Observatório Amazônico

Uma torre de metal com 325 metros vai monitorar floresta

16 de dezembro de 2015

Brasil e Alemanha se deram às mãos e construíram uma torre quase do tamanho da Torre Eiffel para analisar a interação da floresta com o ambiente

“A obra é importante e tem a função de ser um laboratório para estudar a relação entre a floresta e as mudanças climáticas em curso no planeta”. Max Planck

 
 
 
A Torre é o olhar de cientistas sobre a floresta. Com 325 metros de altura e munida de instrumentos científicos, a torre amazônica vai ajudar na compreensão do processo de aquecimento global e no monitoramento da maior floresta tropical do mundo.
Essa torre, a 350 quilômetros de Manaus, está localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã. O projeto científico é coordenado em parceria pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o centro Max Planck, da Alemanha.
Para o cientista Meinrat Andreae, diretor do Instituto Max Planck, “a obra é importante e tem a função de ser um laboratório para estudar a relação entre a floresta e as mudanças climáticas em curso no planeta”. Meinrat Andreae explica que para chegar até a torre, é preciso percorrer estradas de terra e fazer parte da viagem por rio. Ali, não há barulho de civilização, só da mata e dos animais que a habitam. Sinal de celular ou internet, nem pensar. “O fato de estar distante das cidades e, portanto, da influência humana, garante a coleta de dados relativamente não adulterados”, diz o diretor do Instituto Max Planck. 
Os cientistas salientam que com 3 mil quilômetros de extensão de leste a oeste, a Floresta Amazônica tem o poder de impactar o mundo todo. Processos climáticos e atmosféricos que ocorrem ali podem ser sentidos em outras regiões do planeta. “Com essa torre, vamos entender melhor qual é o efeito da Amazônia, não só no clima local, mas também no global”, declarou à agência France-Presse Antonio Ocimar Manzi, coordenador do projeto do lado brasileiro.
 
INAUGURAÇÃO
A inauguração da Torre Alta da Amazônia aconteceu no início do ano, mas por enquanto apenas testes pilotos estão sendo realizados. Até 2017, serão instalados todos os instrumentos de análise, que incluem sensores e radares a laser em diferentes alturas para medições do solo (quantidade de água, temperatura e umidade), do ar acima e abaixo da copa das árvores. Também será avaliado constantemente o fluxo de vapor d’água e de aerossóis (partículas sólidas e líquidas em suspensão) importantes para a formação de nuvens. Estão previstas três décadas de análise. Uma das perguntas a ser respondida é o que a Amazônia está fazendo com o excesso de CO2 que começou a ser produzido a partir da segunda metade do século 20 — quando a quantidade de gás emitida aumentou 1,5 vez.
O então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, afirmou que o projeto é uma grande conquista para a ciência mundial. “Os trabalhos desenvolvidos aqui serão para preservar a vida no planeta e dar alternativas para o desenvolvimento sustentável da humanidade. Somos muito gratos aos nossos amigos pesquisadores da Alemanha, do Inpa e aos profissionais que ajudam a construir essa torre na maior floresta tropical contínua do mundo”, disse.
 
Inspiração na Sibéria
Esse fenômeno vinha sendo investigado com a ajuda de duas torres também localizadas em Uatumã, de 50m e 80m, capazes de analisar a interação da mata e da atmosfera em um raio de 10m. Com a nova Torre, esse raio aumentará para 1.000m. “Um estudo de longo prazo, de duas ou três décadas, determinará quais serão os efeitos que as mudanças climáticas vão ter sobre esses ecossistemas aqui”, esclareceu Antonio Manzi.
O projeto é inspirado no Observatório de Zotino, instalado em 2003, na Sibéria, para estudar as concentrações de carbono, metano e outros gases do efeito estufa na taiga (floresta boreal). “Estávamos debatendo em nosso instituto (Max Planck) e Andreae disse que seria perfeito ter algo como a torre siberiana na Região Amazônica. Eu disse a ele: ‘Excelente, mas quem vai pagar por isso?’”, contou Jurgen Kesselmeier, que acabou se tornando o coordenador alemão da iniciativa.
O Torre Alta da Amazônia custou R$ 26 milhões e foi financiado em partes iguais pelos governos de Brasil e Alemanha. Toda a estrutura foi construída no Paraná por uma empresa brasileira que venceu a licitação. O transporte das 15.000 peças que a compõem levou 15 dias.
A torre pesa 142 toneladas e é sustentada por longos cabos de aço que também lhe dão estabilidade.