IULI NASCIMENTO - Entrevista

Um indicador para o bem-estar social

16 de dezembro de 2007

IQVB é o novo índice parar avaliar as relações sociais, econômica e ambiental de maneira integrada. O geógrafo urbanista franco-brasileiro Iuli Nascimento fala com exclusividade sobre o tema à Folha d

Iuli Nascimento: A Terra contava com 2,5 bilhões de habitantes em 1950. Em 2000, a população mundial passou para 6 bilhões. As projeções do Banco Mundial anunciam 9,5 bilhões para 2050. Hoje, cerca de 32% da população mundial vivem em favelas.

 

 

 

FMA- Por que se deve criar um novo modelo de bem-estar social?
Iuli Nascimento
– Após a Segunda Guerra Mundial o conceito de “desenvolvimento” torna-se de grande importância e é definido pelo nível de evolução industrial trazido pelo crescimento econômico. Isso queria dizer que, para que um país pudesse ser considerado “desenvolvido”, era necessário ter um crescimento econômico significativo ao longo de um período.
Esse conceito reduz o desenvolvimento a uma simples representação do rendimento monetário da população, e por conseguinte, ao aumento da produção de bens correntes per capita, o que provoca esgotamento dos recursos naturais disponíveis.
Os conceitos de “crescimento” e de “desenvolvimento” possuem uma relação estreita e os economistas do pós-guerra medem o desenvolvimento econômico de um país pelo nível de crescimento do Produto Nacional Bruto per capita em preço constante.  Indiretamente, o PNB traduz um crescimento da taxa de consumo e de esgotamento dos recursos naturais por habitante.

FMA- Por que a preocupação com indicadores de desenvolvimento sustentável?
Iuli –
Porque temos que mudar nosso comportamento, antecipar as grandes mudanças planetárias e propor um novo modelo de crescimento econômico que não penalize a evolução da população humana.
A Terra contava com 2,5 bilhões de habitantes em 1950. Em 2000, segundo a ONU, a população mundial passou para 6 bilhões. As projeções do Banco Mundial anunciam 9,5 bilhões para o ano 2050. Hoje, cerca de 32% da população mundial vivem em favelas. Cerca de 24% dessa população vivem nos limites de pobreza.
Em termos globais, poucos esforços foram feitos para evitar as emissões de gases poluentes e a desertificação provocada pelo uso indevido de recursos em zonas naturais que promovem o crescente aquecimento do planeta.
As desigualdades territoriais e sociais crescentes podem gerar conflitos graves entre culturas. A população urbana do mundo aumentou de 733 milhões (1950) para 3 bilhões de indivíduos (2003) e os centros urbanos não estão preparados para responder às necessidades desse crescimento demográfico.

FMA – E o petróleo, uma energia não-renovável que virou sinônimo de bem estar ?
Iuli –
De fato, o petróleo tornou-se a representação do bem-estar das nações. Por ser uma energia não-renovável pode ameaçar a segurança econômica mundial. Sua utilização provoca a emissão do principal gás do efeito de estufa (CO2) que contribui para o aquecimento do planeta. É fundamental diminuir a sua utilização ou melhorar o desempenho técnico dos veículos híbridos.
A partir de anos 60, o conceito de desenvolvimento sugere objetivos a serem atingidos e meios para se chegar a esses fins: ritmo da urbanização, nível de alfabetização e de cultura, redução das desigualdades sociais, da taxa de desemprego e o nível de pobreza da população.
No final dos anos 80, o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) propõe o IDH (Indicador de Desenvolvimento Humano) colocando o homem no centro do desenvolvimento.
Quando se trata de definir o que é desenvolvimento, aparecem as dificuldades perante as exigências do desenvolvimento sustentável e dos danos causados ao meio ambiente.
Os índices de desenvolvimento humano (IDH), de pobreza humana (IPH) e de participação feminina (IPF), nasceram em um contexto crítico ao Produto Interno Bruto (PIB), que define o desenvolvimento pelo simples ângulo econômico. Para planejar ações são necessários instrumentos de observação e de acompanhamento das políticas públicas.
 
