Pegadas Brasil: um convite para conhecer nosso rastro

17 de fevereiro de 2004

O Pegadas Brasil integra a Formação Holística de Jovens da Universidade da Paz. Em 2000, foram treinadas 466 pessoas


 





Fotos: arquivo Projeto Pegadas Brasil



Tinha uma pegada de Guaximim no meio do caminho…



O curso de rastreador despertou futuros líderes da causa ambiental.


Criado em 1986 por John Stokes, com sede em Corrales, Novo México (EUA), o The Tracking Project, do qual o Pegadas Brasil é uma extensão, dedica-se à educação comunitária por intermédio das chamadas artes da vida. Através do estudo de pegadas é possível identificar o animal, seu peso, idade, de onde veio, sua velocidade, há quanto tempo o animal está naquela trilha, se estava ferido, caçando, ou mesmo em que direção olhou. Estudando pegadas de animais, o que se espera é podermos perceber melhor as nossas, com vistas a traçar objetivos mais seguros em nosso dia a dia.






Estudando pegadas de animais, o que se espera é podermos perceber melhor as nossas, com vistas a traçar objetivos mais seguros em nosso dia a dia


O Colégio Marista de Brasília, em face do êxito do acampamento de junho, que realizou o curso básico, está programando outras duas turmas ainda para 2001. Nos Estados Unidos e em diversas partes do mundo, mais de 100 mil pessoas já o fizeram. O curso básico de Rastreador é ministrado em 2 a 4 dias, dependendo do que for estabelecido. Em nível avançado, podem ser feitos programas específicos para escolas, empresas ou grupo. A equipe de monitores é interdisciplinar, incluindo enfermagem, artes, psicologia, alpinismo, fonoaudiologia, entre outras habilidades. Em 2000, foram treinadas 466 pessoas, em 15 cursos, inclusive para o WWF, em várias regiões do Brasil. O Pegadas integra a Formação Holística de Jovens da Universidade da Paz.


Foram três dias e duas noites de junho na fazenda Barra do Dia, perto de Brazlândia (DF). Chegamos no meio da tarde de uma sexta-feira e voltamos ao entardecer de domingo. Professores, convidados e 25 alunos do 2º Grau do Colégio Marista de Brasília formaram um grupo que só aparentemente era heterogêneo. Com o desenrolar do curso, tanto nas atividades ligadas ao rastreamento, quanto no exercício de antigos ritos deixados de lado ou esquecidos pelo processo civilizatório, os participantes foram chamados a sentir e a expressar aspectos preciosos da vida. E todos mostraram harmonia e igual interesse pelas cerimônias.


Primeiro dia – Levantado o acampamento, assistimos à criação do fogo como os homens primitivos o faziam: friccionando uma vareta contra uma prancha de madeira para recolher focos de brasa na palha (ninho), depois soprada até surgirem as chamas. Esse fogo primevo(3) ficaria aceso durante todo curso porque as cerimônias e as conversas seriam realizadas em volta da fogueira. “A conservação do fogo aceso marca um local considerado sagrado para o grupo humano. Estamos agora retomando um espaço central onde diversos povos e tradições comparecem para incorporar força e a presença espiritual da natureza”, foi alertando o instrutor Bento Viana.


Tanto é assim que a primeira cerimônia nos reuniu para as Palavras de Agradecimento, uma saudação diária aos elementos do mundo natural. Ao final de cada frase, todos atendiam por meio do som da palavra YAN! A tradição remonta às Seis Nações (Iroquois), ameríndios da região do estado de Nova York e Canadá, quando no início dos tempos, o homem só tinha que agradecer por tudo que existia na terra. “Essas palavras seguem uma ordem”, conta o instrutor Edson Luís, “como se estivéssemos subindo uma escada. Começamos agradecendo as coisas no nível da terra e vamos subindo até chegar ao mais alto, o Criador”. As Pessoas, A Mãe Terra, As Águas, Os Peixes, As Plantas, As Plantas que Alimentam, As Ervas Medicinais, Os Animais, As Árvores, Os Pássaros, Os Quatro Ventos, Os Trovões, O Sol, Avó Lua, As Estrelas, Os Mestres Iluminados e O Criador. Como complemento pessoal, pois cada ser é particularmente grato àquilo que sente, o orador abriu espaço para que cada um incluísse algo não citado. (Agradeci aos parentes próximos já mortos, agentes que nos deram a vida presente. YAN!)






A diferença humana


O estudo de pegadas é praticado há milênios, anterior inclusive ao domínio do fogo pelas sociedades humanas. Todas as raças aborígenes têm o rastreamento como forma de se relacionar com a natureza. As sociedades primitivas (e as ancestrais, como os australianos nativos) não consideram o meio ambiente algo separado do seu corpo físico e social: os elementos naturais são como parentes próximos. 


