PDBG - Primeira reportagem de uma série

Baía de Guanabara: agonia de uma poluição sem fim

10 de fevereiro de 2004

Calcula-se que até agora foram gastos cerca de R$ 1,5 bilhão. E, incrível, a poluição na baía continua firme e forte, enquanto a governadora Rosinha Garotinho negocia com o BID uma segunda etapa de US$ 402 milhões Após oito anos de uma operação milionária para recuperação do seu ecossistema, a Baía de Guanabara continua agonizando… Ver artigo

Calcula-se que até agora foram gastos cerca de R$ 1,5 bilhão. E, incrível, a poluição na baía continua firme e forte,
enquanto a governadora Rosinha Garotinho negocia com o BID uma segunda etapa de US$ 402 milhões



Após oito anos de uma operação milionária para recuperação do seu ecossistema, a Baía de Guanabara continua agonizando em meio à poluição. A primeira etapa do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) ficou aquém das expectativas. Preocupadas com as denúncias, autoridades públicas do Rio resolveram investigar o que deu errado. A Assembléia Legislativa do Estado (Alerj) instaurou uma CPI – Comissão de Inquérito Parlamentar – para apurar a má gestão do dinheiro público. O programa, por sua vez, está longe de ser concluído. O prazo contratual seria julho de 2003. O atual governo adiou o término da primeira fase pela quinta vez. O novo prazo passou para primeiro semestre de 2004. Segundo a Secretaria do Meio Ambiente, as obras do PDBG continuam paralisadas, embora o órgão tenha “emitido o processo administrativo autorizando a excepcionalização do PDBG do Decreto estadual n.º 32.623, que trata da suspensão temporária dos pagamentos, visando a retomada imediata das obras do programa”.


A bela Baía
A Baía de Guanabara é uma extensa baía costeira com um total de cerca de 390 km2 dos quais 50 km2 são ocupados por ilhas. Mede 28 km de leste para oeste e 30 km de norte para sul. A entrada tem apenas 1,6 km de largura. Cerca de metade da área é surpreendentemente rasa com profundidade de menos de cinco metros. A parte mais profunda se estende por 20 km na direção norte-sul da área de entrada da baía, para a área entre a ilha do Governador, a maior de todas as ilhas, e a ilha de Paquetá, e se constitui de um enorme canal com largura média de 2,5 km e uma profundidade de cerca de 15m. Este canal controla as trocas de água entre o oceano e a baía. Foi para recuperar o ecossistema da região (que abrange 16 municípios do Estado do Rio) que o governo do Estado lançou, em 1994, o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG).


A primeira fase do PDBG foi marcada pela ambição e grandiosidade. Ao captar parte do investimento necessário (total de US$ 991 milhões) no exterior, o programa ganhou projeção internacional. Do total, US$ 350 milhões são financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), US$ 244 milhões pela agência de cooperação internacional Japan Bank e US$ 396 milhões oriundos do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Hoje, de acordo com a assessoria do Meio Ambiente, parte dos recursos para a contrapartida do estado está sendo custeada com a publicação da previsão orçamentária para utilização de recursos, da ordem de R$ 92 milhões, do Fundo de Combate à Pobreza. Novos empréstimos junto ao Banco Japonês, da ordem de R$ 100 milhões, já haviam sido negociados pela administração anterior com o mesmo fim.


Baía de promessas
Lançado durante a administração de Leonel Brizola, o PDBG I foi facilmente incorporado no campo das promessas. A expectativa da população era tamanha. Calcula-se que até agora tenham sido gastos cerca de R$ 1,5 bilhão. A poluição na baía, no entanto, continua.


De acordo com o deputado Alessandro Calazans (PV), presidente da CPI da Baía, há obras que foram entregues fora das especificações contratuais e, por isso, até hoje não funcionam.


A Usina de Lixo de São Gonçalo e Estação de Tratamento de Esgoto, as Etes, de lá não puderam funcionar até hoje porque estão fora das especificações.


Os oito reservatórios de água, prontos há cinco anos, continuam vazios. Só nos reservatórios os gastos correspondem a R$ 60 milhões. Na época, o gestor não fez os estudos suficientes para identificar como levar a água até os reservatórios. Isso é uma aberração”, denuncia o deputado.


