Expedição Langsdorff - CAPÍTULO 17 - última parte

RESGATE DA ICONOGRAFIA

16 de dezembro de 2015

Os ‘causos’ bem brasileiros contados por Langsdorff, Florence e até por Wilhelmine

 
De acordo com o ex-professor da UnB Marcos Pinto Braga, morto em um acidente automobilístico em 1990, “Langsdorff considerava de grande importância o trabalho dos artistas, e queria publicar os desenhos juntamente com as suas narrativas. Mas a atenção dos desenhistas era atraída também para outros temas, como vistas de cidades, cenas da vida cotidiana de senhores e dos escravos, ranchos, fazendas, pontes, e, como não poderia deixar de ser, para a flora e a fauna”.
O próprio Langsdorff, que o professor Braga considerava “homem de destino incomum, marcado pela ânsia de conhecimento e frenética corrida contra o tempo”, anotou: “Exigi dos artistas retratos exatos dos índios… Espero que tenham sido devidamente apreciados em São Petersburgo os desenhos da expedição. Eles revelam coisas que na Europa, até hoje, nunca se viram”. 
 
Na sua passagem pelo Rio em 1846, Rugendas arrazoava a defesa da classe artística e sua importância histórica: “Dirão que perdi meu tempo, mas terei sempre assaz filosofia para responder: diverti-me e tanto basta. Demais, não somos tão inúteis como pensam, nós artistas. Olhe o pesado carro do Chile, está rareando, substituído pelos aligeirados veículos da Europa; o chiripá dos filhos do Prata não aparece mais senão no fundo das missões. Quem conservaria para a história esses tipos dos povos e das épocas, se não fora o pintor?” 
(Em ‘O Campeiro Rio-Grandense’, de João Mendes da Silva (l884), encontramos: “Chiripá – pano que os gaúchos rio-grandenses, à imitação dos orientais, passam por entre as pernas e sobre as ceroulas, indo prender na cintura. É só usado pela gente baixa, peões da estância”).
 
 
‘Os contingentes de negros que deram entrada no Brasil receberam rotulações gerais segundo os pontos de origem (Mina, Cabinda, Congo), assim como eram classificados conforme sexo, idade e aptidão física. 
Antônio Carreira informa que os adultos eram chamados de “cabeça”, “peça”, “peça-da-Índia”, “marfim” ou “ébano-da-Guiné”, “negro lotado”, “negro-de-ponta-de-barba”, “negro boçal”, “escravo-de-grilhão”. Aos adolescentes cabia “moleque”, “moleque lotado”, “molecão”, “molecona”, “molecona-de-peito-atacado”, “mocetão”. 
 
As crianças eram chamadas de “menino”, “cria-de-peito” e “cria-de-pé”. 
Quanto à aptidão física, uma “peça” não correspondia necessariamente a um escravo, pois a orientação era para a força de trabalho, por exemplo: três “crias-de-pé” (crianças que já andavam) equivaliam a uma “peça-da-Índia” (escravo jovem e bem formado)’. 
(Prof. Raul Lody)
 
Algumas das várias ilustrações de Florence sobre o tema feitas em Diamantino, no Mato Grosso, em janeiro de 1828, apresentam um ‘Negro Auçá’, também chamado ‘negro-de-ponta-de-barba’, e as ‘Negra Cabinda’ e ‘Negra Rebolo’, cujos seios rígidos poderiam conferir a elas a designação ‘moleconas-de-peito-lotado’. 
 
 
 
Linguagem e apelidos
‘O negro Cabinda, figurado jovem e bem-formado, de dorso nu, poderia se enquadrar, segundo a classificação dos negreiros, como “peça-da-Índia”. (…) Cabinda engloba, de forma genérica, diferentes grupos culturais da África Austral. Já na África Ocidental o termo “costa” serviu para indicar procedências de faixas litorâneas: Costa do Ouro, Costa da Malagueta, Costa Mina. Tudo o quê era “da costa”, sabia-se ser de origem africana (pano-da-costa, pimenta-da-costa), assim como para Portugal o termo usado era “do reino” (farinha-do-reino, queijo-do-reino, pimenta-do-reino)’.  
(Prof. Raul Lody).
 