Ao mesmo tempo, a mera cultura (de repetir hábitos, tendências e apetites) é prática de diversas espécies de animais. Nunca foi exclusividade do homo sapiens. Agora: a cultura que tem relação direta com o cosmos, aquela que tem um significado (artístico, religioso ou científico), sempre implicou um saber. 


Em uma nova ambiência(2) ganha corpo hoje a cultura relacional, o conhecimento da dependência essencial que existe entre os fenômenos do mundo natural, o legado das gerações do passado e as ações dos que vivem no presente. O futuro no planeta nos acena com uma relação íntima, pacífica, atenta às propriedades da biosfera. Um grande não à indiferença autodestrutiva.


Na seqüência, aprendemos que quando alguém do grupo começa a esfregar as mãos e observa a contagem 1, 2, 3, é modo de pedir a palavra, para depois bater firmemente as mãos. E todos, concentrados, devem bater juntos. Ainda em círculo, estávamos prontos para as apresentações. Funcionou assim: depois que a primeira pessoa falou, ela lançou um novelo para outra se apresentar. O resultado foi a construção de uma teia de relações que se movimentava e vibrava com uma simples sacudida de qualquer parte. Nada mais significativo para representar o nosso inter-relacionamento com a causa natural, seja ela material ou espiritual. Fomos então divididos em quatro células (cada uma ganhando o nome de um elemento – água, fogo, terra e ar), que se revezariam, a cada seis horas, na alimentação da fogueira.


O curso de Rastreador iniciou aqui: no que o vento, sereno e a chuva podem influir na identificação da pegada. Os animais sentem facilmente o cheiro humano. Portanto, na hora do rastreamento, nada de perfumes e desodorantes. Eles também reconhecem o nosso andar oscilante. É preciso muita camuflagem e ainda usar elementos naturais (se impregnar da fumaça da fogueira, por exemplo). Os australianos esfregam o mato vicejante no corpo antes de sair para rastrear. No primeiro exame de um terreno demarcado à observação de pegadas, notamos a distância entre uma e outra para saber se o animal andava ou corria, era grande ou pequeno, e as primeiras diferenças entre marcas em terreno fofo e outras no seco.


Depois do jantar, as cerimônias se renovaram. Como já escreveu mestre Câmara Cascudo, “nenhum primitivo teria clima e tempo para pensar durante as horas solares. Sentado, mastigando o punho como o Penseur de Rodin, seguindo a idéia, fá-lo-ia à noite. O pensamento foi de início uma atividade noturna”. E assim, com naturalidade, abraçamos a possibilidade lógica do serão. Inicialmente, foi realizado um trabalho de expressão vocal. Essa atividade, acredita Camila Condé, fonoaudióloga que monitorou os exercícios, possibilita a percepção do indivíduo sobre si mesmo e sobre o mundo. “Podemos sentir o quão poderosa se torna nossa voz unida à outras vozes, podemos penetrar nos corações dos jovens, em lugares onde as palavras não chegam”, disse.


Todo mundo aquecido, era a hora de soltar o verbo numa conversa livre ao pé do fogo sagrado, que aquece e ilumina. Em destaque – não só nesta etapa, é bom que se diga – a riqueza das informações dos instrutores e monitores. Sem linguagem intelectualizada, foram muitos os registros históricos e míticos, de diversos povos, sempre com o objetivo de despertar a sensibilidade e o imaginário dos participantes.


Foram lembradas a impermeabilização dos solos causada pela urbanização a qualquer preço, o que compromete a renovação dos lençóis freáticos, a insanidade dos desmatamentos, que destrói uma biodiversidade desconhecida, e a negação, por motivos ideológicos, da experiência acumulada pelos países do hemisfério Norte nas questões ambientais.







Em volta do fogo, os sonhos são como um canal aberto aos modos simples da natureza


Segundo dia – A cerimônia de agradecimento foi proferida por uma das facilitadoras, Renata Neves. Foi seu “batismo” e ela correspondeu dizendo a seu modo o muito obrigado pela maravilha de sermos protegidos por uma diversidade de forças e entes da natureza. YAN! Em seguida, veio a primeira conversa matinal sobre os sonhos, esses pouco-aproveitados signos que a ambiência e os corpos dos outros vincam na mente. A cerimônia introduziu o ritual de passar de mão em mão o Bastão que Fala, para cada um contar como foi a noite, e no caso de lembrar, que sonho havia aparecido. A psicóloga Márcia Pontier explicou: “para os povos aborígenes, os sonhos são como cartas de Deus, refletem um canal de comunicação com a alma, nossa consciência superior”. Para ela, tem sido uma experiência muito rica observar a resposta dos adolescentes quando vivenciam momentos onde começam a perceber as interconecções das coisas. “Isso tem demonstrado a importância da interdisciplinaridade utilizada pela metodologia de John Stokes”. 