A maior indignação fica por conta dos cerca de R$ 130 milhões gastos nas Etes de Alegria, Pavuna e Sarapuí, dos quais R$ 70 milhões foram investidos nas duas últimas e R$ 60 milhões na Ete Alegria. Como estas ETE}s funcionam hoje com apenas 15% da sua capacidade, todo o esgoto continua sendo despejado in natura na baía.


As denúncias sobre o mau uso do dinheiro público começaram em maio do ano passado, logo após a posse da governadora Benedita da Silva. Na época, o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos, Agostinho Guerreiro, trouxe a público as irregularidades cometidas por gestões anteriores. O gesto provocou muitas críticas dos ambientalistas que questionavam até que ponto o então novo governo não compactuou com o silêncio durante a gestão de Anthony Garotinho. A principal razão para a desconfiança era o fato da vice-governadora na época ter sido Benedita da Silva.


Novas denúncias
Hoje, a CPI da Baía também está apurando novas denúncias. A mais grave é a de que a prática de aditamentos e re-ratificações contratuais elevou em até 25% os valores do PDBG. “Trata-se de instrumentos de exceção e não devem ser utilizados como regra. Estamos intimando os diretores da Assessoria de Desenvolvimento e Gestão (Adeg), órgão responsável pelo PDBG; ex-presidentes da Cedae e as empresas contratadas. Nosso relatório final irá encaminhar o indiciamento conforme a legislação penal sobre o mau uso do dinheiro público”, afirma.


As punições podem variar desde a prisão preventiva (caso confirme denúncia sobre uso de propina contra diretores da Adeg) até afastamento do serviço público e/ou ressarcimento do dinheiro ao erário. A CPI da Baía deverá funcionar até junho, com possibilidades de prorrogação.


Embora o PDBG I esteja se revelando um fiasco em termos de administração pública, o governo do Estado do Rio já está negociando a segunda etapa do programa. Em março, a governadora Rosinha Garotinho reuniu-se com o presidente do BID, Enrique Iglesias, e conversaram sobre a manutenção do financiamento do banco no PDBG II, cujo orçamento total deverá chegar a US$ 402 milhões.
A prioridade da próxima fase, conforme anunciou secretário do meio ambiente e vice-governador, Luis Paulo Conde, será a destinação do lixo urbano.
(Esta reportagem continua na próxima edição)


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PDBG - Segunda reportagem da série

Relação é tensa com financiadores

26 de janeiro de 2004

O governo japonês tem acompanhado de perto o resultado do programa. Ano passado, a Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica) – indicada pelo governo japonês para acompanhar o desempenho do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara -, apresentou dois relatórios de avaliação. O primeiro Estudo para Controle e Recuperação das Condições Ambientais da Baía… Ver artigo

O governo japonês tem acompanhado de perto o resultado do programa. Ano passado, a Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica) – indicada pelo governo japonês para acompanhar o desempenho do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara -, apresentou dois relatórios de avaliação. O primeiro Estudo para Controle e Recuperação das Condições Ambientais da Baía de Guanabara, por exemplo, divulgado em agosto, denunciava o aumento da poluição em pelo menos quatro pontos da baía. O método utilizado foi a comparação dos dados da Feema de 1999 a 2001. Foram analisadas a carga gerada de poluição, descarga de carga poluidora da bacia e a modelagem matemática da mudança de qualidade da água na baía. Os técnicos japoneses concluíram que dos oito pontos de monitoramento, quatro – um na Ilha do Fundão, um em Ramos e dois em Caxias – estão com índices elevados de poluição.


Já o segundo relatório, divulgado durante o Seminário sobre Despoluição dos Corpos Hídricos, em novembro passado, apontou que a finalização do PDBG I não será suficiente para a remoção significativa do nitrogênio e fósforo – que elevam o nível de poluição quando descontrolados. A solução, de acordo com a agência, seria ampliar a implementação de sistemas de tratamento de esgoto secundário e, numa outra etapa, ampliação para o tratamento de esgoto terciário (avançado) em áreas específicas.


Os técnicos admitiram que a medida representaria um acréscimo de 50% a 100% no orçamento inicial do PDBG. Segundo eles, são quatro áreas críticas na baía consideradas de alta prioridade: Pavuna, Sarapuí, Bangu e Acarí.


