Línguas Indígenas

Viagem à babel amazônica

24 de março de 2004

Panorama da diversidade das línguas indígenas na Amazônia

 


Para a economia de mercado, a bacia amazônica é um vasto território quase inexplorado, abrigo de recursos naturais imensos, prontos para serem convertidos em bens industrializados. Ou uma reserva de terras para a expansão agrícola. Para os lingüistas, entretanto, a bacia amazônica é abrigo de algumas centenas de línguas originais, muitas ainda pouco conhecidas e que, quando estudadas, são capazes de abalar teorias consagradas por décadas.


A tensão entre o avanço da fronteira econômica e a sobrevivência dos povos amazônicos perpassa as páginas do recém-lançado livro “As línguas amazônicas hoje”, edição conjunta do Instituto Socioambiental (ISA), do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), da França, e do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), de Belém, Pará. Organizado pelos pesquisadores Francisco Queixalós (basco) e Odile Renault-Lescure (francesa), a publicação reúne as reflexões e experiências apresentadas no encontro “As línguas indígenas da Amazônia na ciência e nas sociedades”, realizado na capital paraense em março de 1996. É, na verdade, um documento sobre o esforço de pesquisadores de vários cantos do mundo para intensificar a troca de informações e constituir uma rede capaz de, inclusive, propor políticas para a proteção dos povos indígenas da região – os portadores de sua diversidade lingüística.


A preocupação dos lingüistas tem razão de ser. A estimativa de pesquisadores como o brasileiro Aryon Dall’Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, é de que só no fração brasileira da bacia amazônica havia cerca de 1.200 línguas indígenas à época da chegada dos europeus ao continente. Ao longo dos cinco séculos seguintes, foram sendo eliminadas, seja por conta do extermínio físico de seus falantes, seja pela progressiva substituição da língua nativa pela língua hegemônica – no caso, o espanhol e o português. Os especialistas calculam haver hoje na bacia amazônica cerca de 340 línguas indígenas, algumas ainda isoladas. Quarenta e cinco delas estão sob risco de desaparecerem do mapa nos próximos anos.


Estorvo histórico


Historicamente, a diversidade lingüística da América foi um estorvo para os planos de conquista e colonização empreendidos pelos europeus no continente. No século XVIII, tanto a coroa espanhola como a portuguesa chegaram a expedir ordens de universalização de seus respectivos idiomas entre as populações nativas da América, a fim de facilitar sua integração à dinâmica da economia colonial. Na verdade, as políticas de integração dos índios às sociedades nacionais só cessaram recentemente, com a redemocratização dos países sul-americanos, a partir dos 80, e a conseqüente emergência de entidades de defesa dos direitos indígenas e de organizações coordenadas pelos próprios índios. Hoje, muitos desses países, incluindo o Brasil, reconhecem constitucionalmente a pluralidade étnica como valor permanente de suas sociedades nacionais.


O risco de desaparecimento de uma língua se torna efetivo quando não há uma nova geração de usuários dessa língua. Isso ocorre, por exemplo, devido ao despovoamento acelerado que afeta algumas dessas sociedades. Ou porque o contato com a língua hegemônica é tão intenso que as novas gerações de falantes acabam abandonando a língua nativa. Invariavelmente, o risco de extinção das línguas indígenas hoje decorre do avanço das frentes econômicas em direção à terras habitadas por seus falantes. O que nos conduz à conclusão de que a pesquisa lingüística na Amazônia, nesses casos, é um corrida contra o tempo.


Mais informações: 
As línguas amazônicas hoje
Edição conjunta ISA, IRD, MPEG, 431 páginas. Preço: R$ 30,00
Onde encontrar: Instituto Socioambiental
Brasília: (61) 349-5114 ou isadf@tba.com.br
S. Paulo: (11) 825-5544 ou socioamb@ax.apc.org


Isolamento e originalidade


Postas em contato por muito tempo, línguas, assim como culturas, se influenciam mutuamente. Segundo o lingüista Aryon Dall’Igna Rodrigues, no caso das línguas faladas pelas populações que se estabeleceram na Amazônia, o isolamento ao longo de pelo menos 12 mil anos contribuiu para que adquirissem propriedades exclusivas. São fenômenos fonéticos, fonológicos, gramaticais e discursivos inexistentes em outras partes do mundo. Novas peculiaridades das línguas amazônicas têm sido decifradas nos últimos anos e o campo para a ampliação dessas pesquisas é ainda vasto. Freqüentemente a descoberta dessas peculiariedades modificam teorias da linguagem consagradas por décadas.


O livro “As línguas amazônicas hoje” está dividido em duas partes e, embora o título faça menção à atualidade da situação das línguas faladas na Amazônia, sua primeira parte traz textos que abordam questões de comunidades lingüísticas da Austrália, de Moçambique e da Catalunha, na Espanha. A segunda parte faz jus ao nome: traz 19 artigos exclusivamente sobre línguas faladas por povos indígenas que hoje habitam Brasil, Colômbia, Bolívia, Equador, Peru, Suriname, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa.


O livro traz ainda nove mapas com a distribuição geográfica das línguas amazônicas, incluindo suas respectivas famílias e troncos. Chama a atenção, nessa cartografia lingüística, o fato de a maior parte dos povos indígenas estar concentrada nas fronteiras entre os países – o que torna muitas das línguas amazônicas línguas transfronteiriças, ou seja, faladas por comunidades que se espalham por mais de um desses países. Essa concentração da diversidade lingüística nas fronteiras se deve tanto ao fato de serem estas as terras ancestrais dos povos que as habitam como ao fato de muitas sociedades terem sido para lá empurradas pelo avanço das frentes colonizadoras. Detalhe importante: o livro traz artigos em português, inglês, francês e espanhol.