Nascentes do Parnaíba

O triste fim de um Parque

27 de setembro de 2005

Nascentes são sagradas. Não se mata uma nascente nem tampouco um parque ao nascer.

Inacreditável e preocupante a denúncia da reportagem “O triste fim de um parque”, na edição 160 de agosto. Como signatário da “Carta do Parnaíba” em audiência pública e participante da “Expedição Parnaíba Vivo”, dois eventos que mobilizaram o povo parnaibano para a sua criação em 2001, não posso deixar de levar minha indignação perante os rumos que se pretende dar ao parque, isto é, anular o decreto de criação e incorporar a área para a expansão da fronteira agrícola.
 O parque foi concebido como vital para proteger as frágeis nascentes do maior rio genuinamente nordestino. Ele é tudo para a população ribeirinha que depende do “Velho Monge” de barbas brancas, como carinhosamente o tratam, definido pelo poeta maior Da Costa e Silva.
Lembro-me bem do dia 16 de abril de 2001, quando começou meu encantamento pelo rio. Saímos bem cedo de Brasília, o assessor Rui Junqueira representando o presidente da Codevasf, enquanto eu teria uma tarefa deveras insólita: descer o rio em missão de diagnóstico ambiental. O comandante Monteiro disse que não iríamos pelo Jalapão, mas por Barreiras, para abastecimento. A mudança de rota permitiu sobrevoar as cabeceiras do Parnaíba e parte do “deserto de Gilbués”, que tem área de cerca de 800 km²(80 mil hectares), onde estão as nascentes dos afluentes Uruçuí Vermelho e Gurguéia. Com as cartas topográficas à mão, os acidentes surgiam como por mágica.
Ainda guardo na retina e em relatos a beleza daquelas imensidões desoladas. E concluímos, o Rui, o comandante e eu: “Essas nascentes devem ser protegidas!”. O Monteirinho não perdia tempo, ia lançando lá embaixo pela janelinha punhados de sementes de pitanga e sirigüela: “É minha contribuição para ajudar a salvar esses ermos”. Hoje ele está aposentado, quem sabe as sementes germinaram e se tornaram arbustos e estes formaram pequenos bosques… e ele junto a seus netos relembra esses bons e velhos tempos”.
Foi uma memorável festa popular, jamais as duas cidades-gêmeas de Alto Parnaíba e Santa Filomena vira tantas autoridades: ministro Sarney Filho, governadores e prefeitos, presidentes de estatais, juízes e promotores, a comunidade em peso. Uma velha aspiração foi publicada na Carta, construída pelo juiz Marlon Reis, a advogada Rosane Ibiapino, o geógrafo Costa Silva, a agrônoma Valmira Mecenas, os biólogos Paulo Brum e Manoel Borges, e o geólogo Carlos Luz, o Centro de Defesa das Nascentes do Parnaíba.
No dia seguinte largamos rumo ao mar no barco PIPES, ao famoso delta a 1.300km e 22 dias rio abaixo, a bordo vinte expedicionários e o Globo Repórter. E foi aí que conheci a beleza do rio e da sua gente simples e hospitaleira nas 15 audiências públicas, saudando as chegadas e saídas nos cais dos portos. Vi os buritizeiros, os carnaubais e babaçuais, araras azuis em bandos, peixes em piracema, as corredeiras ou “batedeiras”, os talhados ao sol; o cerrado, a caatinga, a pré-Amazônia, o mangue. Mas conheci a degradação do rio nos esgotos, nas escassas matas ciliares, nos encalhes do barco, na queda de barrancos. E as autoridades e comunidades revoltadas com a invasão do cerrado pela soja, sem nenhum planejamento, onde a agricultura de fronteira teima em reinar absoluta na imensidão das chapadas. O diagnóstico pode ser lido nos relatos dos expedicionários do Ibama, da CPRM, do Sebrae, do BNB/Alvorada, do Ministério Público, da Codevasf, coordenados pelo CDPar de Alto Parnaíba.
Mas e o Parque? O Parque Nacional das Nascentes do Parnaíba criado naquele dia? Até quando esta e outras unidades de conservação ficarão à deriva, sem demarcação e sem planos de manejo? Urge a união de todos em defesa das nascentes do Velho Monge e salvar sua rica biodiversidade natural e hídrica nessa importante unidade de conservação. As nascentes são sagradas. Não se mata uma nascente nem tampouco um parque ao nascer. Não se mata as esperanças de um povo.
(*) Geraldo Gentil Vieira
geraldo.gentil@codevasf.gov.br
Centro de Defesa das Nascentes
 do São Francisco – Iguatama-MG