FMA- A região Ile-de-France criou um programa especialmente para elaborar indicadores. Como foi?
Iuli –
A região de Paris-Île-de-France pretende ser a primeira região ecológica da Europa. Para atingir tal objetivo necessita de instrumentos de controle e de avaliação das políticas públicas. Trata-se de analisar as evoluções recentes do ecossistema urbano e de fornecer um quadro coerente às suas políticas setoriais, como coleta de lixo, tratamento de água e esgoto, deslocamentos urbanos. 
Esses indicadores fazem parte de uma série de instrumentos estratégicos de planejamento, propícios ao desenvolvimento sustentável.
Eles permitem uma observação transversal (interdisciplinar). Hoje, sabe-se que a exclusão social, o desenvolvimento econômico e a ecologia estão interligados. Tratar as esferas social, econômica e ambiental de maneira integrada é uma necessidade das sociedades modernas.

A chamada «pegada ecológica» só mede a qualidade global do ecossistema urbano, mas esse indicador não nos dá a responsabilidade dos agentes poluidores.

FMA- Mas já existem indicadores ligados ao desenvolvimento sustentável…
Iuli
– Sim, mas eles são parciais. Por exemplo, a chamada pegada ecológica só mede a qualidade global do ecossistema urbano, mas esse indicador não nos dá a responsabilidade dos agentes poluidores.

FMA- O que é pegada ecológica?
Iuli
-A pegada ecológica é um indicador de síntese que permite considerar tanto as pressões que exercem as atividades humanas sobre os meios naturais quanto a capacidade de regeneração dos ecossistemas (água, ar, jazidas e materiais do subsolo) situados dentro e fora dos limites administrativos de um território ou de um país.  O cálculo da pegada ecológica permite avaliar a capacidade dos recursos naturais, de mobilizar os recursos necessários limitando e/ou racionalizando o seu consumo externo. Trata-se de melhor analisar para reduzir e/ou compensar o consumo destes recursos naturais das regiões ou países vizinhos.
Para prever e preparar o futuro da região de Paris (Ile-de-France), o Conselho Regional [correspondente aos governos estaduais no Brasil] solicitou ao IAURIF a construção desse programa de indicadores de desenvolvimento sustentável. Nós fizemos uma seleção dos indicadores da União Européia, do Instituto Francês do Meio Ambiente, do INSEE [correspondente do IBGE no Brasil], e os indicadores técnicos específicos à região de Île-de-France. Com o apoio da Missão de Informação e de Prevenção da Exclusão Social, tratamos de regionalizar os Indicadores de Desenvolvimento Humano, de pobreza humana  e de participação feminina , proposto pelo PNUD. Atualmente uma base de indicadores está em constante evolução.

FMA- Como identificar a qualidade ecológica da região em um indicador?
Iuli 
– Nós desenvolvemos uma logística para regionalizar o índice de bem-estar das nações proposto pelo consultor canadense Robert Prescott-Allen e adaptado à nossa realidade. Para apreender um território é preciso levar em conta o índice de qualidade de vida, ou seja, saúde e população, condição de vida, educação e cultura, coletividade e igualdade. Também um indicador da qualidade ambiental, o ar, água, solo e utilização de fontes naturais. E que integre, também, a economia, como adívida coletiva, inflação, desemprego.

FMA- Esses indicadores são interdependentes?
Iuli –
Completamente. Por exemplo, a biodiversidade influi ao mesmo tempo sobre a qualidade do ecosistema e sobre a saúde. Os 80 indicadores são classificados entre  zero e 100, relacionados e ponderados uns com os outros entre nível de importância, variando entre 1 e 4 em função do indicador. Essa ponderação é totalmente subjetiva: o bem-estar não é um conceito universal. É preciso, então, encontrar um consenso entre os especialistas de diferentes disciplinas.

FMA- Esse indicador é aplicável em outras regiões?
Iuli –
Sim, depois de trabalhar durante um ano na metodologia de cálculo do bem estar social, o índice deverá estar em operação no final de 2007.  Os departamentos de Seine-Saint-Denis e de Essone já estão interessados em participar do projeto piloto, assim como várias capitais européias. Teremos assim um instrumento de comparação da qualidade de vida  e de bem estar entre regiões metropolitanas.

O governo brasileiro lançou uma série de programas sociais (Bolsa Família e Fome Zero) e o resultado desses programas deverá ser acompanhado por indicadores dequados.


