Os riscos de mergulhar

Um inocente mergulho pode se transformar em tragédia

19 de abril de 2004

Em tempo de ecoturismo, o saudável contato com a natureza. Nada melhor que mergulhar num rio ou numa cachoeira. Mas há que se ter  prudência e muito cuidado. Os acidentes por mergulho estão aumentando e atingem predominantemente os jovens até 19 anos. No caso de rios e praias, o cuidado deve ser dobrado: há sempre… Ver artigo

Em tempo de ecoturismo, o saudável contato com a natureza. Nada melhor que mergulhar num rio ou numa cachoeira. Mas há que se ter  prudência e muito cuidado. Os acidentes por mergulho estão aumentando e atingem predominantemente os jovens até 19 anos. No caso de rios e praias, o cuidado deve ser dobrado: há sempre o risco de se deparar com um obstáculo que antes não estava ali.No início da década de 80, um livro autobiográfico de um jovem liderou por muito tempo o ranking dos mais vendidos do país: era Feliz Ano Velho, escrito por Marcelo Rubens Paiva, transformado logo em seguida em filme homônimo, e cujo núcleo da narrativa era o drama de um jovem universitário que, após calcular mal a profundidade de um lago, mergulhara e batera a cabeça, tornando-se tetraplégico.
O livro relata a passagem traumática de um jovem de classe média para o universo dos deficientes físicos, no qual a perspectiva de futuro, o corpo, a sexualidade, os papéis sociais, a vida enfim, são brusca e completamente redefinidos. De lá para cá o autor do livro venceu os desafios que inicialmente lhe pareciam intransponíveis, tornou-se um escritor de sucesso, mas, infelizmente, o drama vivido pelas centenas de pessoas, sobretudo jovens, que anualmente engrossam o rol dos deficientes físicos em função de mergulhos, repete-se e multiplica-se a cada ano, principalmente no verão, quando o fluxo de pessoas em praias, lagos, rios, cachoeiras e piscinas aumenta consideravelmente. 
Estudos desenvolvidos pelo Centro de Pesquisas em Educação e Prevenção da Rede SARAH de Hospitais do Aparelho Locomotor, a maior instituição de saúde do país especializada na reabilitação de portadores de deficiências físicas, apresentam dados preocupantes: os acidentes por mergulho ocupam a quarta posição entre as causas de lesão na medula espinhal, sendo a primeira causa de lesões medulares cervicais, as mais graves e cujo grau de incapacitação e comprometimento das funções do corpo é muito mais abrangente. Em alguns casos de acidentes por mergulho, a falta de socorro apropriado e imediato pode levar à morte por asfixia, devido à interrupção da enervação dos músculos responsáveis pela respiração. Os acidentes dessa natureza incidem predominantemente em indivíduos muito jovens, situados entre os 15 e os 19 anos.
 
Como acontece
As deficiências adquiridas nesse tipo de acidente são geralmente causadas por fratura em uma ou mais vértebras da coluna cervical (as sete primeiras da coluna, localizadas na região do pescoço). Isso se deve ao fato de que, nesses acidentes, as pessoas geralmente batem com a cabeça no fundo do local em que mergulharam, em algum obstáculo como banco de areia ou pedra, por exemplo, ou na própria superfície da água. Após o impacto da cabeça, o pescoço é flexionado enquanto o corpo continua movendo-se para a frente, forçando as vértebras cervicais, o que pode causar sua fratura (ver figura) e danos à medula espinhal. A medula espinhal, localizada no interior da coluna vertebral, é a estrutura responsável pelo trânsito de informações sensoriais e motoras entre o cérebro as demais partes do corpo.
As fraturas de vértebras cervicais (as vertebras do pescoço) podem ferir a medula espinhal, causando tetraplegias. As tetraplegias provocam a perda de movimentos e sensibilidade, totais ou parciais, a partir do ponto ferido, geralmente paralisando braços e pernas, além de comprometerem outras funções do corpo, como os sistemas urinário e digestivo, entre outros.


Consequências Socioeconômicas
O tecido nervoso que constitui a medula espinhal não se regenera quando danificado. Por isso, as lesões medulares são irreversíveis, não podendo ser curadas. A reabilitação, nesses casos, é a forma encontrada para que o indivíduo adquira o máximo de independência nas atividades diárias, apesar das limitações impostas pela lesão. A prevenção é a principal medida contra a grave realidade dos acidentes por mergulho. É preciso alertar a população, sobretudo os jovens, maiores vítimas desse tipo de acidente, sobre os riscos contidos em um simples mergulho.
Além de transformar profundamente a vida dos acidentados e de seus familiares, os danos decorrentes de uma lesão medular repercutem em toda a sociedade, tendo em vista a necessidade de investimento de recursos públicos em políticas de saúde voltadas para o atendimento desse universo de vítimas. Os lesados medulares, por outro lado, têm suas chances de inserção no mercado de trabalho drasticamente reduzidas, em função das limitações adquiridas, agravadas pelos preconceitos que a sociedade dispensa aos portadores de deficiência física.
Mergulhar em um local conhecido ou repetir sempre o mesmo gesto já repetido antes ao cair na água não é garantia de um mergulho seguro. No caso de rios e praias há sempre o risco de deparar-se com um obstáculo que antes não estava ali. Há ainda relatos comuns, em praias, lagos, rios e piscinas, de pessoas que mergulharam e adquiriram uma lesão com o simples impacto da cabeça contra a superfície da água. A voz de quem viveu essa experiência, literalmente inesquecível, diz que a melhor prevenção é nunca mergulhar de cabeça e nunca brincar de empurrar amigos na água.


* Texto produzido pelo Centro de Pesquisas em Educação e Prevenção da Rede Sarah de Hospitais com base em dados coletados entre pacientes portadores de lesão na medula espinhal em função de mergulho, atendidos no período de 1995 a 1998 nas unidades de Brasília e Salvador. A Rede Sarah de Hospitais é uma entidade pública, mantida exclusivamente com recursos do Governo Federal e oferece tratamento de reabilitação a portadores de incapacidade física em suas unidades de Brasília, Belo Horizonte, São Luís e Salvador, atendendo gratuitamente todas as faixas da população.
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