Expedição Parnaíba Vivo - IV

Araras azuis, buritizeiros

23 de setembro de 2014

Geraldo Gentil Vieira geraldogvieira@gmail.com   “Uma professora decidida surge da multidão, é preciso salvar o Velho Monge, este rio de barbas brancas, espumantes na foz de cada rio, diz ela citando versos emocionados do poeta maior Da costa e Silva. Outros professores e estudantes  discursam. A Expedição Parnaíba Vivo começa a correr no sangue de todos… Ver artigo

Geraldo Gentil Vieira
geraldogvieira@gmail.com
 
“Uma professora decidida surge da multidão, é preciso salvar o Velho Monge, este rio de barbas brancas, espumantes na foz de cada rio, diz ela citando versos emocionados do poeta maior Da costa e Silva. Outros professores e estudantes 
discursam. A Expedição Parnaíba Vivo começa a correr no sangue de todos os que estão na praça”.
 
 
 
 
Foi um dia de adaptações com o pesado barco de 17 toneladas, em especial o banheiro cercado por lonas, tendo ao centro um penico, que era obrigatoriamente esvaziado e higienizado pelo usuário ou usuária naquele oceano de águas barrentas. A médica-prefeita Raimunda Rocha narrou como guia aquele trecho de natureza ainda selvagem: bandos de araras azuis, papagaios e tucanos, voando não muito alto, acompanhando as curvas do rio, buscando as matas fechadas em ambas as margens. 
A primeira parada da grande viagem se avizinha. Uma faixa estendida sobre as águas em uma ponta de pedra em meio à vegetação nos saúda: “Tasso Fragoso felicita a Expedição Parnaíba Vivo pela sua passagem”. 
O comandante apita aquele ronco surdo uma, duas vezes, o barco segue o rio em viés cortando as águas, vai deixando atrás de si uma esteira de espumas flutuantes. Mais três apitos curtos e graves e o barco é atracado ao barranco, um rapaz forte de nome Emivaldo amarra as grossas cordas, ele diz que acompanhará a expedição a pedido do juiz. Cada um vai saltando em meio ao foguetório, o sol já sonâmbulo. Primeiro contato com a comunidade ribeirinha. Junto ao barranco, o sol no horizonte e o calor fazem uma dobradinha e todos suam a cântaros em meio a tanto entusiasmo. Alguém pede silêncio: “Pessoal, logo mais na praça, audiência pública”, anuncia o fleumático juiz, idealizador e coordenador da expedição. 
A maranhense Tasso Fragoso na margem esquerda, a meio caminho para Balsas, é uma pequena cidade em meio aos pomares dos quintais. A multidão vai se dispersando do alto barranco, mais tarde haverá festa. Saímos dali caminhando com as mochilas rumo ao pequeno hotel, uma pousada avarandada equipada com redes, um ambiente integrado a um pátio ajardinado. 
Logo ali à vista, um chuveiro frio restaurador das energias. Sem demora o jantar foi servido, e haja fome: peixada com cheiro verde, peixe frito em postas, churrasco, arroz-maria-isabel. Começo a pensar que vou ganhar uns quilinhos… 
Anoiteceu, o tempo anuncia chuvas. Saímos para a audiência no centro de vivência da praça central. O palanque está apinhado de gente. Falam o presidente do CDPar Antônio Tonico, o jovem prefeito Renato, a vereadora Raimunda, cada membro da expedição vai incentivando o debate com palavras de incentivo. Foi o bastante, muitos subiram e falaram de dedo em riste, “é preciso salvar este rio”, eram as palavras de ordem. 
Uma professora decidida surge da multidão, é preciso salvar o Velho Monge, este rio de barbas brancas, espumantes na foz de cada rio, diz ela citando versos emocionados do poeta maior Da costa e Silva. 
Outros professores e estudantes discursam. A Expedição Parnaíba Vivo começa a correr no sangue de todos os que estão na praça. 
Toma a palavra a professora Rosemary. Ela conta que tudo começou com o Biar, aquele rapaz sempre sério de filmadora em punho, fotógrafo em Alto Parnaíba. Eles levaram até as cabeceiras por conta própria um grupo de estudantes do segundo grau. Cachoeiras, serras e estradas difíceis, e em cima das chapadas as primeiras plantações de cereais de agricultores do sul. Procurou o juiz de direito Marlon Reis e a advogada Rosane, que se interessaram pela causa: conhecer o rio para protegê-lo. Depois fala do CDPar, Ong criada em fevereiro de 2.000 para mobilização e educação ambiental.
Uma estudante registrou no meu livro de bordo: “O CDPar [faz] grande mobilização em defesa do rio Parnaíba que se encontra ameaçado de extinção: este rio que para a população ribeirinha é fonte de vida, saciando a sua sede e matando a sua fome. É um dos mais importantes rios da região nordestina. Água é vida. Precisamos preservá-la” (anônima).
Começa a chover forte e o povo se dispersa, fim de festa na praça, e início de outra, a cidade preparou outra festa para logo mais. 
Após a esticada à discoteca coberta com palha de palmeira sob o som do reggae maranhense na sua típica cadência até a alta madrugada, todos vão chegando e desabando nas camas e redes.