Em complemento à informação do professor Lody, tudo o quê era brasileiro recebia o epíteto ‘da terra’. Assim, temos ‘banana-da-terra’, ‘batata-da-terra’ (ou batata-doce), e ‘canário-da-terra’, em oposição a ‘canário-do-reino’. A galinha garnisé, nome aportuguesado derivado do arquipélago de Guernesey de onde se origina, também é conhecida como ‘galinha da costa’ ou ‘galinha do reino’ em alguns lugares. 
 
Os primeiros escravos trouxeram palavras que foram integradas ao português através de suas formas derivadas (esmolambado, dengoso, sambista, xingamento, caçulinha). Outras expressões substituíram inapelavelmente a palavra portuguesa. Corcunda (giba), moringa (bilha), molambo (trapo), xingar (insultar), cochilar (dormitar), caçula (benjamim), dendê (azeite-de-palma), bunda (nádegas),  marimbondo (vespa), carimbo (sinete), cachaça (aguardente), camundongo (rato pequeno), etc., desancaram suas  formas correlatas. ‘Mãe-preta’ exercitava o sincretismo semântico: “O caçula é o dengo da família”.
 
‘Negre Mozambique, esclave à Rio Janeiro qui se dit fils du roi de son pays’. 
Florence.  
(Acervo do “Museu Paulista da Universidade  de São Paulo”, disponibilizado por meio site do Instituto Hercule Florence – http://www.ihf19.org.br/index_ale.html) 
 
 
 
A direita Índios Guatós, na confluência dos rios São Lourenço e Paraguai. 17 de dezembro de 1826.
A esquerda ‘Jeune fille Guaná’ e ‘Guanita Capitain Mór des Guanás’. 
Florence.
 
 
CAUSOS DA EXPEDIÇÃO
Histórias bem brasileiras recolhidas durante a Expedição Langsdorff
 
A professora Lorelai Khury, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro,  e o professor Francisco Foot Hardman, da Unicamp, são autores de um artigo sobre “Algumas Histórias Brasileiras”, recolhidas por Hercule Florence e enviadas para a Rússia com o acervo da expedição.
 
Hercule Florence, autodidata em vários ramos do conhecimento, acrescentou à lista de suas habilidades novos ramos desconhecidos à época: a Zoofonia, estudo dos sons emitidos pelos animais atualmente conhecida como Bioacústica; técnicas novas de impressão; desenvolvimento da fotografia e, numa mistura de sociólogo e jornalista, anexou aos seus diários relatos ouvidos durante suas andanças, talvez para futura expansão. 
O próprio Langsdorff anotara em seus diários alguns relatos ouvidos durante a convivência com Álvares Machado no início da expedição, de ataques de onças e de como elas teriam preferência pela carne dos negros.

 
 
Wilhelmine também Recolheu Histórias 
História Ocorrida em Itu-SP
 
 “É difícil entender a educação e modo de viver das mulheres e moças desta terra. Elas vivem sempre separadas do sexo oposto, raramente se permitem ser olhadas por algum estranho, nem mesmo por parentes próximos, e têm que passar a vida toda trancadas dentro de casa. A única oportunidade que têm de aparecerem publicamente é quando vão à missa na manhã dos domingos. Nesses dias, mesmo com todo o cuidado dos pais, é que são marcados os encontros de amor. 
Hoje, uma pessoa bastante confiável contou-nos uma história escabrosa que aconteceu há alguns anos em Itu. Num domingo, um padre, caminhando depois da missa, viu sua sobrinha observando, curiosa e sem o conhecimento da mãe, através da janela de grade, as pessoas que passavam. O tio foi ter com sua irmã para repreendê-la por estar se descuidando da educação da filha, que, segundo ele, observava furtivamente os transeuntes. À tarde, a irmã mandou chamar seu irmão, que, a essa altura já estava de novo em casa, e mostrou-lhe o cadáver da filha, que ela havia estrangulado, garantindo-lhe que, a partir dali, ela não olharia mais as pessoas na rua”.  
 

