Brasil

Temer cria duas maiores reservas marinhas do Brasil

3 de abril de 2018

Com área equivalente aos Estados de Minas Gerais e Goiás juntos, unidades abarcam arquipélagos de Trindade e Martim Vaz (ES) e São Pedro e São Paulo (PE).

 

 

Água bate nas rochas do arquipélago São Pedro e São Paulo (Foto: Eduardo Carvalho / Globo Natureza)

 
 
 
O presidente Michel Temer assinou decreto que transforma partes dos arquipélagos de São Pedro e São Paulo, em Pernambuco, e de Trindade e Martim Vaz, no Espírito Santo, nos dois maiores conjuntos de unidades de conservação marinha do Brasil. De acordo com o decreto, no Diário Oficial da União, foram criadas duas Áreas de Proteção Ambiental (APA) e dois Monumentos Naturais (MONA) nas proximidades dos arquipélagos, num total de 92 milhões de hectares – uma área equivalente aos estados de Minas Gerais e Goiás somados. Segundo o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, o decreto faz com que a porção de águas marinhas protegidas no Brasil passe de 1,5% a 25%. Isso permite que o país cumpra com folga um acordo internacional que prevê a proteção de 17% das águas marinhas e costeiras até 2020.
 
 
 
 
Pesquisadores estudaram a cordilheira submersa entre Vitória e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente. A cordilheira é composta por 30 montes submarinos de origem vulcânica (Foto: João Luiz Gasparini)
 
 
 
VITÓRIA DA NATUREZA
 
 
Angela Kuczach é Bióloga e diretora executiva da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação.
 
 
 
 
Angela Kuczac, diretora-executiva da Rede Pró-Unidades de Conservação, salientou que o decreto representou "uma vitória para a natureza". "Os limites (das unidades) poderiam ser melhores, o desenho das áreas poderia ser mais representativo e ter incorporado áreas que ficaram de fora, mas é inegável o ganho e o avanço que tivemos hoje", afirmou.
 
'Floresta no fundo do mar'
 
Uma das reservas criadas abarca uma formação que o biólogo capixaba João Luiz Gasparini define como "uma floresta tropical no fundo do mar" – a cordilheira composta por cerca de 30 montes submarinos de origem vulcânica entre a cidade de Vitória e a ilha de Trindade, a 1.200 km do continente.
 
A proteção da cordilheira – dona da maior variedade de espécies que vivem em recifes entre todas as ilhas brasileiras – era uma demanda antiga de pesquisadores, que a consideram essencial para a manutenção de estoques pesqueiros em águas vizinhas e um dos melhores laboratórios naturais do mundo. A cadeia ganhou visibilidade global em agosto de 2017, quando um estudo baseado na formação de sua fauna foi capa da revista científica "Nature".
 
Coautor do artigo, João Luiz Gasparini descreve o espanto de sua primeira visita a Trindade, em 1995. Logo após desembarcar na ilha, diz ter encontrado numa poça de maré uma espécie que jamais havia sido catalogada pela ciência – um peixe azulado com uma mancha amarela no topo.
"De cara percebi que existia ali um universo fantástico para ser explorado", ele diz.
 
 
 
 
 
Cadeia de montes submarinos entre Vitória e a ilha de Trindade guarda "floresta tropical no fundo do mar" (Foto: Museu Nacional – UFRJ)
 
 
 
 
PEIXES RECIFAIS
 
O animal, batizado Stegastes trindadensis, integra o grupo de 13 espécies de peixes recifais endêmicas (restritas ao local) registradas na cordilheira até agora. Somando-as às que também habitam outras regiões, a lista alcança 270 espécies de peixes recifais – 24 delas ameaçadas de extinção –, uma das mais altas taxas de diversidade entre todas as ilhas do Atlântico.
 
Também habitam a cordilheira cerca de 140 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubarões e 12 de golfinhos e baleias.
 
Para Gasparini, há muitas outras espécies a descobrir. "A gente ainda mal arranhou a casca do ovo da biodiversidade da cadeia Vitória-Trindade."
 
Pesquisadores tentam agora ultrapassar pela primeira vez o ponto no fundo do mar a partir do qual a temperatura cai drasticamente, uma variação conhecida como termoclina. Por enquanto, alcançaram no máximo 80 metros de profundidade.
 
