queimadas

Terras indígenas de RO têm maior número de queimadas em 10 anos; alta nos focos é de 28% em relação a 2019

16 de novembro de 2020

Entre 1º de janeiro e 31 de outubro de 2020, foram 667 focos registrados pelo Inpe, enquanto em todo ano passado houve 518 pontos de chamas.

Por Mayara Subtil, G1 RO

 

Gado pasta em meio à fumaça causada por um foco de queimada da Amazônia em Rio Pardo. — Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Gado pasta em meio à fumaça causada por um foco de queimada da Amazônia em Rio Pardo. — Foto: Ricardo Moraes/Reuters

O quantitativo de focos de queimadas nas terras indígenas de Rondônia nos dez meses de 2020 já é o maior registrado nos últimos dez anos e representa 28,7% do que foi verificado em todo o ano passado, apontam dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Conforme os números captados pelo satélite de referência do instituto, foram 667 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 31 de outubro deste ano. Em toda 2019, houve 518 pontos de chamas detectados nas terras indígenas do estado.

O recorde da década ocorreu em 2010, com 857 pontos de queimadas em áreas indígenas de Rondônia.

O Programa Queimadas do Inpe analisa a situação das TIs com mais focos dentro e fora do seu território.

As terras indígenas de Rondônia que mais registraram focos de queimadas nos 10 meses de 2020 foram:

  • Massaco – 100
  • Rio Branco – 85
  • Uru-Eu-Wau-Wau – 76
  • Pacaas Novas – 71
  • Karipuna – 60
  • Roosevelt – 37
  • Igarapé Lourdes – 35
  • Sete de Setembro – 33
  • Rio Negro Ocaia – 25
  • Parque do Aripunã – 21
  • Sagarana – 20

“O aumento dessas queimadas em terras como a Uru-Eu-Wau-Wau, Karipuna e Rio Branco tem a ver com todo o desmatamento, invasão de terra e grilagem de terra que sofreu porque os invasores desmataram e agora vieram e queimaram e demonstra a necessidade urgente de ações que sejam realmente protetivas e eficazes”, declarou Ivaneide Bandeira, da Associação Kanindé.

Alertas de desmatamento
A Amazônia Legal teve uma área de 836,23 km² sob alerta de desmatamento em outubro, a maior para o mês desde que o monitoramento começou, em 2015, mostram dados atualizados na sexta-feira (13) pelo Inpe.

Os alertas foram feitos pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que produz sinais diários de alteração na cobertura florestal para áreas maiores que 3 hectares (0,03 km²), tanto para áreas totalmente desmatadas como para aquelas em processo de degradação florestal (exploração de madeira, mineração, queimadas e outras).

A maior parte da área desmatada da floresta em outubro foi no Pará (que desmatou 398 km², cerca de 48% do total calculado para o mês). O estado também teve os maiores números de desmatamento em setembro e agosto.

No mês passado, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o governo federal vai prorrogar até abril de 2021 a presença das Forças Armadas na Amazônia Legal. O governo decidiu enviar militares para a região com o objetivo de fazer ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais. A operação é direcionada ao combate ao desmatamento ilegal e a focos de incêndio.

Em 2019, Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), declarou ao G1 que é fato que os povos indígenas têm o costume de queimar roças dentro da terra. Entretanto, Ane explicou que isso ocorre há milhares de anos. Por isso, o aumento dos focos nestas terras, segundo ela, só pode ser explicado pela entrada de invasores e/ou períodos fortes de seca.

 

Resistência dos Karipuna

Também no ano passado, o G1 esteve na terra indígena Karipuna para entender como estão resistindo às pressões. Um prédio doado pela empresa Santo Antônio Engenharia para servir de sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi destruído. Sem oficiais permanentemente dentro da terra, a base foi furtada, desmatada ao redor, destruída e queimada.

Ainda durante a visita ao território, a reportagem encontrou vestígios de uma invasão a cerca de 5 quilômetros da aldeia. No local, ainda haviam alguns chinelos e pedaços de eletrodomésticos.

Em junho do ano passado, uma operação federal cumpriu 4 mandatos de prisão temporária, 5 de preventiva e 15 de busca e apreensão contra invasores. O sequestro dos bens dos investigados chegou a R$ 46 milhões.

 

Povo Karipuna ao lado do rio Jaci Paraná, em Rondônia — Foto: Fábio Tito/G1

Povo Karipuna ao lado do rio Jaci Paraná, em Rondônia — Foto: Fábio Tito/G1

 

Ciclo do desmatamento

As queimadas na Amazônia têm relação direta com o desmatamento. O fogo é parte da estratégia de “limpeza” do solo que foi desmatado para posteriormente ser usado na pecuária ou no plantio. É o chamado “ciclo de desmatamento da Amazônia”.

Após o fogo, o pasto costuma ser o primeiro passo na consolidação da tomada da terra. Nos casos em que a ocupação não é contestada e a terra é de qualidade, o próximo passo é a exploração pela agricultura.

O que provoca as queimadas?
Para haver fogo, é preciso combinar: fontes de ignição (naturais, como raios, ou antrópicas, como isqueiros ou cigarros); material combustível (ter o que queimar, como madeiras e folhas); e condições climáticas (seca).

Como a Amazônia é uma floresta tropical úmida, os incêndios mais recorrentes ocorrem quando a madeira desmatada fica “secando” por alguns meses e, depois, é incendiada para abrir espaço para pastagem ou agricultura. Segundo especialistas, um incêndio natural não se alastraria com facilidade na Amazônia.

As queimadas são apenas uma das etapas do ciclo de uso da terra na Amazônia. Depois do desmate, se nada de novo acontecer, a floresta pode se regenerar. Uma floresta secundária, no entanto, nunca será como uma original, mesmo que uma parte da biodiversidade consiga se restabelecer. Na prática, o que acontece é que a mata não tem tempo de crescer de novo.