 
 
Duas histórias recolhidas pelo cônsul Langsdorff
 

Primeira: o rapto da filha do fazendeiro
 
“Um jovem, cujo nome não me ocorre agora, raptou a filha de um fazendeiro. Eles passaram a primeira noite em uma floresta. De manhã cedo, ao acordar, a amada havia desaparecido; ele a chamou várias vezes, mas em vão. Suas roupas estavam ao lado do acampamento, portanto, ela não poderia estar longe; mas ela não voltava. Aterrorizado, ele esperou o dia nascer, encontrou sinais de sangue e os rastros de uma onça. Ele se pôs atrás dela imediatamente e, não muito longe, encontrou sua amada morta, entre as patas da onça e já parcialmente devorada. Ele juntou os restos da moça e correu para a casa do pai dela para confessar sua culpa. Mas, tão logo deixou a floresta, deparou-se com o pai e o irmão da moça. Eles se postaram na frente do jovem sedutor e fugitivo. O pai atirou nele. A bala o feriu mortalmente, mas o moribundo ainda teve tempo de contar a desgraça que o atingira”.
 
 
Segunda história: 14 orelhas dos 7 assassinos
“História do rapaz que vingou seu irmão e cometeu sete assassinatos: Um jovem visitava uma jovem à noite; o irmão dela, sentindo-se ofendido, arquitetou, junto com seis amigos, um plano para o vigiarem. Eles o encontraram conversando à janela, com a jovem. Bateram nele, o esfolaram vivo e mandaram entregar o corpo à jovem e à mãe. Esta, revoltada com tanta crueldade, mandou chamar um dos seus filhos e mandou-o vingar a morte do irmão. Deu-lhe alguma coisa e trancou a casa. Todos os assassinos, que o jovem conhecia, tinham fugido. Garcia partiu, viajou por quase todo o Brasil e, depois de muitos anos, após haver executado sua missão, voltou e entregou à mãe as 14 orelhas dos assassinos de seu irmão”.

 

 

Histórias Recolhidas por Florence

Os professores Lorelai e Francisco traduziram e publicaram pela primeira vez as histórias recolhidas por Florence. A primeira delas, a mais longa é a única que possui um título: Ingratidão e barbárie de dois brancos para com negros fugidos
 
Às margens do Paranapanema, afluente do Paraná, que corre pelos desertos da parte ocidental da província de São Paulo, existia há vários anos um povoado de negros que se instalaram neste abrigo para fugir à escravidão que lhes impunham os brancos. Eles instalaram-se ali depois de mais de 100 léguas, ignorando fadigas infindas, e o perigo de serem mortos pelos selvagens, que nessas regiões são muito cruéis; e são principalmente inimigos dos negros, que chamam de jaguaras (cães) dos brancos. Tiveram que atravessar as mais espessas florestas e campos, expostos às picadas mortais das serpentes. Embarcavam às vezes em pirogas frágeis e imperfeitas, construídas conforme as circunstâncias.
Algumas negras acompanharam-nos em sua fuga; construíram pouco a pouco suas cabanas e tiveram filhos: viviam da caça, da pesca e de frutos silvestres. Eles nomearam um rei: os produtos de seus trabalhos eram da comunidade. Seguiam o culto dos portugueses e praticavam a reza todos os dias. Houve um deles que quis exercer a função de padre; queria pregar sempre; de início, foi ouvido, depois ridicularizado. 
 
Dois soldados perdidos
Muitos anos tinham transcorrido, e os negros nascidos neste refúgio já tinham filhos, quando sua má sorte levou até eles dois jovens portugueses. Eram soldados, e haviam feito parte da guarnição do forte de Guaytimirim, na fronteira dos domínios espanhóis. Este local, sitiado por longo tempo pelos espanhóis, teve que se render; mas esses dois jovens, não desejando cair prisioneiros, tinham fugido numa piroga; e, seguindo o curso do riacho que banha os muros do forte, desceram-no até ao Paraná. Como buscavam a desembocadura do Tietê para se encontrar com seus concidadãos, entraram pelo Paranapanema acreditando que era o Tietê, e o subiram até o refúgio dos negros, onde reconheceram seu erro.
 
