Jornalismo ecológico: o 5º elemento

26 de março de 2013

“Os jornalistas do futuro terão consciência ambiental no cumprimento da profissão”

 

A imprensa do futuro será formada pelos jornalistas de hoje, acrescidos da consciência ecológica no cumprimento da profissão
 
 
Hiram Firmino
 
O jornalismo ambiental perdeu, momentaneamente, o seu brilho, espaço e poder na grande mídia nacional, por dois motivos básicos: primeiro, por causa da ressaca da Rio/92. Todo o mundo esperava, conforme se anunciou sensacionalisticamente, na época, que as coisas iriam mudar como num passe de mágica, após a "Conferência do Século". Foi o primeiro engano da imprensa tradicional, sem visão holística: o ser humano, como toda a natureza, não dá saltos. A revolução que se esperava aconteceu sim, primeira mão e de maneira silenciosa, na consciência das pessoas. Da consciência à ação, isto leva tempo.
A segunda causa da perda de espaço da questão ambiental nos grandes veículos de comunicação foi a linguagem. Ao usar o mesmo jargão do jornalismo tradicional, de só noticiar desgraça – mata pegando fogo, rio que secou, ou seja, sem dar esperança – para o leitor e o anunciante o jornalismo ambiental ficou igual, se nivelou por baixo e perdeu, assim, a sua capacidade de penetração e conquista da opinião pública.
A saída? Uma única só: usar a beleza, a forma e a sabedoria da própria natureza, o meio ambiente e o desenvolvimento sustentado que o jornalismo ambiental, em última análise, deveria se inspirar, para se diferenciar do jornalismo normal.
Um exemplo desta força propulsora, que é a beleza, no seu sentido maior de linguagem e aceitação universal, nos foi dada por Assis Chateaubriand na revista Cruzeiro. Uma revista que mesmo na época em que circulou, num Brasil, e numa América Latina com menos educação e cultura, chegou a vender mais do que a revista Veja vende hoje, com toda a sua modernidade e estratégia de marketing.
Qual a razão? Com apenas uma exceção, que foi quando da morte de Getúlio Vargas, a Cruzeiro sempre teve uma foto de mulher bonita, geralmente miss, em sua capa. Lá dentro tinha reportagens, denúncias etc., mas o chamarismo do leitor era sempre – daí o seu sucesso – a beleza humana.
No caso do jornalismo ambiental, no dia em que a imprensa se inspirar na beleza da natureza e na sua grandiosidade, em termos universais – afinal, ela é maior que nós – aí nós não apenas recuperaremos, como faremos crescer, indefinidamente, o espaço perdido na mídia geral. É aquele negócio que o Paulo Coelho fala: quando nós, profissionais da imprensa, estivermos coligados com "algo maior", esse "algo maior" também conspirará a nosso favor.
Um exemplo prático: não adianta noticiar apenas que o Tietê tá fedido, horroroso, moribundo. Se neste fato incontestável, acrescentar-se como ele poderia estar melhor – água limpa, margens recuperadas e ajardinadas etc. ou seja, algo de esperança, de um amanhã melhor no conteúdo e na forma da notícia, ela então passa a ser agradável, tem leitor, tem quem a edite, afinal.
A imprensa, por significar a sede de conhecimento, informação e consciência evolutiva que a humanidade busca, jamais será extinta, a menos que a nossa espécie se embruteça, do ponto de vista técnico-profissional, e se torne inadaptável no cenário competitivo terrestre, feito os dinossauros.
O futuro da imprensa num planeta ambientalmente ameaçado pode ser visto no filme "O Quinto Elemento", onde a atriz Ian Holm encarna um ser humano modulado no passado para sobreviver, vencer e salvar a humanidade consigo, no futuro. Seu personagem, um modelo a ser seguido, é de um ser humano de carne e osso feito o comum dos mortais, mas consciente de ter os quatro elementos da natureza (o ar, a terra, o fogo e a água) dentro de si, acrescido de uma visão holística de ser e atuar no mundo.
O outro nome deste "quinto elemento" é "quinto poder", uma vez que a imprensa, nos moldes convencionais, já é chamada de o "quarto poder", junto dos outros poderes conhecidos como o legislativo, o judiciário e o executivo. O quinto poder será a imprensa futura, os jornalistas de hoje, acrescidos da consciência ecológica no cumprimento tanto de sua profissão, como em sua vida particular e como cidadãos planetários – e não apenas paulistanos, mineiros, asiáticos etc.
O profissional de imprensa do futuro não poderá ser mais um mero transmissor de notícias, mas um ser humano que, tão sensível e vulnerável feito uma árvore ou um passarinho, possa pensar globalmente e agir localmente em defesa de sua sobrevivência como espécie vivente.
Ele não mais relatará tão somente a realidade à sua volta, como fará parte dela, inclusive influenciando-a. Não há mais como reportarmos que a Terra está virando um deserto, e amanhã podemos morrer todos juntos neste deserto. O mesmo deserto que poderíamos ter ajudado a evitar, se cumpríssemos a missão vanguardista de um jornalismo explicitamente apaixonado pela natureza e a serviço do desenvolvimento sustentável.
Conclusão 1: o dia em que o jornalismo e todos nós, seus profissionais, nos "ecologizarmos", a própria designação "jornalismo ambiental" perderá o seu sentido. Seremos todos operários do "Quinto Poder" e o mundo, quem sabe, também será outro, tal como a nossa futura humanidade.
Conclusão 2: a natureza, por sua beleza, é a nossa única pauta de sobrevivência no mercado de trabalho, na ética e na crença na profissão, além de inteligência, sabedoria e amor por nós mesmo.
 
SUMMARY
 
Environmental journalism has lost, bit by bit, its luster, its scope, and its power in the grand national media, for two basic reasons.  First, the hangover after the high of Rio'92.  The whole world, due to the sensationalist build-up at that time, had high hopes that things would change as if by the sweep of a magic wand after the so-called "Conference of the Century".  This was the first mistake caused by traditional journalism, lacking a holistic vision: human beings, like all of nature, does not change by sudden leaps.  The expected revolution did indeed happen, but silently, in the conscience of individuals.  But from conscience to action, ah, this takes time.
The future of the press in a world under environmental threat can be seen in the film "The Fifth Element" in which the actor Ian Holm embodies a human being molded in the past, but striving to survive, win, and save himself and humanity in the future.  His character, a good example to follow, represents a human being of flesh and bone common to all mortals, conscious of containing within himself the four natural elements– air, earth, fire and water– yet enriched with a holistic vision of being and acting in the world.
Another name for this "fifth element" could be the "fifth power", in the sense that the press, according to conventional wisdom, is known as the "fourth power" alongside the other powers known as the legislative, judiciary, and executive.  The "fifth power" will be the press of the future– the journalists of today enriched by an ecological conscience in the pursuit of their profession.