Sonho da despoluição
Lançado em 1994 durante o governo Leonel Brizola, as obras só foram iniciadas em fevereiro de 1995, já no governo Marcelo Alencar. Desde a realização da RIO}92 no Rio de Janeiro, o projeto consolidava o sonho da despoluição da baía. O Programa de Despoluição da Baía de Guanabara é um conjunto de ações multidisciplinares que abrangem obras, bens e serviços nas áreas de esgotamento sanitário, abastecimento de água, coleta de lixo e destinação final de resíduos sólidos, drenagem, controle ambiental e mapeamento digital. O objetivo visa ao controle da poluição e recuperação do Ecossistema da Baía de Guanabara, que abrange 16 municípios do Estado do Rio. A maior parte dos recursos é destinada às obras de saneamento (cerca de 90% do total), considerado prioritário.


Efeito Orloff


Guanabara de hoje é a Barra de amanhã
A silenciosa agonia da Barra da Tijuca tem motivos explícitos e segue o mesmo caminho que poluiu a Baía de Guanabara: descaso das autoridades e ocupação desordenada







Todo tipo de lixo e esgoto é jogado nas lagoas de Jacarepaguá e Barra da Tijuca. A alta concentração de algas tóxicas comprovam o descaso com ecossistemas de características únicas

Tetê Duche, do Rio de Janeiro
O maior bairro da cidade do Rio de Janeiro, talvez do Brasil, a Barra da Tijuca, não teve o que comemorar na Semana do Meio Ambiente. Como se não bastasse a extensa língua negra que corta o branco da praia, duas toneladas de esgoto in natura são lançadas a cada segundo no complexo lagunar da zona oeste do Rio de Janeiro. O metro quadrado mais caro da cidade sofre com o assoreamento de suas cinco lagunas e o sumiço de peixes. Além do esgoto, todo tipo de lixo abandonado e alta concentração de algas tóxicas comprovam o descaso das autoridades com ecossistemas de características únicas como a lagoa de Marapendi, a Lagoinha, a lagoa da Barra da Tijuca, a lagoa de Jacarepaguá além da própria praia que formam um sistema lagunar denominado de Baixada de Jacarepaguá. “É um crime ambiental diário onde o poder público nada faz e cobra caro pela água e esgoto de uma população que está na casa de um milhão”, desabafa o biólogo Mário Moscatelli que acusa o Estado de omisso.


Estudioso dos problemas da região desde 1987, o oceanógrafo e consultor ambiental David Zee é outro que contesta o descaso das autoridades. Zee estima que 80% da superfície molhada dessas lagunas já estejam comprometidos. Recentemente, uma comissão pró-emissário foi montada na Assembléia Legislativa para inspecionar a retomada das obras de tratamento do esgoto que começaram em 2000 e deveriam estar concluídas no início de 2003. “É uma obra de efeito vaga-lume: como um pisca-pisca, ora anda, ora para. Parece que o Estado e a Prefeitura não têm compromisso com a qualidade ambiental”, lamenta David Zee que também é o vice presidente da Câmara Comunitária da Barra, uma das integrantes da Comissão Pró-Emissário. A retomada das obras está em ritmo muito lento e só deverá estar concluída em abril de 2004, ou seja, com mais de um ano de atraso, de acordo com o cronograma do projeto.


A Comissão Pró-Emissário detectou também que a primeira fase da obra está orçada em R$ 70 milhões e representa apenas a parte física da obra, isto é, rede de captação, estação terminal de esgoto e o emissário submarino, da Baixada de Jacarepaguá. Por este motivo, o deputado estadual Otávio Leite (PSDB) defende uma imediata licitação para a compra dos equipamentos eletro-mecânicos, sem os quais a estação de tratamento não irá operar.


A segunda fase da construção das obras de saneamento está orçada em R$ 190 milhões. “De onde virão os recursos?” – questiona o deputado. “Daí a minha obstinada preocupação em abrir a caixa preta do Fundo Estadual de Conservação do Meio Ambiente. O deputado estadual Carlos Minc (PT/RJ) também está preocupado com o saneamento básico urbano no entorno do complexo lagunar da zona Oeste. “Já consultei o Sistema Integrado da Administração Financeira dos Estados e Municípios e constatei que apenas uma parcela de R$ 190 mil foi usada nos cinco primeiros meses deste ano e mesmo assim, para despesa de pessoal” denuncia o deputado Carlos Minc que assegura que o fundo dispõe de R$ 410 milhões para obras de relevante interesse ambiental e sanitário no Estado.


