Relógio de pássaros

19 de setembro de 2010

O romance chega com seus mistérios, alheando-me do mundo, já não sou mais eu, estou em briga de unha e bico comigo mesma, quantas dúvidas, quantas indecisões, uma eternidade   Veio de meu silvestre amigo um relógio de pássaros e minha vida mudou, agora o tempo é marcado pelo canto de uma ave e não… Ver artigo

O romance chega com seus mistérios, alheando-me do mundo, já não sou mais eu, estou em briga de unha e bico comigo mesma, quantas dúvidas, quantas indecisões, uma eternidade


 


Veio de meu silvestre amigo um relógio de pássaros e minha vida mudou, agora o tempo é marcado pelo canto de uma ave e não mais passa fugaz, o tempo mudou-se para minha casa, de graveto e cuia, mora agora por aqui e esperei que, íntimo, me estendesse as horas, mas nada, o seu compasso segue indiferente a minhas esperanças; senhor tempo, por favor, demore-se, deixe-me viver mansamente as inquietudes da vida… Nem sei o que sonho, quando canta o sabiá e anuncia, começou o dia, hora ingênua e brasileira que por aqui gorjeia, é hora de acordar, levante, a vida é breve, o mundo nos espera, hora da cerimônia de cada novo começar.
Obedeço, cismada, mas logo me surpreendo com o pintassilgo que vem das araucárias cantar para mim, a gata Filomena olha intrigada para a gaiola de vidro, espera, entende que é só uma ilusão. Senhor tempo, permita-me um momento longo de sabores desejados, o bom café que me alerta, abrir um jornal angustiante, mas as preocupações se acomodam, atenuadas pelo balanço murmurante das folhas de coqueiro, hora de olhar o mar, de relance, os passos seguintes serão de esquecimento.
O romance chega com seus mistérios, alheando-me do mundo, já não sou mais eu, estou em briga de unha e bico comigo mesma, quantas dúvidas, quantas indecisões, uma eternidade… eis que chega saltitando a alegria do Nordeste, o bravo paroara, o padrezinho dominicano me abençoa com um canto saltado, me carrega para ciscar os quintais do interior. E continuo, árdua é a luta da vida, palavras, respostas, tarefas, fugas. Já parti para uma serra distante onde chora a mãe do fogo, quando o brado baixo e melodioso do udu-coroado vem trazer a boa brasa, nas penas de sua cauda, acende a inspiração… tão solitário… Imersa novamente na conversa com as letras, anseio o momento mais belo do dia. Tudo em silêncio, nenhuma ave pia, o vento espera, as folhas se aquietam, todos prontos a escutar: um deus em forma de ave entoa seu orfeão, uma flauta do além, a propor paixões para toda a vida, e esconde notas sob o travesseiro do ser amado, um canto irresistível, abertura de uma sinfonia. Mas, terei apenas uma hora até que o corrupião das caatingas ordene, implacável, que é hora de parar, sol a pino, já terminou a manhã! ele flauteia o hino nacional, ouço, do maceió às margens plácidas, ah concriz, ah sofrê, como me fazes sofrer!
Digo adeus às musas, até amanhã, almoço a pensar. Volto ao trabalho. Lá vem o curió arisco cantar a tarde, com seu bico de aço, avinhado canto fluente, corrido, extraordinário e caro, descendo a escala musical, pontuando… e vai embora, carente de afeto.
Ainda resta um pouco de dia. O quero-quero vem dar o alarme, duas horas, ainda não escreveu a crônica, o artigo, o poema, a orelha, a apresentação? E o mercado? E as chaves? Téu-téu, téu-téu, pensas que o tempo é teu Zela por mim, pois eu quero-quero. Não-quero-não-quero, e vem o grito de liberdade, bem-te-vi, bem-te-vi, nei-nei, pitanguá, o dia está pensando em ir embora, senhor tempo, estenda mais o tempo, ainda nem comecei o trabalho, os bem-te-vis das vizinhanças pousam no galheiro, ousados, vexados, querendo expulsar o intruso de todos os dias, Quem está aí?
Quando chega o canto do tucano, o atento, previdente, manhoso e briguento e guloso, parece que o tempo reina, um coração apressado, chega a paz das cinco horas cantadas pelo jaó, pio confiante e descuidado, Vamos fazer as pazes? E responde a perdiz, Eu nunca mais. Hora de fechar as janelas, olhar as dunas róseas pelo sol inclinado, corre! Lá vem o curiango anunciar a noite, medindo as léguas de nossa indisciplina, nossas distrações e impossibilidades, canto melancólico que canta o pôr do sol e nos guiará pela sombra, pios lúgubres, noturnos repetidos, João corta pau, Maria mexe angu, Teresa bota mesa, vou mexer o caruru, ah, e ainda nem comecei a crônica…


 


Ana Miranda
amliteratura@hotmail.com