Temporada das queimadas

Alerta geral contra incêndios florestais

18 de julho de 2006

Cerrado e Amazônia são os ecossistemas que mais sofrem com as queimadas


As chamas e labaredas avançam deixando para a flora e fauna do Cerrado um rastro de morte

A importância do apoio da comunidade


Em 2005, só no Cerrado em volta do Distrito Federal foram 3,5 mil focos de incêndio. São mais de 40 casos por dia. Agora em 2006, o Corpo de Bombeiro do DF montou uma operação especial chamada Verde Vivo, que conta com 400 homens e equipamentos variados: helicópteros e carros especiais para todas emergências. O Corpo de Bombeiros, nessa época, manda sempre o mesmo recado: acender fogueiras e soltar balões são práticas de risco. A queima de lixo e cigarros acesos também representam enorme perigo”.
Em 2005, no mês de setembro, um incêndio destruiu 7% da vegetação do Jardim Botânico de Brasília. A verdade é que produtores rurais e até moradores urbanos insistem em queimar lixo em suas propriedades. E aí que mora o perigo. A diretora do Jardim Botânico, Anajúlia Heringer, informou que  a Petrobras está ajudando nesta luta contra o fogo, repassando R$ 1,6 milhão para serem investidos no combate e na prevenção contra os incêndios florestais.
Anajúlia Heringer explica que o governo e as brigadas de voluntários estão sempre atentos, mas a população não coopera. “É preciso conscientizar a comunidade e mostrar como é perigoso queimar lixo em áreas próximas ao Jardim Botânico. É incrível como ainda hoje jogam toco de cigarro pela janela do carro. Qualquer fogo pode ter conseqüências desastrosas”, diz Anajúlia.


193: Emergência
Paulo Amozir, coordenador do Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) no DF, explica que o Parque Nacional de Brasília tem 44 mil hectares. “Temos um plano operacional para prevenir as queimadas e combater qualquer incêndio com muita rapidez.
Os funcionários do parque são treinados e recebem instruções sobre como agir em casos de emergência. Também vamos fazer a queimada controlada preventiva em uma área de 15m de largura por 102km de extensão, explica Amozir e acrescenta: “Mas a população precisa fazer a sua parte para evitar os incêndios”.


Os números das queimadas no Brasil
— 300 mil queimadas ocorrem por ano no Brasil;


— 85% das queimadas ocorrem na Amazônia Legal (Acre, Rondônia, Roraima, Amazonas, Amapá, Pará, parte do Maranhão, do Mato Grosso e do Tocantins);


— 90% ocorrem em áreas desmatadas;


— Os estados que mais fizeram queimadas nos últimos anos foram Mato Grosso (38% do total), Pará (27%), Maranhão (10%) e Tocantins (7%).


Descontrole do fogo nas práticas agrícolas


O descontrole do fogo com a  prática das queimadas na agricultura cria um desequilíbrio ambiental, perda de fertilidade do solo, poluição, destruição das redes de eletricidade,  de cercas e muitos acidentes rodoviários e até aéreos, quando a fumaça atinge regiões próximas a aeroportos. Em toda estação seca, quando acontecem os incêndios florestais, há grandes prejuízos para o Brasil.


Impacto ambiental
A preocupação das comunidades científica e ambientalista


Os governos federal e estaduais promovem intensa campanha de controle do uso do fogo na agricultura. Uma das metas da campanha é justamente levar aos agricultores, por intermédio da Embrapa, tecnologias alternativas para reduzir a prática da queimada no manejo da terra e garantir a produtividade. A verdade é que o uso das queimadas pelos agricultores é antigo e tem como finalidade a limpeza das áreas, a queima de resíduos para eliminar pragas e doenças,  a renovação de pastagens, a queima de dejetos de serrarias e de lixo urbano ou ainda como técnica de caça. Acontece que o impacto ambiental das queimadas preocupa a comunidade científica, preocupa os ambientalistas e a sociedade em geral, principalmente quando gera incêndios florestais devastadores. Segundo os cientistas, O fogo afeta diretamente os processos físico-químicos e biológicos dos solos, deteriora a qualidade do ar, reduz a biodiversidade e prejudica a saúde humana. Isso sem falar na alteração da composição química da atmosfera, com o aumento do efeito estufa, e a maior penetração da radiação ultravioleta, com a destruição da camada de ozônio. E mais: ao escapar do controle, o fogo atinge tanto o patrimônio público quanto o privado, como florestas, cercas, linhas de transmissão e de telefonia e construções.


