IV - Série Expedição Américo Vespúcio - 10 anos

O PESCADOR, O BISPO E O NATURALISTA

21 de março de 2012

Lendas do Velho Chico e outras histórias

 

Lico Paiva canta a Lenda d’Abadia:

 

"Milagre!

Para salvar o que resta

há que abençoar

levando a santa rio abaixo

para a outra terra d’Abadia

e trazendo de volta rio acima

numa barca iluminada

para salvar o que resta

há que abençoar Milagre".

 

ERA UMA VEZ…

Sigamos um pequeno percurso dessas rotas carroçáveis com um cientista austríaco que um dia cruzou o rio São Francisco vindo de São João del Rei, com destino a Araxá, Paracatu e Goiás. O naturalista Pohl pernoitara em Formiga. Seguindo adiante, passou uma sofrível noite numa fazenda, onde "outra vez nos alojamos num paiol de milho. O que mais nos aborreceu foi a falta de boa água potável. De um riacho longínquo, nos traziam água lodosa e turva de gosto muito ruim. Já há dois dias tínhamos de contentar-nos com uma água deste tipo, pois nenhuma outra se podia obter". Continua ele, mais animado:

"… Ficamos bastante satisfeitos na manhã seguinte, 3 de novembro [de 1818] ao ver essa casa pelas costas. Apenas a meia hora de distância [da fazenda Tapada, de dona Bernarda] está a Guarda do Rio São Francisco. Este rio, na fronteira ocidental da Capitania, nasce na Serra da Canastra e vai-se avolumando pouco a pouco, até tornar-se um dos maiores rios do país. Aqui, tão perto de sua nascente, já tem, com alguma profundidade, a largura de 60 braças. Depois volta-se para oeste e banha uma localidade que conta seis choupanas de barro. O capitão da guarda deu-me inúmeras provas de delicadeza. Logo que examinou o meu passaporte, convidou-me gentilmente a entrar em sua casa, dispensou-me do pedágio, que seria de 80 réis por pessoa e 320 réis por animal; e acompanhou até a outra margem, para me levar laranjas e bananas, cuja utilidade, garantiu-me, breve eu apreciaria, devido à contínua falta de água no caminho. Havíamos atravessado o rio numa balsa composta de três canoas, com um corrimão, atada a um cabo feito de folhas de palmeiras. Na outra margem, depois de cordial despedida, separei-me do honrado capitão que, de boa vontade, me reteria por mais longo tempo em sua companhia.

Penetramos em seguida num corte da mata cujas grossas árvores, de formas para mim desconhecidas, eram entrelaçadas, em estranhas sinuosidades, por parasitas arbóreos, os quais, da grossura de um braço, frequentemente contorcidas, às vezes esburacadas, em maravilhosas grinaldas, tornam a descer de vinte braças de altura [cerca de 40m] até atingirem o solo; e constituíam, por assim dizer, uma impenetrável malha para os raios solares e que, como cordoalha de navio, se movia ao mais leve impulso. Essa imagem marcou poderosamente meu espírito. Com temeroso respeito atravessei essa abóbada da selva, o escuro dessa floresta, que, com figuras indefinidas, se me afigurou como um grande segredo da Natureza. Quando acabamos de atravessá-la, enfiamos por uma planície interrompida aqui e ali por colinas relvosas. Depois de caminharmos mais duas léguas atingimos a Fazenda Barreiro, que consistia em algumas pobres choupanas de barro, e pouco depois nos instalamos para dormir na fazenda do Capitão Carvalho" (Johann E. Pohl, 1832).

Na "Cartografia da Conquista do Território das Minas", de Antônio Gilberto da Costa, editora UFMG (2004), todas essas rotas são registradas. Cruzou a calcária Mata de Pains, bebendo a tão detestada água dura ou calcária. Só no São Francisco pôde saciar sua terrível sede. Desde então corre o aforismo que quem bebe da água do rio São Francisco em Iguatama um dia voltará. A paisagem descrita pode ser a várzea do rio até a mata da Estiva, a fazenda ecológica do Olinto. A travessia em balsa foi criada por decreto imperial e vem dessa época a origem do povoado surgido em torno de uma capela dedicada à Senhora da Abadia.

O pescador Lico Paiva remexe as brasas da lareira, coloca mais achas de lenha. O aroma de peixe assado invade o rancho, enquanto vai contando que perdeu o maior dourado jamais visto naqueles altos do São Francisco, maior do que o da emulsão de Scott, diz ele. Enquanto comemos as postas de peixe crocantes, ele diz que "o mundo acabou, isto aqui era tudo coberto de matas escuras, os peixes emudeceram e só por milagre da padroeira voltarão". E repete crédulo na fé e descrente das leis, já entrando na canoa, cantando com voz rouca o Milagre d’ Abadia.

Ele se referia à lenda da Senhora da Abadia do convento do Bouro na cidade de Braga, em Portugal. O culto originou nesse mosteiro por volta do ano 883. Quando os mouros invadiram a península Ibérica, os monges fugiram, escondendo a imagem da Virgem Maria. Tempos depois uma estranha luz entre os rochedos revelou a imagem. Cheios de alegria, os abades se prostraram e oraram. Mudaram a abadia para aquele sítio e ali edificaram uma ermida. Outra versão diz que a santa veio de uma abadia irlandesa, onde dezenas de monges teriam sido decapitados por hordas invasoras.

A outra terra rio abaixo é a cidade de Martinho Campos a duzentos quilômetros.

ABENÇOAR – É o que fez o bispo franciscano frei Luís Cappio – o peregrino maior – em 1992, percorrendo a pé ao longo do rio desde as cabeceiras até a foz em missão apostólica e de resgate ecológico e cultural; rezou missas e pregou pela revitalização do rio e das gentes. Passou por aqui, rezando missa na lagoa de Inhumas. Dez anos depois, num dia tempestuoso de novembro de 2001, largou na barca PIPES a Expedição Américo Vespúcio, após audiência pública e construção da "Carta de Iguatama" na Escola de Meio Ambiente local, e teatro ambiental sergipano de Graça Melo nesta e em São Roque; veja em: www.caminhodosaofrancisco.com.br

Desde então as matas ciliares vêm se recuperando e as lagoas… que lagoas?

 

Geraldo Gentil Vieira – geraldogvieira@gmail.com