O ex-prefeito da cidade do Rio de Janeiro e atual secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, e o ex-presidente da Cedae, Agostinho Guerreiro, através de suas assessorias, não quiseram se pronunciar sobre a paralisação das obras do emissário, alegando compromissos fora da área metropolitana da cidade.


“Imagina que vão levar uns dez anos para recuperar o sistema lagunar da Barra e de Jacarepaguá”, alerta o biólogo Mário Moscatelli. E isso se as obras não forem paralisadas e se, de fato tiver um fim esse processo impressionante de poluição.


“Ficar de braços cruzados, eleger políticos descompromissados com o meio ambiente e deixar que crimes fiquem impunes é a receita certinha para que a baía de Guanabara continue poluída e para que a Barra da Tijuca vá pelo mesmo caminho”, lembra o ambientalista e jornalista Vilmar Berna.
Será que o Rio de Janeiro merece?

Summary


Guanabara: clean bay, is said, only in 2006
Rio de Janeiro state has already paid about 7 million dollars in fines and contractual
interests for not having concluded the first stage in the stated foreseen period


In our May edition, we showed that even after eight years of the execution of the Clean- up Program of the Guanabara Bay (PDBG), the bay, one of the most beautiful postal cards of Brazil, remains polluted. The millionaire investment of about 991 million dollars (R$ 2,8 billion) and the participation of international organisms (Inter-American Development Bank and Bank of Japan) did not guarantee the good performance of the project. Amidst paralyzed work and denunciations of bad management of public money, the Legislative Assembly of Rio de Janeiro (Alerj) established a Parliamentary Inquiry Commission (CPI). New accusations of irregularities have appeared and are under investigation. Public officers, entrepreneurs and politicians were summoned to give their statements in the CPI of the Alerj.


The new deadline announced by the Government of the state is preoccupying. Only in 2006 the population of Rio de Janeiro will be able to have again a clean Guanabara Bay. The announcement confirmed the fifth adjournment of the first phase of the PDBG. It is the biggest extension made during all the execution of the project. To make matters worse, the delay costs a high price to public budgets. As discovered by the Guanabara Bay CPI, the state has already paid about US$ 7 million in contractual fines and interests for not having concluded the first stage in the foreseen stated period. The State paid more than 30% of the value of the work in interests. There are calculations projecting the cost of the new adjournment. The projection is that the Government will spend US$ 300 million more than what had been foreseen in the original budget.


The irregularities range from unfinished work, errors in the execution up to the suspicion that the practice of the contractual amendments and re-ratification raised in up to 25% the total cost of the project, as Folha do Meio Ambiente denounced in the May edition. According to the last data obtained by the Guanabara Bay CPI, for example, even the workmanships of the Sewer Treatment Station (ETE) secondary of the Alegria system – initiated in the end of 2002 and which financing was already guaranteed by the Bank of Japan- had been suspended due to poor management. The irregularities point out that part of the land where the ETE is being constructed does not belong to the State. Members of the CPI are questioning the fact that Cedae (State Water and Sewer Company) has only now discovered the mistake.


The format for the public management of the PDBG has already been very criticized by specialists and environmentalists. The decentralization favored the bureaucratization of the project. The program was even simultaneously executed by five state agencies. Until last year, the State Supervision of Rivers and Lagoons (SERLA) and the State Foundation of Engineering and Environment were in charge- both were connected to the Environmental Office. The management also involved the Sanitation and Water Resources Office, Cedae and Cide Foundation (Center of Data Information), the latter one linked with the Economic and Tourism Development Office. The new government extinguished the Sanitation and Water Resources Office and concentrated the execution of the PDBG projects in the Environmental Office, today commanded by the state vice-governor, Luis Paulo Conde.


Clean up Dream
Launched in 1994 during the government of Leonel Brizola, the workmanships were only initiated in February of 1995, during the government of Marcelo Alencar. Since the accomplishment of RIO’92 in Rio de Janeiro, the project consolidated the dream of removing the pollution from the bay. The Clean-up Program of Guanabara Bay is a set of multidisciplinary actions that enclose workmanships, properties and services in the areas of sanitary draining, water supply, garbage collection and final destination of solid residues, draining, environmental control and digital mapping. The objective aims to control the pollution and to recover the Ecosystem at Guanabara Bay, which encloses 16 municipalities of Rio de Janeiro state. Most of the resources is destined to the sanitation work (about 90% of the total), considered top-priority.

