez a viagem de Florence com a expedição Langsdorff e reinterpretou sua zoofonia. A fotógrafa italiana Linda Nagler prepara uma exposição de arte multimídia inspirada nas explorações artísticas e científicas de Florence para o Museu Nacional de Mônaco. Um trio argentino, a escritora e entusiasta de viagens Pola Oloixarac, a fotógrafa e artista plástica Luna Paiva e o compositor Esteban Insinger escreveram a seis mãos uma ópera contemporânea chamada ‘Hercule Florence em Mato Grosso’. Natalia Brizuela, professora do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Berkeley, é autora de vários livros sobre o assunto.  A professora Brizuela questiona: “Talvez Florence não fosse nem um naturalista nem um inventor, mas sim, um artista conceitual que estivesse à frente de seu tempo”.

José Geraldo Motta Florence, trineto de Hércules Florence, tem a autoridade de quem conviveu por mais de nove décadas com as proezas de seu inquieto antepassado agora redescobertas e a sensibilidade literária garantida geneticamente. Seu bisavô era Florence em dose dupla. Durante a viagem a Nice em 1855, Francisco, filho de Maria Angélica e Hércules Florence, conheceu sua prima Théodorine, filha de Fortuné Florence. O casamento reforçou a linhagem dos Florence abaixo dos trópicos e enfraqueceu mais ainda a combalida ala européia da família. O Sr. José Geraldo assim se manifestou durante a inauguração da Sala Hercule Florence no Teatro da Fotografia e da Imagem, no centro da cidade de Nice, em 2005: 

“Sou o mais velho de todos os participantes desta reunião e estou feliz em ser o último a falar.

Hércules foi surpreendido pelo Barão Langsdorff quando um dia, durante a expedição, o barão observou que ele não fazia nada. Hercules muitas vezes não fazia nada. Quando não fazia nada, Hercules sonhava. Assim, me aproprio dessa observação do Barão Langsdorff para dizer que hoje também realizei um sonho. A vida de Hércules é tão rica que permite sonhar que vamos fazer muitas conferências sobre aspectos que ainda não foram devidamente conhecidos e apreciados, como Michel Redolfi observou e registrou: a zoofonia permite revelações infinitas.

Eu me permito a continuar meu sonho de olhos abertos, através de uma realidade anunciada anteriormente por Jean-Pierre Giusto: haverá uma sala Hercule Florence no Teatro de Fotografia e Imagem e, talvez, uma pequena rua em Nice com seu nome. No Brasil, é destino de Hércules  ter apenas pequenas ruas, pois  ele não necessita de grandes avenidas. Aquela  que levava seu nome em Campinas foi ainda segmentada  para ser compartilhada com um grande poeta paulista, Paulo Setúbal. Há também uma pequena rua em Santos e outra muito pequena  no centro de São Paulo. Assim, Nice vai respeitar a tradição e homenageá-lo com uma pequena rua, como a de Philibert (sobrinho de Hércules e filho de Fortuné), em Mônaco.

Sonho com o dia de hoje, com este momento, há sete anos. Minha ideia seria reunir um dia Nice à cidade de Campinas”.

 

PRÓXIMA EDIÇÃO: De Hércules a Hercule – Parte 5 (última) – FLORENCE  POR FLORENCE e o presidente Campos Salles se interessa por suas pesquisas e pede um relato de suas invenções.