Semana dos Povos Indígenas

ALDEIA KARI-OCA

19 de abril de 2011

Brasil prepara RIO+20: índios vão discutir Economia Verde em junho de 2012 no encontro da ONU no Rio de Janeiro


“As Tradições Indígenas não podem


separar-se da terra, território ou da ciência”.


Art. 97 da Carta da Terra – RIO.92


 


O cacique Oren, Chefe Indígena Onondaga dos Estados Unidos, e Marcos Terena


 



 

 


MARCOS TERENAENTREVISTA


 


Ex-diretor do Memorial dos Povos Indígenas e atual Coordenador da Cátedra Indígena, Marcos Terena organizou, na RIO-1992, a plataforma indígena com 92 países e 750 representantes indígenas. Construiu a “Aldeia  Kari-Oca” e levou uma mensagem, cujos ecos ressoam até hoje: “Caminhamos em direção ao futuro, nos rastros dos nossos antepassados!”.


Para 2012, Marcos Terena tem outra missão: ajudar a preparar uma Carta de Princípios diante do desafio da ONU em debater a Economia Verde e um Desenvolvimento com Sustentabilidade. Desafio principal: eliminação da pobreza. A missão não é fácil, por isto Terena se prepara intensamente em encontro diversos, tanto com diplomatas do Itamaraty e da ONU, como com sábios indígenas e intelectuais com conhecimento de causa para elaborar na RIO+20, uma nova Kari-Oca. Junto com Marcos Terena estará a advogada indígena, Mestre pela UnB em Propriedade Intelectual, Fernanda Kaingang e o Líder Espiritual, Sapaim Kamaiurá.


Nesse sentido, vamos conversar com uma das mais autênticas e mais participativas lideranças indígenas brasileiras: o índio Marcos Terena.


 


 


Folha do Meio – Terena, como está o índio neste novo milênio?


Terena – Entre as 230 sociedades indígenas neste Brasil imenso, temos índios em vários estágios. Isolados na floresta, aculturados nas aldeias, em pequenas vilas, no Parque do Xingu, mas tem um fenômeno que se observa  não só no Brasil, mas em todo continente americano: o êxodo rural indígena. É a presença do chamado índio urbano. Isso acontece aqui mesmo em Brasília onde vivem hoje cerca de nove mil índios. Daí então, o índio hoje busca acessar novos conhecimentos e tecnologias. Ele quer demonstrar que a Modernidade e a Tradição fazem parte da construção do seu futuro e de um novo rosto sem discriminação para o Brasil potência.


 


FMA – E como o índio pode se inserir neste contexto de modernidade?


TerenaOs indígenas já são parte de diálogos para a formação de novos parâmetros junto a ONU, junto à OEA, junto ao Banco Mundial e junto às agências que tratam de temas como o respeito aos conhecimentos tradicionais dos Pajés, a afirmação da dignidade da mulher, da juventude num verdadeiro protagonismo inter-étnico.


 


FMA – Em junho de 2012, acontece no Rio de Janeiro a RIO+20. Como será a participação dos povos indígenas?


Terena – Verdade, o Brasil vai sediar a maior conferência mundial sobre meio ambiente e nós, os povos indígenas, estaremos lá. Nós, do Brasil, e de todos os quadrantes da Terra. Estamos nos preparando, pois queremos participar e atuar tecnicamente e espiritualmente. Queremos ser atores principais de uma nova consciência ecológica.


 


Folha do Meio – Terena, você participou da RIO 92. Qual o legado que ficou em relação à questão indígena, 19 anos depois?


Marcos Terena – Na Conferência Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada, em 1992, no Rio de Janeiro, a ONU nos deu uma oportunidade de participar e discutir com lideranças mundiais temas que afligem nossos povos. Pessoalmente foi uma grande experiência conviver com autoridades do nível de Gorbachev, Mitterrand, Al Gore e principalmente com os índios negros da África, asiáticos, loiros da Europa e até daqueles que lutavam pela demarcação das ?águas?. Agora, 19 anos depois, existe um elo sim: a crise ambiental mais acirrada. Isso voltará forte na Conferência do ano que vem. Apesar das diversas convenções e declarações internacionais sobre a questão, ainda parece que o governo brasileiro ou desconhece ou finge desconhecer.