 
 
 
 
A reserva tem 40 tipos de moluscos, 28 de esponjas, 87 de peixes de mar aberto, 17 de tubarões e 12 de golfinhos e baleias (Foto: João Luiz Gasparini)
 
 
 
 
Abaixo dessa zona, sobre montes mais distantes da superfície, esperam encontrar espécies distintas das vistas até agora. "Os recifes mais profundos são o novo éden, a próxima fronteira para quem quer fazer mergulho científico no mundo", diz Gasparini.
 
 
MISSÃO DESFIADORA
 
Há muitos anos pesquisadores tentam chegar às águas frias da cordilheira, mas a distância entre a costa e os montes submersos mais fundos torna a missão complexa.
 
Navios da Marinha costumam levar três dias para chegar a Trindade, onde o Brasil mantém uma base militar. E para mergulhar até as profundezas com segurança, é preciso contar com equipamentos caros.
 
O biólogo capixaba Hudson Pinheiro, principal autor do artigo na "Nature" e que faz pós-doutorado na "California Academy of Sciences", diz que as eras glaciais ajudam a explicar a biodiversidade da região.
 
Naqueles períodos, enquanto os habitats costeiros eram afetados pela redução do nível da água, os montes submarinos ficaram expostos como ilhas, tornando-se refúgios para a vida marinha.
 
Conforme o nível do mar subiu nos últimos 10 mil anos, muitas dessas espécies permaneceram isoladas e se adaptaram aos novos ambientes, agora submersos. Mesmo assim, a cadeia jamais perdeu a conexão com o continente, pois muitas espécies costeiras usam os montes como trampolins, deslocando-se pela cadeia de uma extremidade à outra, no meio do Atlântico.
 
Hoje ao menos dez desses montes têm entre 30 metros e 150 metros de profundidade. O elo da cordilheira com o continente, diz Pinheiro, é o que torna a formação brasileira única no mundo. Há outras cadeias montanhosas de origem vulcânica no meio do oceano, como o Havaí. Mas, como estão distantes do continente, o deslocamento das espécies nessas áreas é limitado.
 
Outra explicação para a riqueza da fauna na cordilheira é variedade de algas calcárias, um tipo de planta marinha responsável pela formação de recifes naturais. Há na cadeia 16 espécies dessas algas, que criam nichos e habitats para centenas de outras espécies.
 
Pinheiro era um dos principais entusiastas da criação da reserva marinha. Hoje, diz ele, a área está ameaçada pela pesca comercial e pela mineração.
 
Há na região relatos sobre a ação de barcos com redes presas a grandes rodas, do tamanho de pneus de caminhão, que são arrastadas sobre os recifes.
 
 
 
 
O Ministério do Meio Ambiente enviará um decreto à Presidência para a criação de uma unidade de conservação em torno da cordilheira (Foto: João Luiz Gasparini)
 
 
 
 
PESCA DE ESPINHEL E MINIERAÇÃO SUBMARINA
 
Outro tipo de pesca que preocupa os pesquisadores é a feita com espinhel, quando anzóis são enfileirados para capturar peixes maiores. Tubarões são muito vulneráveis a esse método de captura; como geram poucos filhotes, podem ser rapidamente aniquilados.
 
Não só barcos brasileiros atuam na cordilheira. Parte da cadeia Vitória-Trindade fica em águas internacionais, por onde transitam barcos estrangeiros. Segundo os pesquisadores, há relatos de que esses barcos também estariam pescando no mar territorial brasileiro, o que é ilegal.
 
Em nota à BBC Brasil, a Marinha disse realizar patrulhas regulares na cordilheira para inspecionar e apreender embarcações irregulares.
 
Outro temor dos pesquisadores era a mineração submarina. Segundo um estudo no site do ICMBio, o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) já concedeu duas licenças para a exploração de bancos de rodolito (crostas de alga calcária e outros organismos) e recifes de corais na cadeia Vitória-Trindade.
 
A atividade durou três anos, e o material extraído foi usado como fertilizante em plantações de cana-de-açúcar. No site do DNPM há registro de novos pedidos de licença na região.
 
 
 
 
 
Os pesquisadores registraram 13 espécies de peixes recifais endêmicas (restritas ao local) na cordilheira até agora (Foto: João Luiz Gasparini)
 
 
 
 
Segundo Hudson Pinheiro, a atividade destrói formações que levam milhares de anos para se desenvolver e põe em risco muitas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção.
 
O pesquisador disse esperar que a criação da reserva ponha fim à atividade e que a proibição da pesca em partes da cordilheira ajude a repor estoques de peixes em áreas vizinhas sobrexploradas.