Alarme dos negros
Desde o primeiro instante foram notados por dois jovens negros que foram ao povoado dizer que tinham visto dois estrangeiros de pele branca e longa barba (pois os portugueses não a haviam feito desde sua fuga) e que vestiam uniformes; o alarme foi geral; temiam serem descobertos; alguns se refugiaram na mata; outros se armaram de arcos, de flechas, de bastões e de alguns instrumentos de ferro que haviam sido trazidos pelos primeiros negros fugidos dos brancos. 
No entanto, os dois portugueses subiram até ao povoado, não imaginando que estariam cercados de negros; estes, vendo-os chegar sós, em farrapos e sem armas, foram ter com eles. Quando souberam por que tinham chegado até lá, conduziram-nos ao Rei; os dois viram-se cercados pelo povo já um pouco mais seguro, principalmente pelos jovens negros que viam brancos pela primeira vez.
 
Pela vida, o segredo
Os dois estrangeiros pediram que se lhes fizesse a graça de deixá-los retornar para os seus, prometendo que jamais sairia de suas bocas o segredo da existência do quilombo (é o nome que se dá a um agrupamento de negros fugitivos nas matas), mas o Rei e os velhos recusaram-lhes a demanda, persuadidos de que era impossível que essa gente guardasse segredo. Sabiam que brancos não se detêm a guardar promessa para negros. Houve alguns negros que propuseram matá-los, mas o Rei e os anciãos opuseram-se; mantiveram-nos detidos sob vigia. Pouco a pouco eles ganharam mais liberdade, porque, seja por se mostrarem contentes com sua sorte, seja pelos negros se fiarem de que eles não teriam meios para se evadir, estavam mais tranquilos.
 
Casamento e confiança
Casaram-se com jovens negras e tiveram filhos; o que lhes cativou ainda mais a confiança dos negros. Estes chegaram ao ponto de não mais guardar nenhuma medida de precaução para com eles. Mas foi assim então que a esperança de rever o país natal manifestou-se com mais força no coração dos dois brasileiros: eles conseguiram até seduzir um jovem negro fazendo-lhe atraentes relatos de seu país, e depois de haver preparado tudo que poderia servir à sua longa viagem, deixaram suas mulheres e crianças, saíram do quilombo, dizendo que iriam à pesca, e se afastaram o mais rápido possível. 
Logo que chegaram ao Paraná, o jovem negro, arrependendo-se do que havia feito, abandonou-os à sua revelia, e retornou ao povoado, que não estava ainda muito longe. Eles pouco se incomodaram com isso, e após suportarem durante três meses penas infindas, chegaram a Porto Feliz.
 
Segredo quebrado 
Eles cometeram a barbárie de contar sua aventura. A notícia se espalhou: que existia no Paranapanema um quilombo de mais de 300 negros, entre homens, mulheres e crianças. A cupidez exasperou os espíritos: uma multidão de aventureiros reuniu-se em Porto Feliz; prepararam-se as canoas, mais de 50 pessoas embarcam, calculando já o lucro de sua empresa. Não é o bastante para os dois delatores ter preparado a infelicidade de tantas criaturas, eles embarcam também. 
Após dois meses, a expedição chega ao lugar de seu destino, mas eles não encontram senão cinzas e solidão: os pobres negros pressentiram o que lhes ocorreria, incendiaram seu povoado, e se enfiaram interior adentro. Nossas gentes infatigáveis descobriram seu novo refúgio; caíram sobre eles; mataram muitos dos que ofereciam resistência, e, acorrentando aqueles que puderam agarrar vivos, amontoaram-nos nas canoas, e retornaram a Porto Feliz, onde os venderam. 
Assim esses infelizes, que almejaram somente sua liberdade, e que não fizeram nenhum mal, reviram o estado de sua escravidão, vítimas de sua humanidade e de seu excesso de confiança.
 
Origem da história
Quando eu estava em Porto Feliz, existia ainda um negro já muito velho que havia sido deste quilombo: ele contou esta história, aliás, muito conhecida, ao cirurgião-mor daquela cidade, de quem eu a tenho. O velho negro disse-lhe que logo que os portugueses surpreenderam a ele e aos seus no novo refúgio, subiu numa árvore onde não foi visto; mas que quando viu amarrarem todos seus companheiros e queimarem as cabanas, vendo que morreria se permanecesse sozinho exposto às onças e aos selvagens, preferiu a escravidão a uma morte certa, e se revelou aos portugueses.

