MARANHÃO 3×4

27 de agosto de 2014

A cultura e a diversidade maranhense pelas lentes de Geraldo Kosinski

O trabalho de Geraldo Kosinski tem a contribuição da pesquisadora e especialista em preservação do patrimônio cultural VANDI FALCÃO. 
O resultado final será a publicação de um livro de fotografia com textos de personalidades maranhenses importantes, ligadas à cultura local.

 
A técnica e a arte de GERALDO KOSINSKI
▶ Diplomado em Comunicação Social, Geraldo Kosinski conheceu o Maranhão em 1986 quando integrou a equipe como fotógrafo do Projeto Embarcações do Maranhão (Convênio FINEP/Seplan-MA). Após três anos, finalizado esse Projeto, a aguda capacidade de observação dos fatos, levou esse carioca a tornar-se maranhense por força do compromisso que consigo se firmou: continuar a viajar pelo Estado com o intuito de registrar a cultura e a biodiversidade maranhense. Assim nasceu um projeto particular no qual aliou a sensibilidade, técnica e arte. 
Kosinski não só registra ou documenta o que vê, mas também conduz seu trabalho a um plano estético, por meio do qual comprova sua grande sensibilidade artística. ▶ e-mail: studiokosinski@centroin.com.br
 
 
 
Kuru’mi  (do tupi),  no Rio Alegre  no Povoado de Betânia,  município de Santo Amaro,  área do  Parque Nacional  dos Lençóis Maranhenses.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Aldeia Guajajara Cacique Virgulino Canto do Rio, em Grajaú.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ancoradouro  em Apicum Açu,  município situado na  APA  das Reentrâncias Maranhenses,  unidade  de conservação brasileira de uso sustentável

 

As belezas naturais do rio Gurupi, em BOA VISTA DO GURUPI

 

Vandi Falcão – Entrevista  

 

Vandi Falcão é pesquisadora e especialista

em preservação do patrimônio cultural

 

 

 

Folha do Meio – O que é o Projeto Maranhão pelo qual Geraldo Kosinski está tão dedicado?

Vandi Falcão – É um projeto de documentação fotográfica sobre a cultura, os costumes e o modo de vida dos habitantes do Estado do Maranhão.  Você sabe que o Maranhão é, em extensão territorial, um dos maiores do Brasil, e está na fronteira entre a Amazônia e a Caatinga, região Norte e Nordeste.
 
FMA – Qual a importância do projeto que é tão local:
Vandi – Como eu disse, no Maranhão começa a Amazônia e termina a Caatinga e vice-versa. Todo o Estado tem uma diversidade riquíssima, tem expressividade, tem uma quantidade incrível de manifestações culturais materiais e imateriais. A cultura maranhense compõe um fantástico universo em permanente transformação, acentuada a partir da década de 70, com o Projeto Ferro Carajás que alavancou o processo da agricultura tradicional de subsistência para o da industrialização.
 
FMA – O projeto encabeçado por Geraldo Kosinski já começou?
Vandi – Sim, já começou em 2007 e a obra fotográfica, de cunho mais artístico do que documental, percorreu centros urbanos e áreas rurais importantes.
Incumbido do reconhecimento e da proteção desse patrimônio, o governo necessita potencializar suas metodologias de ação para estabelecer medidas de proteção compatível com a diversidade desse patrimônio cultural, diante da rapidez das transformações que vêm ocorrendo nos centros urbanos e nas paisagens rurais, consequentemente seu ritmo e modo de vida, desvinculando-as de seus referenciais históricos.
 
FMA – A intenção do Geraldo é percorrer todo o Estado?
Vandi – Isso mesmo, numa varredura em todo o território maranhense, num total de 170 municípios. Geraldo vai visitar tanto conjuntos urbanos quanto as áreas rurais. O objetivo é captar cenas do cotidiano e o modo de vida do maranhense; as manifestações culturais materiais e imateriais,  religiosas, entre outras. O importante é interpretar a multiplicidade de paisagens naturais, econômicas, sociais e culturais.
 
 
À ESQUERDA desmatamento no Município de Buritucupu, em área invadida por posseiros. Após a indenização dos proprietários a posse é regularizada pelo Incra. Os próprios posseiros desmatam e comercializam a madeira.
A DIREITA Alcântara – a cidade  que parou no tempo – guarda um conjunto de mais de 300 construções coloniais,  a maioria em ruínas.  Igrejas e palácios são heranças do período de ouro da vila que, no século 18, teve seu apogeu com as lavouras de cana-de-açúcar e de algodão.
 