PDBG - terceira reportagem da série

Baía de Guanabara: poluição sem fim

15 de dezembro de 2003

CPI prorroga suas atividades sobre o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara por mais 60 dias e Governo do Rio pede auditoria externa nas contas do PDBG

 






Elmo da Silva Amador é professor-doutor pela Universidade Federal do RJ e coordenador do Movimento Baía Viva. Elmo Amador, em Ponto de Vista aqui mesmo na Folha do Meio Ambiente, na edição 131, de outubro/2002, já havia alertado que “sete anos depois de iniciadas as obras do PDBG, os benefícios ambientais e sociais são irrisórios. Todas as as oito estações de tratamento de esgoto foram concluídas e eleitoralmente inauguradas. Uma delas, a ETE de São Gonçalo, foi inaugurada duas vezes e não trata hoje nem um litro de esgoto”.

Nesta terceira reportagem da série sobre o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), o professor-doutor da UFRJ e coordenador do Movimento Baía Viva, Elmo da Silva Amador faz uma avaliação dos erros ocorridos na primeira etapa do PDBG. Ele responsabiliza interesses políticos pela má gestão do programa e defende uma mudança de paradigma na execução da segunda etapa para salvar a baía. Segundo ele, somente a ênfase na construção de redes e troncos coletores na segunda etapa do PDBG, aliado à uma gestão eficiente com participação da sociedade civil podem, de fato, despoluí-la.


Folha do Meio – Quais foram os erros de execução do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara?
Elmo Amador –
Embora sendo um programa importante e necessário, o PDBG não agregou questões primordiais para a Baía de Guanabara e priorizou o saneamento básico nesta primeira etapa. Existem outras questões emergenciais para salvar a baía como o problema do assoreamento, o lixo flutuante e a própria sobrevivência do ecossistema no entorno da área. A concentração de esforços no componente esgotamento sanitário foi uma grande falha. A poluição nunca aumentou tanto quanto nesses últimos anos.


FMA – Que medidas emergenciais devem ser aplicadas a partir de agora para salvar a baía?
Elmo Amador –
A primeira delas é implementar uma gestão eficiente. Defendemos que a segunda etapa do programa comece pela construção das redes e troncos coletores. Também queremos a existência de um conselho gestor permanente para fiscalizar o que estará sendo feito.


 






O então governador Leonel Brizola teve problemas com a Carioca Engenharia,
mas deu o pontapé inicial.


 


O governador Marcelo Alencar fez fluir
relativamente
bem a obra.


Anthony Garotinho trouxe um discurso de cunho eleitoreiro. Além de não honrar a contrapartida do estado, fez propaganda enganosa com pretensões de ser eleito para a Presidência da República.


A então governadora Benedita da Silva fez muito pouco em razão do tempo limitado, mas foi o suficiente para abrir a caixa preta do PDBG e revelar que a situação da baía era pior do que se pensava.


A atual governadora Rosinha Garotinho pegou o quadro muito ruim. Teria que terminar a obra agora em julho, mas o estado não tem os
R$ 400 milhões para concluir o empreendimento


Negligência e descontinuidade no PDBG
A CPI tem a missão de abrir essa caixa preta. Se existem culpados, são os políticos.


FMA – Onde o Estado do Rio foi mais negligente?
Elmo Amador –
O acidente da Petrobras, ocorrido em janeiro de 2000, demonstrou total negligência na proteção ambiental na questão óleo, por exemplo. Outro problema verificado foi a descontinuidade do programa.


Um projeto desse porte jamais poderia permanecer preso a um governo. Os prazos não poderiam ser eleitorais, mas de longo prazo e de longa duração. Por que não aceitaram o controle social do programa? O deputado estadual Carlos Minc, por exemplo, apresentou proposta de criação do Fórum de Acompanhamento do PDBG. O projeto foi aprovado, mas não chegou a ser executado. O atraso no cumprimento das metas também foi um agravante.


FMA – E de que maneira cada governo executou o PDBG?
Elmo Amador –
Cada governador imprimiu uma forma e velocidade diferentes. Brizola teve problemas com a Carioca Engenharia, mas deu o pontapé inicial. O Marcelo Alencar fez fluir relativamente bem a obra.