Segunda História: o amante surpreendido

Uma camponesa em Curitiba, província de São Paulo, tinha uma intriga amorosa: ela e seu amante, cansados do incômodo causado pela presença do marido, resolveram matá-lo. A mulher aconselhou-o a se esconder, na obscuridade do crepúsculo, no quintal, e a espantar as galinhas, esperando que o marido fosse ver o que se passava, e receberia a morte. Com efeito, quando se fez noite, ouviram-se as galinhas a gritar; a mulher diz ao marido que vá ver; este, que estava cansado dos trabalhos no campo, não quis se levantar de sua rede por nada; quando ela viu que insistia em vão, saiu para advertir seu amante da indiferença de seu marido. Ao sair, ela recebe um tiro de fuzil que a estende por terra, e que não se destinava a ela. Ao barulho do tiro, o marido toma seu fuzil que estava carregado, acorre, vê vir em sua direção o assassino, que encontra a morte no lugar em que acreditava encontrar sua amante. Os dois culpados sobreviveram algumas horas, e confessaram seu crime. 
 
 
Terceira História: gemidos sufocados
Dois habitantes de São Paulo caçavam numa mata: eles ouvem gemidos sufocados; um deles quer de toda maneira ver o que é; ele avança lentamente, e avista dois homens que esfolam vivo um infeliz que amarraram a uma árvore, e ao qual haviam posto uma mordaça: tomado de horror e levado pela indignação, atira neles com seu fuzil, mas tem o azar de não feri-los. Um desses monstros crava subitamente um punhal no coração de sua vítima, toma seu fuzil, e estende por terra o generoso agressor; mas cai por sua vez, sob um tiro de fuzil que recebe do outro caçador. O companheiro de sua abominável torpeza foge.
 
 
 
Quarta História: o fogo na cabaça
(sobre Bartolomeu Bueno, o Anhangüera)
 
Um desses Sertanistas de São Paulo que descobriam o centro da América meridional atravessava o deserto de Goiás a Cuiabá: esta última cidade havia já sido fundada pelos que tinham descoberto a rota dos rios por onde se vai embarcando em Porto Feliz; o Sertanista descobria o caminho por terra.
Ele foi barrado em sua marcha por selvagens que estavam prontos para atacá-lo. Ele tinha pouca gente com ele; e se salvou por um estratagema. 
Disse-lhes em língua brasileira (Língua Geral Brasileira) que se eles não o deixassem passar, poria fogo em suas matas, seus campos e seus rios: que tudo queimaria, e eles também. E para provar-lhes a verdade do que dizia, tomou uma dessas cabaças, que encheu habilmente de aguardente sem que eles notassem, e foi ao rio onde fez como se a enchesse de água. Em seguida retornou a eles e pôs fogo no líquido: os índios ficaram impressionados de ver a água queimar, e temendo que ele incendiasse seu pequeno universo, deixaram-no passar, e a seu pedido, deram-lhe a ajuda de que eram capazes.
 
 
Quinta História: 200 mil Réis ao negro salvador
 
Um homem de Minas Gerais partia para uma pequena viagem: seu negro, que não estava ainda pronto, disse-lhe que não tardaria a alcançá-lo. Pouco tempo depois, este se pôs a caminho, e tendo chegado a certo lugar, notou que os rastros do cavalo de seu senhor, os quais conhecia muito bem, indicavam que entrara na mata; ao mesmo tempo, ficou surpreendido ao ver muitas pegadas de pés de negros que assinalavam uma saída dessa mata. 
Ele foi um pouco mais longe e não vendo mais nada, saiu da estrada, retrocedeu e entrou na mata. Seguiu os vestígios recentes que via, seja nos galhos, seja nas plantas, até que avistou a certa distância seu senhor amarrado a uma árvore, e cercado de negros fugidos que iam fazê-lo morrer. Então, sem pensar, correu até eles gritando:
– Sim, bem feito, matem este branco que tanto e fez sofrer; matem-no, pudéssemos nós matá-los a todos, esses brancos que nos tiranizam. 
E dirigindo-se a seu senhor, disse-lhe: 
– Ah, bom, é agora que tu vais me pagar as surras que tu me destes; eu mesmo quero te matar! Faça teu ato de contrição, chegou a hora derradeira! Meus camaradas, passem-me o fuzil, ponham-se todos lá, vocês verão como eu vou matá-lo!
Toma rápido o fuzil, reúne os negros de lado, faz mira na direção do seu senhor; desvia o fuzil e atira sobre os negros; lança-se ao meio deles e com súbitas e vigorosas coronhadas, os dispersa. Rompe prontamente as amarras de seu senhor, fá-lo montar a cavalo, dizendo-lhe para se afastar bem rápido. Ele se afasta também, mas a uma boa distância. 
De certo modo ele salvou a vida de seu senhor, o qual, extremamente sensível a um tão importante préstimo, declarou-o livre e lhe deu de presente 200.000 réis, proporcional a seus meios. O negro que estava muito ligado a ele, desejou permanecer para sempre a seu serviço.