FMA- Você acha que o Brasil pode adotar esse procedimento para medir o seu índice de qualidade de vida e de bem-estar?
Iuli –
A metodologia é válida em qualquer lugar, tanto na Europa quanto no Brasil. Tudo depende da disponibilidade e da comparação dos dados. Os indicadores do PNUD (IDH+IPH+IPF) são facilmente aplicáveis no Brasil. A pegada ecológica também pode ser calculada sem grandes dificuldades. O governo brasileiro lançou uma série de programas de cunho social (Bolsa Família, Programa Fome Zero) e o resultado desses programas deverá ser acompanhado por indicadores adequados. Um trabalho de seleção de indicadores para se acompanhar as políticas sociais do governo seria de grande auxílio ao executivo brasileiro.

Mais informações :
Iuli Nascimento
Institut d’Aménagement et d’Urbanisme –  IAURIF
15, Rue Falguière
75740 Paris cedex 15
tel + 33 (1) 53 85 79 84
iuli.nascimento@iaurif.org

 

SUMMARY

Iuli Nascimento – Interview

Social well being index
IQVB is the new index for evaluating integrated social, economic and environmental relations. The Franco-Brazilian geographer and urban studies expert, Iuli Nascimento, gives an exclusive interview regarding the matter to Folha do Meio.

The Franco-Brazilian geographer and urban studies expert, Iuli Nascimento, coordinator of the study related to sustainable development at the Urban and Regional Planning Institute for the Paris Île-de-France District (IAURIF), discussed the innovations involved   in his work compiling indicators that can efficiently assess the quality of life in the urban environment. Nascimento has contributed toward the Institute’s achievement of the Quality of Life and Well Being Index (IQVB), which enables the visualization of the decrease of human activities and nature as well as an understanding of phenomena, identification of those responsible and forecast of  impact of a public policy.w

Concept of development
After the Second World War, the concept “development” took on great importance and was defined by the level of industrial evolution resulting from economic growth. That is to say that in order for a country to be regarded as “developed,” it was necessary to have undergone significant economic growth over a certain period of time. This concept reduced development simply to a reflection of the monetary yield of a populawtion which resulted in increased production of goods per capita which in turn caused shortages in available natural resources. The concepts of “growth” and “development” are closely related and post war economists measure economic development of a country on the basis of Gross Domestic Product (GDP) growth per capita in terms of constant purchasing power currency.   
The GDP can loosely be translated into the growth rate of consumption and depletion of natural resources per inhabitant.


Planetary changes
We have to change our behavior, foresee enormous planetary changes and propose a new economic growth model that does not penalize the evolution of the human population.
There were 2.5 billion inhabitants on earth in 1950.  In 2000, according to the UN, the world population had soared to 6 billion. World Bank forecasts call for 9.5 billion in 2050.  Today, nearly 32% of the world’s population lives in slums. Roughly 24% of these people live under the poverty line. In global terms there is little being done to prevent pollution from gas emissions or improper use of resources in natural environments often resulting in deserts and in turn causing global warming. Increasing territorial and social inequalities can provoke serious conflicts among cultures. The world’s urban population has increased from 733 million (1950) to 3 billion people (2003) and urban centers are not prepared to respond to the needs of this demographic growth.

 
Oil energy

Oil has come to represent the well being of nations. However, since this is a non-renewable energy resource, it can threaten the world’s economic security. Its use results in the emission of the leading gas causing the greenhouse effect  (CO2) which contributes to global warming.  It is essential that we decrease its use and improve the technical performance of hybrid vehicles.  Beginning in the 1960s, the concept of development has included objectives to be fulfilled and means by which to achieve them:  the pace of urbanization, literacy and cultural levels, reduction of social inequalities, unemployment rates and the level of poverty of a population.


Ecological Tracking
So-called ecological “tracking” only measures the overall quality of an urban ecosystem, but this indicator does not assign responsibility for the pollution agents.  Ecological tracking is a summary indicator that enables the pressures exerted by the activities of human beings on the natural environments and the ability to regenerate ecosystems (water, air, mines and underground materials) located within and outside the administrative limits of a territory or a country. The ecological tracking calculations enable the capacity of the natural resources to be evaluated, mobilization of the resources needed limiting and/or rationing their external consumption.  In other words, it is a better method of analyzing them to reduce and/or offset consumption of these natural resources of neighboring regions and countries.