Serra Vermelha - Ponto de Vista

Serra Vermelha, conceitos e reflexões

20 de julho de 2007

  Gisele Daltrini Felice (Geógrafa, com mestrado e doutorado em Arqueologia pela Universidade Federal de Pernambuco, docente do curso de Geografia da Universidade Federal do Piauí e arqueóloga da Fundação Museu do Homem Americano.)     Quando a sociedade brasileira consegue levar ao conhecimento nacional o início de um empreendimento “legalmente aprovado” mas ecologicamente questionável,… Ver artigo


 


Gisele Daltrini Felice (Geógrafa, com mestrado e doutorado em Arqueologia pela Universidade Federal de Pernambuco, docente do curso de Geografia da Universidade Federal do Piauí e arqueóloga da Fundação Museu do Homem Americano.)


 


 


Quando a sociedade brasileira consegue levar ao conhecimento nacional o início de um empreendimento “legalmente aprovado” mas ecologicamente questionável, demonstra conscientização com o futuro ambiental do País. Trata-se do Projeto Energia Verde, em execução na Serra Vermelha, localizada na bacia hidrográfica do Parnaíba, sub-bacia do Gurguéia, no sul do estado do Piauí, abrangendo os municípios de Redenção do Gurguéia, Morro Cabeça no Tempo e Curimatá, este último integrante do núcleo de desertificação de Gilbués.


A base técnica do projeto fundamenta-se em um “manejo” de aproximadamente 78 mil hectares de florestas, dividida em 13 UPAs (Unidades de produção anual) a serem trabalhadas alternadamente. Todo o material lenhoso acima de 2cm é aproveitado através do corte raso, sem queimadas ou a destoca das raízes. A madeira coletada é encaminhada aos fornos para produzir carvão. De acordo com os “especialistas” defensores do negócio, em 13 anos a vegetação estará recuperada, voltando ao seu estágio original para novamente ser cortada.
Não é necessário o conhecimento profundo sobre botânica para saber que o povoamento e repovoamento vegetal de uma área é um processo lento que segue regras e dinâmicas especificas. Por exemplo: as plantas pioneiras heliófitas (adaptadas à luz e formadoras do bosque) surgem primeiro, seguidas pela vegetação ombrófila (adaptadas à sombra formadora do sub-bosque), produzindo o que se conhece por sucessão vegetal.
Mesmo mantendo as raízes das árvores haverá uma seleção de espécies de acordo com o sucesso adaptativo de cada planta a uma nova situação ambiental, privilegiando algumas espécies em detrimento a outras. Apesar da preservação das raízes, nem todas as plantas terão o mesmo sucesso para rebrotar e “vingar”.
Considerando que além de manter as raízes, sejam deixadas árvores representativas do ambiente, sem corte, para dispersar suas sementes e então repovoar a área, elas deveriam ter sido estudadas e catalogadas, permitindo que pudessem ser reconhecidas e marcadas em campo. Dessa forma, os trabalhadores que estão executando o corte direto, saberiam quais espécies deveriam ser mantidas como “porta-semente”.
Mudanças climáticas – A fraca documentação do projeto não traz dados fundamentais para a situação de “manejo”. As informações que o empreendimento apresenta são classificações gerais, sem especificações técnicas. Por exemplo: quais serão as conseqüências ambientais quando a vegetação do ambiente de chapada for cortada?
Certamente a retirada da cobertura vegetal diminuirá a umidade relativa do ar realizada pela evapotranspiração além de modificar a circulação dos ventos que eram barrados pela vegetação. Somado a estes aspectos, o funcionamento dos fornos acarreta uma maior emissão de gases para a atmosfera e um aumento da temperatura local. Todos esses fatores acarretam mudanças microclimáticas. Tais alterações não foram estudadas e suas conseqüências ambientais, sequer, projetadas.
 Quanto ao solo que ficará desprotegido depois da eliminação da vegetação e sujeito a todos os processos erosivos, não existe nenhum tipo de estudo ou cálculo sobre suscetibilidade, quantificação das perdas de solo ou classificação da erodibilidade pela erosão linear (sulco, ravina, voçoroca). Sem a cobertura vegetal, a infiltração da água será maior, podendo ocorrer saturação do solo e lentos movimentos de massa laterais nas áreas planas.
O processo de lixiviação será intensificado carregando sedimentos para as porções topograficamente mais baixas, contribuindo para o assoreamento dos cursos d’água. A retirada da cobertura vegetal permitirá que o vento transporte sedimentos que contribuirão como agentes de abrasão das rochas, prejudicando os corpos d’água.
Outra questão diz respeito às áreas de preservação ambiental (reserva legal), em sua maioria, trechos no sopé da serra, vales e reentrâncias de boqueirões – áreas que legalmente já são protegidas e de difícil acesso para desmate em função da irregularidade topográfica.
A imensa chapada da Serra Vermelha, e áreas adjacentes, podem abrigar sítios arqueológicos que precisam ser pesquisados. A possibilidade de existirem vestígios pré-históricos nesta área é imensa, pois a região fica vizinha ao Parque Nacional Serra da Capivara e ao Parque da Serra das Confusões
História – Historicamente existe uma curiosidade a respeito dos estudos botânicos dessa região. O prof. Afrânio Fernandes, da UFCE, na década de 80, em função da diversidade de espécies e dificuldade de caracterização desse ambiente, denominou toda essa região de “Carrasco” ou “Mata do Piauí” em função das suas especificidades que precisam ser detalhadamente estudadas.
Nos recentes trabalhos de pesquisas do Museu de Zoologia da USP, foram identificadas espécies desconhecidas pela ciência neste tipo de formação vegetal. Num destes trabalhos, os pesquisadores Cristiano Nogueira e Miguel Trefaut, catalogaram duas novas espécies de lagartos relictuais, indicando um ambiente extremamente antigo.