Já Anthony Garotinho trouxe um discurso de cunho eleitoreiro. No primeiro governo Garotinho, por exemplo, não foi honrada a contrapartida do estado. Mas o pior foi ele ter feito propaganda enganosa com pretensões de ser eleito para a Presidência da República. Já a Benedita da Silva fez muito pouco em razão do tempo limitado. Mas foi o suficiente para abrir a caixa preta do PDBG e revelar que a situação da baía era pior do que se pensava.


A Rosinha Garotinho pegou o quadro muito ruim. Teria que terminar a obra agora em julho, mas o estado não tem os R$ 400 milhões para concluir o empreendimento.


FMA – Há evidências de que Garotinho foi quem mais investiu em publicidade, não é?
Elmo Amador –
Sem dúvida. Ele fez campanha na mídia dizendo que o programa estava às mil maravilhas e apresentou dados falsificados.
Quando não chove no Rio, as praias ficam maravilhosas porque se reduz o volume de coliformes fecais. Isso foi vendido como um dos benefícios alcançados pelo governo Garotinho.


Como o PDBG poderia apresentar resultados positivos se as estações foram inauguradas sem redes coletoras de esgoto? Foi uma maldade absurda.


FMA – Bem, acontece que a baía continua poluída após oito anos de PDBG e de alguns bilhões de reais gastos. De quem é a culpa?
Elmo Amador –
Se existem culpados, são os políticos. Citei o caso do Garotinho porque foi muito específico em razão dele ter outros interesses e, por isso, abriu muitas frentes.


Temos hoje a CPI da Baía de Guanabara avaliando todo o processo. Já foi levantado que existe a possibilidade de ser comprovado casos de corrupção e desvio de recursos. A CPI tem a missão de abrir essa caixa preta.


Summary


Baía de Guanabara’s (Guanabara Bay) agony if far from ending


The latest news continues to be astounding. Amid the accusations of corruption, unfinished projects, and project mismanagement, the CPI (Congressional Investigative Committee) of the Baía, introduced by the Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj, or the Legislative Assembly of Rio de Janeiro) will postpone its activities for another sixty days. The projects are not expected to be finished until mid September. The present government of the state of Rio de Janeiro has decided to react. In the beginning of July, the Secretaria Estadual de Meio Ambiente (State Department of the Environment) published an official public bidding for a third party audit of PDBG’s (Programa de Despoluição da Baía de Guanabara – Program for Depolluting the Bay of Guanabara) accounts. Government sources state that the call for bids is backed by Banco Interamericano de Desenvolvimento, BID (Interamerican Bank for Development), one of the international financiers of the project.


Elmo da Silva Amador (Professor of UFRJ, the Federal University of Rio de Janeiro, and Coordinator of the Movimento Baía Viva) evaluated the errors that occurred within the first phase of the PDBG in the last report of the series about this topic. He states that political interests are responsible for the mismanagement of the program, and calls for a change in paradigm in the execution of the second phase, to save the bay. According to Amador, for the second phase of the PDBG to be successful, emphasis must be placed on the construction of collecting points and distribution systems, as well as on efficient management that relies on the participation of individuals from society.


Elmo Amador: Each governor carried out his/her duties in a different manner and at a different speed. Brizola had trouble with Carioca Engenharia, but gave the opening kick. Marcelo Alencar made the project flow relatively well. Anthony Garotinho’s approach was to gain electoral support. In his first term, the state’s matching funds were not honored. But worst of all was that he made false promises with intentions to be elected president of Brazil. Benedita da Silva did very little because of the short term she was in office. But this was enough to open the black box of the PDBG, and reveal that the situation of the bay was much worse than previously thought. Rosinha Garotinho inherited a bleak situation when she came into office. She would have had to finish the project in July, but the state does not have the R$ 400 million to finish the job.


Who is Elmo Amador Elmo da Silva Amador is a professor of the Universidade Federal do Rio de Janeiro (Federal University of Rio de Janeiro), and Coordinator of the Movimento Baía Viva. Elmo Amador had already sounded a warning when he wrote: “seven years after the start of the PDBG the environmental and social benefits are minimal. All of the eight sewage treatment plants were concluded and inaugurated for the elections. One of them, the sewage treatment plant of São Gonçalo, was inaugurated twice but currently does not treat any sewage”.