Para agilizar a sabedoria de cada região do corpo, partimos para os exercícios baseados em posições de animais e em figuras de diversas culturas (tigre, gato, veado, garçom brasileiro, bailarina de Bali, dragão). Depois, mais histórias e um exercício de respiração alternada, para aliviar tensões e até desentupir o nariz. Quando expirar pela narina direita, visualizar o Sol, quando pela esquerda, a Lua.






Os rastreadores que iam à frente deram o sinal: pegadas! Ficamos felizes! “Achá-las é uma dádiva da natureza. Aconteceu porque a energia do grupo propiciou que a natureza nos presenteasse com sinais”


E vamos às lições de rastreamento, pois o dia promete! Aprendemos o que é muro da pegada e a medir o raio de alcance para a previsão do próximo passo. Em dupla, fizemos um exercício para descobrir as pegadas de 10 passos. Conhecemos as marcas e os formatos de pegadas de animais (anta, capivara, ema, lobo-guará, onça), as almofadas nas patas, as unhas em felinos ou canídeos. Aprendemos a posição-base e o movimento silencioso(4) (stalking), e como se articulam com as pernas. Simulamos, ainda, um rastreamento ao veado. Dentro de um círculo, jogamos o jogo da cascavel e do caçador, para aguçar a audição, e ainda em dupla, o jogo da fita, para desequilibrar (tirar da base) o oponente.


Aprendemos o que é visão periférica, e como ela não é somente algo físico, se transportarmos o ângulo maior de visão para a percepção de sinais de um sistema em constante equilíbrio. Aprendemos também que usando as mãos em forma de concha em volta das orelhas aumentamos em quatro vezes o volume da recepção dos sons.


De tarde, caminhamos em fila indiana, silêncio total, um deleite, só o som dos passos e pássaros. Junto ao Córrego Porteiro, os rastreadores que iam à frente deram o sinal: pegadas! Ficamos felizes! “Achá-las é uma dádiva da natureza. Aconteceu porque a energia do grupo propiciou à natureza nos presentear com sinais”, disse na hora o instrutor Bento. Eram pegadas de jaguatirica e guaximim (mão-pelada). Animados, seguimos uma trilha acidentada, transponível apesar dos pés molhados, até a santa cachoeira. De noite, cada célula apresentou um ato teatral, parodiando ou reproduzindo momentos do curso. Muitos dormiram ao lado da fogueira.






A palavra inglesa STOP pode ajudar a uma melhor escolha. Novamente pela ordem, S, de sit (situar-se), T, de think (pensar), O, de observe (observar), e P, de plan (planejar).


Terceiro dia – Depois da passagem do bastão, fizemos outros exercícios (posições da águia e da tartaruga) e tivemos noções de sobrevivência. Entre elas: usar a bússola e a constelação do Cruzeiro do Sul para indicar o sul. O que procurar antes de tudo para sobreviver no meio do mato? Pela ordem: primeiro buscar abrigo, depois fazer fogo, beber água e, por fim, achar comida. Em média, o ser humano sobrevive a três minutos sem ar, três dias sem água e três meses sem comida. Em situações de emergência, a palavra inglesa STOP pode ajudar a uma melhor escolha. Novamente pela ordem, S, de sit (situar-se), T, de think (pensar), O, de observe (observar), e P, de plan (planejar).


Finalmente chegou o esperado com entusiasmo por todos: fazer o fogo. Afinal, tem ele o poder de transformar e purificar a pessoa que o acende. Alguns métodos foram mostrados, mas o nosso centrou-se no filho (fogo) que vai nascer da prancha (mãe) sob a ação contundente da vareta (pai). A euforia e as palmas tomavam conta de cada célula de cinco pessoas a cada vez que as chamas incendiavam o ninho de palha. 


Antes do almoço ainda houve tempo para aprendermos a tecer pulseiras (forma de trabalhar os dois hemisférios do cérebro, a coordenação motora e a paciência) e a dar nós em cordas de diferente espessura. Antes da cerimônia de despedida, marcada pelo ritual de-todos-se-abraçarem e por muitas declarações de satisfação pelo aprendizado (“impagável”) que tivemos, os instrutores Bento e Edson Luís contaram a História do Pacificador, despertando o sentimento de solidariedade e perseverança quanto aos nossos objetivos na vida. 


Que o ipê amarelo plantado na fazenda que nos acolheu cresça como símbolo reluzente de uma cultura que ainda acredita em símbolos e nos modos de ser da experiência natural!


Mais informações: 
Projeto Pegadas Brasil
tel: (61) 468-6606 e-mail: rastreando@pegadas.org.br