 

Sexta História: a farinha salvadora

Um habitante da zona rural em Cuiabá tinha um escravo mulato muito mal intencionado; havia alguns meses que este escravo fugira, e o senhor não pensava mais nisso. Um dia, ele foi à cidade, e sua mulher ficou só com uma negra; o mulato apareceu armado e intimou-a a segui-lo, dizendo-lhe que se ela não o fizesse prontamente, ele a mataria. Sua senhora disse-lhe:
– Sim, eu vou te seguir, mas como sei o que tu queres de mim, e que talvez tu não me deixarás retornar à minha casa, deixe-me ao menos levar uma trouxa de roupa. 
O mulato deu-lhe permissão; ela entra no seu quarto, pega um saco de farinha, enfia-o no meio de alguma roupa, faz uma trouxa, confia-o à negra dizendo-lhe: 
– Fores saindo, deixe um rastro de farinha! 
Ela sai, caminha na frente, o mulato a segue de perto, e a negra com a trouxa na cabeça. O marido chega em casa, chama, ninguém responde. Ele busca de todo lado, e fica assustado em ver o rastro de farinha; segue-o até deparar com a cabana de seu mulato, na frente da qual reconhece sua negra. 
Sua extraordinária aventura pôs seu espírito de prevenção, ele arma sua pistola, e avança de galope. Com o barulho, o mulato sai, armado de seu fuzil; desentoca-se, e o tiro não sai. Seu senhor fere-o com tiro de pistola, e deixa-o sem condição de fazer mal algum: tomado de fúria depois de inteirado de seu proceder, ele o amarra à cauda de seu cavalo; e o arrasta até sua casa.
 
 
Última  História de florence o Padre Esperto
No tempo em que os jesuítas portugueses haviam fundado e governavam as missões portuguesas vizinhas às dos espanhóis no Paraguai, ocorreu que numa dessas missões ou povoados, os índios conspiraram contra seu missionário que era ao mesmo tempo seu pároco, e isto por causa de humilhações e arbitrariedades que ele praticava, em especial por ter à sua disposição suas mais belas mulheres e moças. 
Um dia resolveram fazê-lo perecer quando a noite viesse, pondo fogo à sua casa, e postando-se todos ao redor dela para matá-lo, caso saísse para se salvar. 
O pároco foi advertido, mas respondeu a quem o advertia: 
– Deixe-os fazer; não temo os malfeitores; ficarei em minha casa, e não morrerei, porque tenho o amparo de Deus. 
Aquele que o advertia acreditou realmente que ele era santo, e esperou o milagre. O pároco fingiu nada saber. Quando chegou a hora, em que, segundo o regulamento, todo o mundo deveria se recolher, ele precaveu-se de ficar em casa; foi se esconder na mata. Quando deu meia-noite, os conjurados cercaram sua casa e para lá dirigiram fogo; ela logo se incendiou, pois era de palha: os índios não o vendo sair, imaginaram que ele queimava também. Quando a casa virou cinzas, eles se retiraram: o pároco, então, foi se deitar sobre as cinzas. Quando amanheceu, todo o povo cercou-o, a maioria surpresa diante do evento, e os conjurados surpresos de vê-lo deitado sobre as cinzas de sua casa. 
Então ele se levantou e lhes disse: 
– É em vão que vocês atentaram contra mim; eu sabia que vocês queriam me queimar dentro da minha casa; mas dela não saí, porque tenho o amparo do Senhor. Fiquei no meio das chamas, mas elas me respeitaram, e eu não senti a menor dor; minhas vestimentas não tiveram o mínimo estrago, e eu permaneci intacto no meio das cinzas: eis aí uma prova clara de que tudo que faço é do agrado do Senhor. Desta vez eu não me vingo do mal que vocês quiseram me fazer; mas prestem atenção nisso, se vocês continuarem 
a ser maus, da mesma maneira que soube me livrar do fogo, saberei puni-los severamente.

