AS CRIANÇAS E A EXPOSIÇÃO AOS ELETRÔNICOS

1 de março de 2022

“Não dá para terceirizar a formação das crianças aos eletrônicos que no fundo querem vender alguma coisa”.

 

 

Depois de um ano e meio de pandemia, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais fizeram um alerta: são muitos os riscos da alta exposição de crianças às telas de equipamentos eletrônicos, como celular, computador, televisor e tablet. Evidente, que durante a pandemia, essa exposição, que já era alta, aumentou sensivelmente. Era o recurso que as famílias tinham para entreter as crianças. Essa situação, que foi vista como passageira, agora é alvo de preocupação.

Não é só o excesso de exposição a telas, que pode causar transtornos no desenvolvimento das crianças. A mínima exposição já é suficiente para colaborar com o aumento da irritabilidade, dificuldade de sono e comportamento das crianças.

Criar filhos se tornou algo complexo, para a maioria das famílias. Essa sensação, que muitas vezes não são só sentidas e sim vividas na prática, tem impactado na formação comportamental da atual geração. Atualmente, os pais são expostos à uma educação que não se pode ser replicada. Cada geração tem suas características. A atual trouxe um elemento antes jamais experimentado: a disponibilização das muitas tecnologias.

O PERIGO DO EXCESSO

Ao mesmo tempo que tantos recursos chegam para elevar nossas conexões e conhecimentos, eles carregam o perigo da desinformação, do excesso, do distanciamento e do estresse. Sim, esse estresse, que muitas vezes não é possível ser notado no primeiro momento, tem crescido cada vez mais.

Sabemos as consequências, mas qual a causa desse fenômeno’? Ele vem motivado pelo difícil controle que os pais têm sobre o tempo dos filhos. Todas as ferramentas da tecnologia são usadas para o trabalho, lazer, pesquisa, contato e interação. Aí encontramos uma nova questão: como controlar o incontrolável? Acontece que as crianças absorvem e manifestam, esse estresse de uma forma diferente. A manifestação delas é sentida no sono desregulado, na agitação, na agressividade, na impaciência, na falta de habilidade em lidar com a frustação e, o mais perigoso de todos, a falta de criatividade. Sim, na falta de paciência para brincar, pode-se dizer, de forma analógica’.

INCENTIVO AO BRINCAR

É importante ter a percepção de que o digital permite que a criança viva o prazer de consumir algo, sem dar nada em troca, sem lhe tirar energia, sem lhe exigir esforço.

Essa questão, quando observada com profundidade, ultrapassa as paredes da casa e chega às escolas. Quando a professora observa que a criança não tem paciência para escrever no caderno, quando não quer brincar de jogar pedrinha ou pular amarelinha, às vezes, até uma simples pintura na aula de artes se torna um desafio. E para ampliar nossa reflexão, observamos que as instituições de ensino, geralmente, adotam em seus currículos uma forte tendência de expor cada vez mais os alunos a esse universo. Os impactos desses comportamentos e os benefícios ou malefícios dessa escolha só poderão ter avaliação segura no futuro. Por hora, temos uma certeza: o equilíbrio é o caminho.

DESAFIO

Após atender muitas famílias, percebi as dificuldades que a maioria tem em encontrar o caminho do equilíbrio. Assim, considerando que as crianças seguem cada vez mais expostas e tendo, inclusive, na sua rotina diária, o tempo que pode consumir as telas eletrônicas, proponho um desafio aos leitores do Correio Braziliense: tire o acesso do seu filho, por 7 dias, de todas as telas, de qualquer estímulo visual que venha pela tecnologia.

Você logo perceberá o resultado. E vai se surpreender porque terá uma criança mais viva, com mais disposição o que vai refletir na própria tranquilidade de seu sono.

Parece mágica, mas não é. Assim como já notei nos diversos “feedbacks” de famílias que orientei, a ausência ou uso equilibrado das telas transforma a criança. A criança será uma versão melhor dela mesma.

Vale dizer: tecnologia é bom. É a tendência. O futuro. Vai sempre democratizar a informação e facilitar nossas vidas. Mas nada facilitará mais a função do ser humano do que se relacionar, socializar, abraçar e expor diretamente os sentimentos. Nenhum celular ou bichinho de pelúcia vai substituir o contato direto. Se para um adulto já formado é assim, imagina para uma criança em formação.

RECOMENDAÇÕES

Então, vem a pergunta: quando e quanto liberar os eletrônicos?

O que seria um consumo adequado na infância?

Objetivamente, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que o uso de telas, com bom senso, só pode começar a partir dos 2 anos de idade. Alguns neurocientistas são mais radicais. Para eles o cenário ideal é nada de telas até os 6 anos.

Dos 6 em diante, no máximo meia hora de tela por dia, passando a 60 minutos a partir dos 12. Mas vale ponderar que deve haver bom senso. Por força das circunstâncias, crianças mais velhas às vezes precisam estudar a distância.

OUTROS CUIDADOS: evitar vídeos e games antes de ir à escola e antes de dormir. Tudo isso, claro, depende dos pais, cuidadores e demais familiares que devem ser pacientes e mais presentes no convívio. Mais responsáveis, atentos, ativos e criativos. Em resumo: não dá para terceirizar a formação das crianças aos eletrônicos que, no fundo, sempre querem vender alguma coisa.

Alice Simão

alicesimão@correiobraziliense.com.br