Onde é proibido usar fogo
1)
Nas florestas e demais formas de vegetação;
2) Para queima pura e simples de aparas de madeira, resíduos florestais e material lenhoso;
3) Também não se pode usar fogo numa faixa de 15 metros dos limites de segurança das linhas de transmissão de energia elétrica;
4) Cem metros ao redor da área de domínio de subestação de energia elétrica;
5) Vinte e cinco metros ao redor da área de domínio de estações de telecomunicações;
6) Cinqüenta metros a partir do aceiro existente nas Unidades de Conservação;
7) Quinze metros de cada lado das rodovias estaduais e federais e das ferrovias, medidos a partir da faixa de domínio;
8) Em área definida pela circunferência de raio igual a onze mil metros, tendo como referência o centro geométrico da pista de pouso dos aeroportos.


Para entender melhor


E o que é o fogo?
O fogo é um fenômeno natural. É o desenvolvimento simultâneo de calor e luz, produzido pela combustão de certos corpos. Toda a biomassa da floresta consiste de acúmulo de energia produzida pela fotossíntese. O dióxido de carbono, a água e a energia solar combinam-se para produzir celulose e outros carboidratos. Esse material é armazenado em todas as plantas verdes. O fogo reverte rapidamente esse processo, liberando a energia armazenada. É fácil visualizar essa relação básica ao se comparar as fórmulas da fotossíntese:
CO2 + H2 O + ENERGIA SOLAR – (C6 H10 O5) + O


e a combustão:
(C6 H10 O5)N + O + IGNIÇÃO – CO2 + H2 O + CALOR


Pode-se observar que as fórmulas são quase idênticas, mas em direções opostas.


O que é queimada?
A queimada é prática agropastoril ou florestal que utiliza o fogo de forma controlada para viabilizar a agricultura. A queimada deve ser regida pela aplicação controlada do fogo à vegetação natural ou plantada, sob  determinadas condições ambientais que permitam que o fogo mantenha confinada a área, dentro de uma intensidade de calor e uma velocidade de propagação compatíveis com os objetivos do manejo. A queima deve ser autorizada pelo Ibama ou pelo órgão estadual competente.


O que é incêndio florestal?
É o fogo sem controle que incida sobre qualquer forma de vegetação, podendo tanto ser provocado pelo homem quanto por uma causa natural.


Quem pode ajudar na prevenção dos incêndios florestais?
O fogo descontolado numa fazenda queima cercas, queima paiol, queima a pastagem fora de época e  consome pomares.


Além das diversas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, a grande ajuda deve vir da sociedade, especialmente da área rural. Vem do esforço consciente do proprietário rural no uso do fogo, preocupado com seus vizinhos e com seu patrimônio.
E como fazer isso? Primeiro, tomando as precauções necessárias. Segundo, mobilizando os vizinhos para que todos compartilhem desse esforço nos dias de queimada, fazendo um mutirão para evitar que o fogo gere muita perda. Cada propriedade rural, dependendo do tamanho, perde 10% de sua renda com prejuízo resultante do fogo que foge ao controle. O fogo queima as cercas, queima o paiol, queima a pastagem fora de época, consome pomares. Isso  tudo pode ser alterado se o produtor estiver atento para eliminar o fogo que vem do vizinho com medidas de precaução.


Como fazer a queima controlada
O interessado na obtenção de autorização para a queima controlada deverá:
1) Definir as técnicas, os equipamentos e a mão-de-obra a serem utilizados;
2) Fazer o reconhecimento da área e avaliar o material a ser queimado;
3) Promover o enleiramento dos resíduos de vegetação, de forma a limitar a ação do fogo;
4) Preparar aceiros de no mínimo três metros de largura, ampliando essa faixa quando as condições climáticas, ambientais e topográficas assim o permitirem;
5) Providenciar pessoal treinado pra atuar no local da operação, com equipamentos apropriados;
6) Comunicar formalmente aos vizinhos a intenção de realizar a queimada controlada;
7) Prever a realização da queima em dia e horário apropriados, evitando-se os períodos de temperatura mais elevada;
8) Providenciar o oportuno acompanhamento de toda a operação de queima, para adotar, se necessário e a tempo, medidas de contenção do fogo.