 

Considerações finais

Langsdorff: “O rigoroso amor à verdade representa não uma vantagem, mas o dever de cada cronista de viagem”
 
Dois equívocos já detectados são aqui esclarecidos. A ilustração de Florence na edição de maio/2014 (Cenas do quotidiano em Cuiabá) representa, na verdade, uma casa com rótulas em Santos, em 1825. O outro equívoco é um conflito entre duas traduções do diário de Langsdorff. Nos diários publicados pela Fiocruz, em trecho referente a uma rusga com Taunay, Langsdorff desabafa: 
“Conheço os artistas, aceitei o Sr. Florence às suas próprias expensas, um jovem muito mais solícito que, espero, será de grande utilidade para mim daqui em diante”.
O mesmo trecho, em tradução citada pelo Prof. Komissarov, o desabafo é mais verossímil: 
“Uma vez que eu já conheço os artistas, contratei, às minhas custas, o senhor Florence, pessoa muito aplicada e que no futuro será de grande utilidade para mim”. 
 
As reportagens sobre a expedição chegam ao seu final. Mas, de alguma forma, os cientistas estrangeiros que visitaram o Brasil nas primeiras décadas do século XIX têm seus nomes associados à passagem pela Fazenda da Mandioca e a Langsdorff, seu ilustre proprietário. O lema de Langsdorff citado na abertura da série de reportagens é oportuno também para sua conclusão:
 “Cada observador tem seu próprio ponto de vista pelo qual vê e julga os novos objetos; tem sua própria esfera, na qual se esforça por incluir tudo que está em mais estreito contato com seus conhecimentos e interesses… Tratei de eleger o que me pareceu representar o interesse geral — usos e costumes de diferentes povos, seu modo de vida, os produtos do país e a história geral de nossa viagem. O rigoroso amor à verdade representa não uma vantagem, mas o dever de cada cronista de viagem. Com efeito, é escusado discorrer sobre aventuras numa viagem tão longa como a nossa, ou compor contos sobre a mesma: ela fornece uma quantidade tão grande de coisas admiráveis e interessantes que nos basta esforçarmos em tudo observar e nada deixar passar”.
 
 
Leia, a seguir,  a entrevista com o embaixador PAULO DE TARSO FLECHA DE LIMA
 
 
1ª Parte - Expedição Langsdorff

ILUSTRAÇÕES INDÍGENAS NA EXPEDIÇÃO LANGSDORFF

23 de outubro de 2015

A vida e a cultura indígena documentada pela Expedição Langsdorff

Guerrilhas. Ilustração de Rugendas, provavelmente do acervo da expedição.

 

 

Sepultamento de um indígena em Minas Gerais. Ilustração de Rugendas, provavelmente do acervo da expedição.

 

 

Botocudos, Machacalis, e Puris. Ilustrações de Rugendas, provavelmente levadas ilegalmente pelo autor.

 

RUGENDAS E AS ILUSTRAÇÕES SURRUPIADAS
As ilustrações dos índios brasileiros e as coleções de seus artefatos eram objetivos considerados muito importantes e uma das finalidades da expedição. O desligamento de Rugendas como ilustrador oficial durante a viagem a Minas Gerais incomodaria Langsdorff não só pela grosseria do pintor, mas também pelo oportunismo em desrespeitar o contrato assinado e manter muitas ilustrações em seu poder. As ilustrações de tropeiros, caçadas, paisagens, cerimônias indígenas e de representantes de várias tribos levadas para a Europa desfalcaram o acervo iconográfico da expedição. Enquanto lúcido, Langsdorff  lamentaria essa perda. Considerava obras as pertencentes ao Tzar. Rugendas as publicaria ilegalmente em seu famoso livro com cem litografias, “Voyage Pittoresque dans le Brésil”. 
Em seu relatório para o vice-chanceler russo em 18 de dezembro de 1824, Langsdorff explicava: “Ele entregou-me algumas cópias e esboços feitos a lápis, sem grande importância e praticamente inacabados. Conservou consigo os trabalhos bons e originais”.  
Langsdorff  freqüentemente solicitava em seus comunicados aos representantes do governo russo a intervenção para reaver oficialmente as ilustrações subtraídas ao acervo.
 