 


FMA – Por exemplo?


TerenaPor exemplo, onde poderíamos imaginar que um deputado comunista e nosso ex-aliado como presidente da UNE, como o Aldo Rebelo, iria propor um Código Florestal que não contribui em nada para a qualidade ambiental e da sociedade do futuro. Mas temos que encarar tudo isso e junto com a sociedade nacional e dentro do Congresso Nacional também.


 


FMA – Como os povos indígenas vêm sendo afetados com a proposta do novo Código Florestal?


Terena – A gente não pode compreender um Meio Ambiente exclusivo. Ele é parte de um todo. De um complexo que chamamos Mãe Terra. Então o Código Florestal não pode atender só a demanda do agronegócio ou da monocultura. Isso sim, afeta diretamente as terras indígenas, pois geralmente são feitas no entorno dos nossos territórios e soa como encanamento da sereia para muita gente, inclusive nossos líderes.


 


FMA – E como a população indígena é afetada com o aquecimento global?


TerenaA luta pela demarcação das terras sempre foi um dever do Estado brasileiro. No Brasil, os índios têm 15% do território reconhecidos como Terras Indígenas. Lá está a abundância de água doce, rica biodiversidade, recursos minerais de ponta como o urânio e o nióbio. São valores estratégicos do País para o novo Milênio. Sozinhos, nós os índios não temos como suportar a pressão do agronegócio, do avanço tecnológico, das cidades e da falta de uma política indigenista. Por isso, nossas aldeias tem sido muito afetadas do ponto de vista cultural, social e econômico.


 


FMA – O que esperar da RIO+20?


TerenaO Encontro sobre Mudanças Climáticas de Cancun, no final do ano passado, foi uma ducha de água fria nos ecologistas, nos governos progressistas e para os povos indígenas. Na RIO+20, ou na RIO`2012, vamos tomar todo o cuidado com os acordos multilaterais – governo a governo – e  com princípios coletivos para o bem comum. Se eu preciso garantir água pura para matar minha sede, a onça e o tamanduá da floresta ou o cachorro e o gato da cidade também têm esse direito. Mas como introduzir isso numa política global? Por isso as lideranças indígenas estão se preparando para as discussões. Vamos dar muito trabalho para os diplomatas. Não queremos blá-blá-bla. Já iniciamos um diálogo com o Itamaraty.


 


FMA – Como está discussão sobre Economia Verde?


TerenaO conceito de Economia Verde por enquanto é muito mercantilista. É mais ou menos como criar um padrão de sementes transgênicas com selo verde ou a idéia de vender o ar das nossas terras, como se isso fosse garantir uma melhor qualidade de vida para o Planeta. É mais ou menos como o caso do Henry Ford ou do Daniel Ludwig que, no passado, viu na Amazônia uma terra sem dono e sem proveito, mas interessante para o império econômico deles.


Minha questão é a seguinte: é papel dos brasileiros, é bom para o Brasil ocupar as terras indígenas para sustentar o mundo com soja, carne e biocombustível?


 


FMA – Mais algum recado, você que é uma liderança indígena internacional?


Terena – Vou lembrar um outro indígena que tem grande força espiritual que, muitos se lembram, abençoou a RIO-92, o cacique Sapaim. Na sua forma simples de dizer, mas muito sábia, Sapaim explica que a ?a Mãe Terra está chorando?.  E nós índios também estamos tristes, mas vamos lutar para curar a doença do caraíba. [Caraíba é o apelido que o índio do Xingu dá ao homem branco] Então  temos que tirar o espírito consumista dos nossos jovens, índios e não-índios, senão  nossas terras, nossa água, nossa fauna e flora, e nós todos,  vamos ficar doentes também.


 


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por: Noel Villas Boas