Ponto de Vista

O feijão transgênico e a ciência

20 de outubro de 2011

A vantagem desse feijão TG seria imunidade à doença conhecida como mosaico-dourado, transmitida na forma de vírus pela mosca branca. Essa imunidade teria sido conferida ao feijão quando nele se inoculou o DNA do vírus. Mas quais os efeitos sobre a saúde humana de feijão que contém um vírus? Isso ninguém sabe. Mesmo assim a… Ver artigo

A vantagem desse feijão TG seria imunidade à doença conhecida como mosaico-dourado, transmitida na forma de vírus pela mosca branca. Essa imunidade teria sido conferida ao feijão quando nele se inoculou o DNA do vírus. Mas quais os efeitos sobre a saúde humana de feijão que contém um vírus? Isso ninguém sabe. Mesmo assim a CTNBio aprovou sua liberação. Não espanta. As decisões da CTNBio têm sido marcadas pela defesa da transgenia e de uma forma amadora. A instituição que deveria cuidar da biossegurança, somente agora, depois de liberar para o mercado 31 produtos transgênicos, “analisa um fluxograma apresentado, como proposta de modelo para a implantação no Brasil de um plano de monitoramento de produtos já liberados comercialmente”.


Ao criticar os ambientalistas – e todos os ambientalistas são contra os transgênicos! – Alon Feuerwerker dá a entender que estamos atrasados, que somos contra o avanço da ciência. Ocorre que essa retórica é antiga.


É a mesma que usam os ruralistas, as empresas de biotecnologia e os cientistas que trabalham para elas. Alon somente não pode usar os outros dois velhos chavões: 1) “os transgênicos podem acabar com a fome no mundo” – porque ela aumentou; 2) “o uso dos transgênicos reduzirão consumo de agrotóxicos” – porque o Brasil, depois da chegada dos transgênicos, tornou-se o maior consumidor de venenos do mundo.


É preciso diferenciar ciência de mercado. Em seu artigo Alon fez a defesa do mercado e não da ciência. A ciência é citada para lastrear seus argumentos porque Alon (e os fabricantes de TGs) sabem que o imaginário popular atribui à ciência o poder metafísico da infalibilidade.


O discurso semiótico se traduz como: a ciência detém o conhecimento sobre tudo e somente ela pode dar a última palavra sobre tudo. Trata-se de um discurso que descarta os riscos inerentes à atividade. E conforme Alessandra Ninis, na sua tese de doutorado para a UnB sobre o tema: “a biotecnologia se apresenta como uma importante categoria de riscos complexos. Essa complexidade refere-se às implicações sociais, políticas, econômicas, ambientais e éticas relacionadas aos riscos e efeitos da produção e utilização dos produtos biotecnológicos”.


Alon não somente minimiza os riscos como os descarta ao afirmar que “não há um relato, uma suspeita, um mísero caso de alguém cuja saúde tenha sofrido por causa do consumo”. Isso é uma meia verdade. Não há relatos sobre efeitos sobre a saúde humana porque não há pesquisa neste sentido. Caberia à CTNBio cobrar dos responsáveis e apresentar esses estudos. Isso não foi feito.


O brasileiro, portanto, será cobaia de um experimento nacional, o feijão da Embrapa. Quanto aos estudos sobre prejuízos causados ao meio ambiente e aos animais, ao contrário do que diz Alon, há centenas de estudos.


Eles mostram não somente como alguns TGs foram um fiasco no campo (caso do milho Bt nos EUA) como provocaram danos a diversos insetos (abelhas, lagartas, entre outros).


A noção de ciência expressa por Alon está nos gibis, no Programa do Gugu, e não nas academias. Quem se der ao trabalho de ler epistemologistas como Kerlinger, Karl Popper, ou, mais recentemente, Edgar Morin, vai verificar que o discurso de Alon está longe da ciência.


Edgar Morin desmascara os cientistas defensores dos transgênicos que vêm a público dizer que fazem pesquisas isentas e imparciais. O pensador francês deixa claro que não existe ciência sem ideologia. No caso do feijão da Embrapa (ou da soja, ou do milho) temos uma ciência para o mercado.


Temos aqui uma utilização indevida desses conceitos, o discurso elaborado pelo mercado para confundir o leigo. A ciência não pode ser a última palavra nas decisões da sociedade. Quem tinha que decidir sobre os alimentos transgênicos era a sociedade e não um grupo de ilustrados a serviço do mercado.


O texto de Alon, portanto, não tem nada de novo. Pior, ele se apoia numa noção absolutamente equivocada do que é ciência. Fazer ciência é adotar princípios éticos, entre os quais não permitir que a população de um país se torne cobaia de determinado alimento somente porque é negócio para uma empresa – seja brasileira ou transnacional.


Dioclécio Luz – dioclecio.luz@camara.gov.br