 

Ornamentos e flechas dos índios Bororo. Ilustrações de Adrien Taunay.

 

 

AS ILUSTRAÇÕES FEITAS POR FLORENCE E TAUNAY

 
As ilustrações de indígenas feitas por Hercule Florence e Aimé-Adrien Taunay se complementam. Florence valoriza a minúcia, o detalhe. É um ilustrador científico em sua essência. Os grupos indígenas que retrata se mostram em poses formais e suas pinturas e ornamentos são representados meticulosamente. O próprio Taunay se considera artista mais habilidoso e sensível que Florence. Pode-se mostrar tão detalhista como nas ilustrações dos ornamentos e flechas dos Bororo, mas esbanja maestria na composição de cenas e nas pinturas de paisagens. Capta o clima de embevecimento dos Bororo, que escutam absortos o relato de uma caçada, assunto que deveria ser obrigatório nas tardes da aldeia. Langsdorff teria experimentado muito orgulho e prazer em admirar a sensibilidade de Taunay nas ilustrações feitas na aldeia indígena de Pau-Seco. Não chegou a vê-las. Teria pensado que valera a pena mantê-lo na expedição. 
 
 
“Reunião dos índios Bororos no acampamento chamado de Pau-Seco. Estão atentos ao relato de um deles de uma luta contra uma onça”. Adrien Taunay, 1827.
 
 
Índio Munduruku, nas proximidades de Salto Augusto. Florence, maio de 1828.
 
 
“Vista da aldeia dos índios Bororo, chamada Pau-Seco, situada a 7 léguas do Paraguai e em seu lado esquerdo, no caminho de Vila Maria a Vila Bela de Mato Grosso”. Taunay, 1827.
 
 
 
Habitação dos Apiacás no rio Arinos. Abril de 1828. Hercule Florence. ‘Numa única aquarela, notável pela beleza iconográfica, Florence sintetiza o máximo de informação passível de registro gráfico. (…) Desenha, inclusive, o machado de pedra encabado, ainda em uso, pelo visto, àquela época’. (Mão esquerda do primeiro índio, à esquerda). (Profª Bertha Ribeiro)
 
 
 
“Alguns Bororos fazem uma visita aos Srs. Riedel e Taunay na casa que ocupam perto de sua aldeia”. Taunay, de costas e Riedel, na rede, recebem os visitantes.  Taunay, 1827. 
 
 
 
A vida e a cultura indígena documentada pela Expedição Langsdorff
 
 

As pinturas corporais são detalhadas e uma jovem índia é retratada de costas, para mostrar a pintura das pernas e nádegas. Na tese sobre iconografia indígena, ‘Contribuição da Iconografia para o Conhecimento de Índios Brasileiros no Século XIX’ (1970), Thekla Hartmann salienta o caráter etnográfico dos registros de Florence e recupera a declaração do etnólogo e explorador alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) dirigida em 1921 a Ataliba Florence, filho de Hércules Florence: “Seu pai foi um observador extraordinariamente exato. 
 
Tudo que escreveu ou desenhou é a tal ponto tão vivo e fiel que sua obra parece não a de um simples desenhista viajante, mas de um etnógrafo e geógrafo profissional”.  Thekla Hartmann considera Hércules Florence e Aimé-Adrien Taunay “os melhores desenhadores de índios de todos quantos visitaram o Brasil no século XIX, em termos do valor documental de seus trabalhos” e seus registros colocam em evidência grupos indígenas que estavam “até então ausentes do panorama iconográfico”.
‘Os 13 desenhos de Apiaká na Viagem fluvial são os primeiros dessa numerosa tribo que, já em 1850, entrara em franco declínio e, mais ainda, os únicos a retratarem os índios em seu primitivo estado, ainda inocentes do contato permanente com o branco. Nesse sentido, é escusado insistir no valor documental, histórico e etnográfico dos desenhos’ (Thekla Hartmann)