É preciso centrar o desenvolvimento do Piauí e do Brasil, em suas vocações e diversidades ambientais e culturais, com base no conhecimento e valorização do nosso rico patrimônio.



As carvoarias continuam funcionando sem autorização na zona rural de Corrente-PI e não é incomodada pelas autoridades ambientais do Estado. Sem equipamentos de segurança, os trabalhadores são tão explorados quanto os recursos naturais.


 



Santuário de rara beleza e rica biodiversidade, Serra Vermelha está sendo devorada pela ganância de empresários e pela omissão de autoridades ambientais estaduais e federais. Intelectuais e movimentos sociais do Piauí pedem a criação do Parque de Serra Vermelha,
uma luta capitaneada por ambientalistas, procuradores e pelo reporter fotográfico André Pessoa e pela jornalista Tânia Martins.


 


Questinamentos sobre o desmatamento


Serra Vermelha, segundo o ambientalista Francisco Soares, além da beleza cênica aparece entre os 900 locais considerados prioritários para a biodiversidade brasileira. Para o diretor do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Curimatá, Elias Ribeiro da Silva, o desmatamento, as carvoarias, a matança de animais silvestres e um projeto reconhecidamente nada sustentável ameaçam a região. O governo demora para fazer de Serra Vermelha um parque ecológico.


Muitos são os questionamentos sobre a área onde vem sendo implantado o projeto
Energia Verde:
1) De que ambiente estamos tratando – um bioma de Caatinga, ou um ecótono entre Caatinga e Cerrado?
2) Seria um enclave de uma formação vegetal relictual?
3) Qual a idade desta formação vegetal?
4) Qual o patrimônio ambiental que ela abriga em termos de fauna e flora?
5) Como será a real recuperação deste ambiente quanto à flora, fauna e ao solo?
6) Quais as conseqüências regionais deste “tipo de desmatamento”?
7) Como uma área indicada para preservação ambiental pelo Conama, misteriosamente transforma-se em área de exploração vegetal para produção de carvão?
Está na hora de acabar com alguns estereótipos:
1) Que o Piauí é um estado pobre;
2) Que a Caatinga é uma vegetação sem biodiversidade;
3) Que o clima Semi-árido desvaloriza o preço da terra.
4) Está na hora de parar de acreditar que o crescimento do País deve ser baseado nos projetos de monocultura e extração mineral e vegetal que possuem um custo ambiental e social tão altos.
5) É preciso centrar o desenvolvimento do Piauí e do Brasil em suas vocações e diversidades ambientais e culturais, com base no conhecimento e valorização do nosso rico patrimônio.


Gisele Daltrini Felice

 

CARTAS de Leitores


Serra Vermelha/ André Pessoa
Muito bom o trabalho  do repórter-fotógrafo André Pessoa e da jornalista Tânia Martins. Fotos espetaculares, visitas no local do crime ambiental. Coragem de gente grande em prol da natureza. Enquanto autoridades fazem olhar de paisagem, batalhões contratados por empresários inescrupulosos vão com motosserras  desmatando e desertificando o Piauí em escala industrial.
O povo do Piauí deveria fazer uma homenagem a estes dois repórteres da Folha do Meio Ambiente e aos procuradores que querem salvar Serra Vermelha. Antes que toda esta área se transforme numa grande Gilbués. Ainda bem que tem os “Luciano Cordoval” que, com tratores e pá carregadeira, plantam água nas terras de Minas e do Piauí, amparados por gente humilde.
Realmente são dois Brasís. Dois terríveis Brasís em confronto desigual. Quem ganha com isto são os novos coronéis com técnicos travestidos. Quem perde é o glorioso Piauí e sua gente de bem. Fico por aqui com a minha indignação.
Geraldo Gentil – Brasília – DF  jwac@pop.com.br


André: Sua resposta está absolutamente correta. É contundente e, claro, não serve apenas como
resposta à jorna-lista da JB Carbon S/A, Isabela Vargas. Pode ser usada para outras respostas. Vou publicá-la no site da Apremavi – Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí – SC e no site da Rede de ONGs da Mata Atlantica.
Miriam Prochnow
Apremavi – Itajai -SC
miriam.apremavi@terra.com.br
  
André Pessoa: são pessoas como você, entre outros, que ainda incomodam essa gente que se acha no direito de fazer o que bem entendem com o meio ambiente. Você já assistiu um documentário chamado THE CORPORATION? Vale a pena assistir. São fatos que você já sabe mas vale a pena ver.
Cleiton Devesa
cdevesa@bol.com.br


(Veja mais cartas de leitores na seção de cartas)