Mais informações:
Inmet – (61)3344-7743
www.inmet.gov.br
Em caso de EMERGÊNCIA, o telefone do Corpo de Bombeiros é 193.

Queimadas

Satélites denunciam aumento de queimadas

29 de janeiro de 2004

O motivo é o de sempre: os produtores rurais preferem o caminho mais fácil e mais barato

Risco Observado: 18/agosto/2002
Risco Previsto:
19/agosto/2002
Gerado com o Modelo Global T126L28 em 18 de agosto de 2002 com dados de 17 e 18 de agosto

Em apenas um dia – 18 de agosto – o satélite NOAA-12, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – registrou 1.684 focos de calor no Brasil, indicando uma
aceleração das queimadas. Naquele dia, a liderança ficou com o Estado do Mato Grosso (598 pontos de calor), seguido de Mato Grosso do Sul (373 pontos), Pará (354 pontos) e Rondônia (226 pontos). Em todo o ano passado – ainda conforme o INPE – foram registrados 146.231 focos de calor no Brasil. Este ano, entre janeiro e julho, os focos somaram 32.803, o que não significa dizer que haverá uma redução em relação aos
observados no ano passado, pois a maior concentração de queimadas ocorre justamente nos meses mais secos do ano na região Centro-Oeste e do extremo Norte, que são agosto e setembro.

Não é sem razão que as queimadas diminuíram no extremo Norte, especialmente no Acre, em Roraima e em Rondônia e se aceleram no Centro-Oeste. É que esta Região registra atualmente uma forte expansão da fronteira agrícola, e os produtores rurais preferem o caminho mais fácil e barato, ainda que perigoso, da queimada, para preparar a terra para o plantio.
Este ano, até o mês passado, o INPE registrou 8.187 focos de calor no Centro-Oeste, sendo 5.796 em Mato Grosso, 1.068 em Tocantins, 698 em Mato Grosso do Sul e 625 em Goiás. Uma comparação com o mesmo número de focos registrados no mesmo período do ano passado – 3.348 – mostra como este ano a atividade das queimadas vem aumentando, especialmente no Estado do Mato Grosso, onde, em 2002 – período janeiro-julho – os focos aumentaram quase quatro vezes em relação ao mesmo período do ano passado.

Programas ineficazes
As queimadas aumentam a despeito dos programas de contenção desenvolvidos no âmbito federal – como o Sistema Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) – a cargo do Ibama; o Queimadas Controladas, desenvolvido pelo Estado do Mato Grosso do Sul e o Corta Fogo de iniciativa do Estado de Goiás.

Ineficiência e desarticulação
A ineficácia desses projetos, no sentido de reduzir acentuadamente o número de queimadas, resulta, segundo os especialistas, da ação conjugada de dois fatores: a ineficiência da fiscalização e a desarticulação entre as políticas ambiental e agrária.
No primeiro caso, embora a legislação preveja multa de um mil reais por hectare queimado irregularmente, não são conhecidos exemplos de produtores rurais e pecuaristas multados, ou, se foram, se efetivamente pagaram a multa. Além do número de fiscais ser insuficiente, face à extensão da região atingida pelas queimadas, os produtores multados conseguem se livrar das multas na Justiça.
Ainda segundo esses especialistas, se o Incra, se melhor articulasse com o Ibama, os dois poderiam melhor orientar os agricultores para evitar as queimadas, ou mesmo introduzir políticas fiscais e financeiras compensatórias para quem aderisse a outra forma de preparar a terra para o plantio, diferente do fogo.
Essa iniciativa, ainda conforme os especialistas, tem tudo para ter êxito, pois a maioria das queimadas ocorre em propriedades privadas, cujos donos geralmente recorrem a financiamento público para o preparo da terra.
Um campanha de educação ambiental também é defendida por muitas ONGs que se dedicam à luta contra as queimadas. Uma delas, a Conservation Internacional do Brasil que atua junto à agência ambiental do Estado do Mato Grosso do Sul, já desenvolve um programa de conscientização da população quanto aos riscos do fogo descontrolado e à necessidade de preservar os recursos naturais que são destruídos pelas queimadas.
O Prevfogo acaba de contratar, por um período de 90 dias, 305 brigadistas, treinados para controlar fogo em todo o País, com o propósito de proteger 21 Unidades de Conservação distribuídas em dez Estados. Se, terminado esse prazo, ainda houver risco de incêndios florestais, o contrato dos brigadistas será prorrogado por mais três meses.