 
 
FMA – E qual será a conclusão do trabalho?
Vandi – A conclusão desse trabalho resultará num acervo de fotografia sobre a cultura e o modo de vida no Estado do Maranhão e posterior publicação de um livro. 
Com certeza todo este material poderá servir como instrumento de análise sobre a realidade do povo maranhense e levá-lo a melhor refletir sobre o seu cotidiano e decidir sobre seu amanhã.
 
OS NATURALISTAS VIAJANTES
 
FMA – Você está seguindo a série que estamos fazendo na Folha do Meio sobre os Naturalistas Viajantes, dando ênfase agora à Expedição Langsdorff..
Vandi – Sim, essas viagens e pesquisas são algo fantástico. Podemos dizer que é a segunda descoberta do Brasil. 
Todos os viajantes naturalistas do século 18 e 19, integrantes das expedições científicas como Peter Lund, Auguste Saint-Hilaire, Spix, Martius, Langsdorff, Debret, Rugendas, que vieram ao Brasil para estudar os diversos aspectos da natureza, os hábitos e costumes dos habitantes, se valiam das cadernetas de viagem, de desenhos para documentar com detalhes o que viam durante as viagens. 
Com seus relatos e representações pictóricas de paisagens amenas, visões paradisíacas e costumes genuinamente brasileiros, formaram uma imagem de um Brasil exuberante e influenciaram na formação de um olhar sobre o Brasil, com a qual escritores se identificaram para a formação da literatura nacional.
 
FMA – São relatos importantíssimos e com uma característica singular: espontaneidade.
Vandi – Mais do que isto. Quem os lê e estuda percebe que no modo de construção das imagens não há espaço para a “encenação”, a prévia organização das cenas, em que tudo é arquitetado nos diferentes tipos de imagens produzidas. Não é um devaneio especulativo. 
O resultado não é um mundo ideal, planejado por uma ideia intencional, mas o registro documental da materialização real de cada lugar sem artificialidade diante dos olhos do autor.
 
FMA – Tem outros brasileiros que chama sua atenção, além do Geraldo Kosinski?
Vandi – Tem vários brasileiros. Já no século 20, um ano após a Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade, viajante e fotógrafo aprendiz com sua máquina fotográfica Kodak, apelidada por ele de “codaquinha”, parte em busca das raízes do Brasil. 
Do interior paulista, passa pelas cidades mineiras e, em empreitadas mais longas, no Norte e Nordeste do País onde realiza duas viagens etnográficas, com o objetivo de estudar a cultura de cada região. 
Durante o trajeto, fez registros fotográficos e escritos sobre a fauna e a flora; o patrimônio histórico tangível e não tangível; sua gente, costumes e tradições; o universo do trabalho e do trabalhador. 
Essas viagens com seu inseparável instrumento de registro de imagens e o diário de bordo marcaram profundamente o pensamento e a obra de Mário de Andrade. Ele se descobre fotógrafo que redescobriu o Brasil e o interesse pela identidade cultural.
 
FMA – É também o que fez Guimarães Rosa que escreveu sobre o que percorreu, sobre o que visitou, sobre o que viveu no sertão.
Vandi- Isso mesmo.  Todos esses viajantes seguiram os preceitos de Rousseau: para ler o livro da natureza, deve pisá-la com seus próprios pés. Porém, com o olhar “armado” colado no real, tanto para o paradisíaco quanto para a triste realidade de quem vive longe dos grandes centros urbanos.
 
Álbum capta o pulso e o coração do Maranhão
 
FMA – Justamente o que faz Geraldo Kosinski no recorte geográfico do Maranhão…
Vandi – Isso mesmo, mas não com a caderneta de viagem e sim com a máquina fotográfica. Assim ele vai mostrando uma parte do Brasil que o Brasil não conhece, principalmente para os “brasileiros de gabinete”. O legado será o registro etnográfico da cultura maranhense.
 
FMA – O que mais você pode dizer sobre este Álbum Maranhão?
Vandi –  Olha, o Álbum Maranhão é bastante extenso e fascina pela quantidade e diversidade de imagens coletadas pelo Geraldo  cuja singularidade consiste na relação com o universo que retrata.
A verdade é que o grande álbum do mundo, em geral, só se abre para aquele que sai do seu espaço particular para vê-lo. 
 
O Estado do Maranhão tem sido mostrado e conhecido aos brasileiros e estrangeiros permitindo-os tecerem interpretações à distância e dar a exata medida do raro e do longínquo. Neste álbum a série de imagens pretende dar visibilidade a uma certa geografia, extraindo do isolamento cidades e povoados sem a necessidade de sairmos de nossa poltronas. É uma forma tranqüila de “degustar o diverso”,